Casas

Norte-americana decide viver em casa de 8 m² e com apenas 305 objetos; veja

Stuart Isett/ The New York Times
Trailer de Dee Williams torna-se casa permanente nos EUA. A construção mede 8 m² imagem: Stuart Isett/ The New York Times

Steven Kurutz

The New York Times, Olympia, Washingiton (EUA)

De tempos em tempos, Dee Williams faz uma contagem dos seus pertences. O último registro resultou em 305 itens. Em muitos lares, este número pode ser apenas o que encontramos nos armários da cozinha ou o conteúdo de um closet. Para Williams, o montante inclui os objetos de sua suíte (um colchão e uma manta) e seu equipamento de entretenimento doméstico (um computador portátil) e até mesmo a sua coleção de joias (quatro no total: dois colares e dois pares de brincos). 

“Isso é tudo”, resume ela, acrescentando que encomendou recentemente um livro sobre design de casas, um excesso. “Estou sempre inspecionando minhas coisas para descobrir do que eu deveria me livrar”. Quando a sua casa mede apenas oito metros quadrados, a vida vai sendo reduzida.
 
Há dez anos, Dee, hoje com 51 anos, vendeu seu bangalô de três dormitórios em Portland, Oregon, construiu uma pequena casa num caminhão reboque e a levou para Olympia, Washington, onde estacionou no quintal de seus amigos Hugh O’Neill e Annie McManus. Sua “grande sala” é pequena demais para um sofá, seu andar de cima se resume a um mezanino para dormir, equipado com uma janela. Há um balcão de cozinha com um queimador a gás, mas não existe forno ou geladeira. Há luzes, mas elas funcionam com energia solar. Há uma pia e um vaso sanitário, mas sem água corrente: o que significa compostagem e nada de chuveiro. Os visitantes podem ser perdoados por pensarem que alguém resolveu morar em um abrigo para as ferramentas, feito de pinho e cedro, bem construído nos fundos.
Vida compacta
 
Antes de ir para o padrão minúsculo de moradia, Dee queria reduzir suas coisas, inspirada por uma viagem que fez por uma área pobre da Guatemala e pela crescente sensação de que sua vida estava sendo consumida pelas tarefas domésticas. Como ela escreve em “The Big Tiny” (Blue Rider Press), seu comovente novo livro de memórias, chegou um momento em que seu coração, literalmente, já não estava em uma casa de tamanho padrão.
 
Aos 40 anos, Dee teve um ataque cardíaco e foi comunicada de que sofria de cardiomiopatia, uma condição que pode ser fatal. Ela começou a considerar sua mortalidade, a pensar como ela gostaria de passar o resto do tempo que tinha e limpar as calhas não estava no topo da lista. “‘Insuficiência cardíaca congestiva’ passou a fazer parte dos meus registros de saúde. Se você fizer uma busca online, a expectativa de vida é tipicamente de um a cinco anos. A ideia de pagar uma hipoteca de 30 anos não fazia sentido”, pondera.
 
Na sala de espera de um consultório médico, Dees leu um artigo  em uma revista sobre um homem chamado Jay Shafer e a minúscula casa que ele havia construído e ficou muito atraída pela ideia. Em pouco tempo ela estaria voando para Iowa para se encontrar com Shafer – guru do mundo das minicasas – e estudando plantas atentamente em sua volta a Portland. Foi uma típica resposta a uma crise de saúde, admite. “Muitas pessoas recebem um diagnóstico ruim, mas não acabam construindo uma pequena casa”, reflete.
 
Ainda assim, acrescenta: “Viver em uma casa pequena fez sentido para mim. Isso me deu uma chance de viver perto de meus amigos e ser feliz pelo tempo que tenho”. No livro, Dee escreve sobre ter convidado seus amigos para irem ao seu bangalô e mostrar a eles a planta de seu novo lar. O espaço proposto não era muito maior do que a área do tapete em que ela estava. Uma de suas amigas, Joan Grimm, relembra seu ceticismo: “Eu me lembro de olhar para ela e dizer: ‘Você é maluca. Isso não faz sentido’. Eu não tinha nenhuma imagem daquilo em minha cabeça, estava trabalhando tão duro por uma casa, e pensava que aquela ideia nunca iria durar ou que duraria um mês”. 
 
Atualmente, Joan é sócia de Dee na Portland Habitações Alternativas, uma companhia que fornece recursos para a construção de pequenas casas para os adeptos do “faça você mesmo”. “Dee sempre diz que há uma parte 'como fazer' e duas partes de 'por quê não?'. Há um momento em que você tem que arriscar”, afirma a amiga.
Comunidade
 
Para Dee, esse salto poderia ter sido menos bem-sucedido se ela não tivesse desembarcado onde desembarcou. Ao estacionar sua casa minúscula no quintal de seus amigos, ela e seu cão, Roodee, tornaram-se parte de uma pequena comunidade cujos membros incluíam Hugh e Annie, seus dois filhos pequenos, Keeva e Kellen e a tia Rita, que morava ao lado.
 
O quintal compartilhado se tornou uma sala de estar do grupo, ou “A Mistura”, como passaram a chama-lo, e Dee foi capaz de, gradualmente, ir à casa da tia Rita para utilizar as comodidades que faltavam em sua minúscula morada, como tomar um banho quente ou, por exemplo, assar uma torta.
 
 “Eu comecei a sentir que pertencia a este lugar. Que eu era parte desta configuração. Tia Rita era alguém que precisava da minha ajuda e ela era uma ótima companhia”, conta Dee. (Tia Rita morreu na primavera passada e inquilinos que abraçaram a ideologia d’A Mistura se mudaram recentemente).
 
Ao longo da última década, Dee se tornou uma grande voz no mundo das casas minúsculas, ensinando em seminários, ajudando os outros a construírem suas próprias moradias de pequeno porte e agora, publicando um livro de memórias. O fato de não ter uma hipoteca para pagar permite que ela trabalhe em tempo parcial, tendo dias livres para visitar amigos ou viajar. Recentemente, ela voou para Charlotte, Carolina do Norte, para participar da Conferência da Casa Minúscula, onde fez o principal painel.
 
Alguns dos participantes do encontro já haviam construído uma casa pequenina. Muitos eram estudantes universitários, aposentados ou outros que sonham simplificar suas vidas ou seus compromissos financeiros. Mas muitas das pessoas com as quais ela conversa nunca irão além da fase de planejamento e pegarão num martelo – “e tudo bem”, diz Dee: “Esse sonho é um bom sonho”.
 
Dee ainda está enfrentando sua mortalidade, está tomando medicação e leva a vida dia a dia, mas escreve em “The Big Tiny” sobre ter encontrado equilíbrio e paz em sua pequena casa, de ser menos medrosa, e se sentir mais viva. Algumas das melhores passagens são quando a construtora descreve a experiência sensorial de estar dentro da casinha: cheiro de cedro cru e pinho nodoso; ouvindo o tempo.
 
 “Numa casa grande é mais fácil ignorar o que está acontecendo do lado de fora. Ou você está tentando constantemente competir com a natureza através do seu termostato. Eu estou mais na fase de colaborar com a natureza”, resume. Dee vendeu sua casa grande em Portland para um amigo e, ao longo dos anos esteve lá algumas vezes, sem arrependimentos. “A última vez que a visitei, notei que precisava de uma pintura nova e eu pensei: ‘Deus, estou tão feliz por não ter que fazer isso’”.
 

Tradutor: Melissa Brandão Gubel (tradução) e Daiana Dalfito (edição)

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