Últimas de Estilo de vida

Designer e esposa colecionam de bengalas a obras de arte em casa de 1912

Tony Cenicola/ The New York Times
Eugene Lee, cenógrafo de Jimmy Fallon e do Saturday Night Live, vive em casa de 1912 e cultiva coleções imagem: Tony Cenicola/ The New York Times

Sandy Keenan

The New York Times, de Providence, Rhode Island (EUA)

Durante anos, o lustre de cristal que Eugene Lee salvou da demolição do teatro Helen Hayes, na Times Square, na década de 1980, esteve sob a responsabilidade do Estúdio 8H no Rockefeller Center, acrescentando um pouco de elegância ao ar rarefeito em torno dos membros do elenco do “Saturday Night Live”, como Eddie Murphy e Dennis Miller.

O opulento acessório foi substituído e Lee - um célebre designer cujos projetos recentes incluem o set de “The Tonight Show estrelando Jimmy Fallon” e do novo espetáculo da Broadway “The Velocity of Autumn” - o levou para sua casa em estilo georgiano, em College Hill. Agora o “chandelier” se encontra pendurado no saguão, iluminando todas as outras coisas que ele e sua esposa Brooke, pintora, vêm colecionando ao longo do tempo.
 
O simples caminhar pela casa lindamente proporcional, construída em 1912 para a filha de um governador de Rhode Island, pode causar uma sensação temporária de vertigem. Há tanto para absorver: camadas e camadas de objetos grandes e pequenos, úteis ou não, todos eles com a mesma aura de antiguidade e pátina.
Eugene, de 75 anos, coleciona utilidades como velhas máquinas de escrever, aspersores Art Dèco, bengalas antigas e escrivaninhas. Broke, de 65 anos, prefere globos terrestres pós-1900 (ela tem cerca de 200), blocos de empilhar de madeira, porcelana britânica colorida e silhuetas (sua coleção é tão extensa que a loja de molduras lhe ofereceu um desconto pelo volume). Em conjunto, o casal adquiriu a enorme tesoura de alfaiate pendurada sob o vão da porta entre as salas de estar e de jantar.
 
“Sempre fomos grandes acumuladores”, diz Eugene: “Não para parecermos artísticos ou algo assim. É muito como as pinturas: você escolhe, escolhe, mas não as compra sem planejamento”. E Brooke acrescenta: “Gostamos da coisa, mas não somos loucos. Eu não passo o dia todo de pijama mudando os objetos de lugar”.
 
Ribalta
 
Nem haveria tempo para isso. Não enquanto Eugene, que entrou para o Hall da Fama do Teatro em 2006, continuar a ser tão requisitado. Você pode não reconhecer o nome dele, o rosto amigável ou seus cabelos brancos espetados, mas você (quase) certamente conhece o trabalho dele. Além do estúdio e do set de filmagens do programa “The Tonight Show”, Lee projetou cenários para inúmeras produções da Broadway e ganhou o “Tony Awards” por três deles: “Wicked”, “Candide” e “Sweeney Todd”. O designer, também, continua a ser o guru da cenografia para o “Saturday Night Live”, um entre os poucos funcionários da temporada inaugural de 1975-76 que ainda trabalha 21 semanas por ano.
 
2014, aliás, tem sido particularmente frenético. Eugene está colaborando com o escritor e ilustrador Chris Van Allsburg em uma nova versão de “O Quebra-Nozes” e fazendo o projeto para o musical “Bright Star” de Steve Martin e Edie Brickell, entre outros. Ao todo, ele trabalha conjuntamente em oito produções por todo o país. Há pouco tempo, “The Velocity of Autumn”, seu 25º show da Broadway, teve sua pré-estreia no Teatro Booth.“É divertido ter coisas acontecendo por toda a cidade”, justifica modestamente.
 
Contudo, quanto mais ocupado está o designer, menos tempo sua esposa tem para gastar com as aquarelas dela – que estão espalhadas pela casa – porque é responsável pela agenda e pelas contas dele. Ou como Brooke resume: “Eu mantenho os relacionamentos e também a organização de Eugene”.
 
Embora a maior parte do trabalho esteja baseada em Manhattan, os Lee nunca consideraram sair de Providence, onde a carreira dele teve início em 1967, como designer da Companhia Trinity Repertory, uma organização à qual ele continua associado como designer residente. Durante as semanas em que o programa “Saturday Night Live” está em produção, Eugene pega o trem na quarta-feira pela manhã, chegando à NBC a tarde para a reunião de roteiro e, assim como o resto da sua equipe de design, trabalha quase sem parar até que o show vá ao ar, ao vivo, no sábado.
 
Al Franken, senador de Minnesota que passou 15 anos participando do show, credita a Eugene a mudança no foco da comédia televisiva norte-americana, que estava se tornando exageradamente teatral no início dos anos 70 com os programas “The Sonny and Cher Comedy Hour” e “The Carol Burnett Show”. “O visual do show é mais responsável pelo do seu sucesso e seu status icônico do que as pessoas pensam. Eugene o tornou elegante e nunca ficou no caminho da comédia”, afirma Al.
 
Lorne Michaels, criador e produtor executivo do programa, concorda: “A comédia estava ficando superficial e estilizada. Nova York era muito diferente naquela época e Eugene projetava o que via: a decadência e tudo mais”. Lorne contratou Lee após ver seu trabalho em “Candide”, uma decisão da qual ele disse nunca ter se arrependido. “Eu sempre digo que Eugene é o único gênio de verdade com o qual eu já trabalhei”, afirma categoricamente.
 
 “Eu só tenho minhas próprias ideias divertidas. Cenografia não tem a ver com escolher molduras”, defende-se Eugene. Trinta minutos antes do início de “Saturday Night Live”, o designer está do lado de fora para se encontrar com um motorista para levá-lo em sua jornada de três horas de volta para a casa, um luxo a que ele recentemente se permitiu.
 
Quando o designer está trabalhando em casa, porém, o trajeto é muito mais fácil. Tudo o que Eugene precisa fazer é sair pela porta dos fundos, passar pelo jardim e subir ao segundo andar da casa de carruagem no final da calçada, onde o espaço apertado é aquecido por um fogão velho abaulado alimentado com madeira e carvão.
 
A congregação de pendentes antigos oscila do teto de seu estúdio e há relógios mais do que suficientes para representar todos os fusos horários mundiais. Todos eles precisam diariamente de corda. E sobre um arquivo de carvalho está um modelo inicial do set de Jimmy Fallon com uma varanda. É um “mock-up” feito antes de Lee decidir que o espaço deveria ser mais intimista.
Família e coleções de memórias
 
Eugene fez algumas escolhas difíceis sobre os tipos de trabalho que aceitaria. Produziu alguns sets para filmes, mas não gostava de ficar longe de Brooke e de seus filhos Will, hoje com 40 anos, e Ted, de 31, enquanto cresciam. Fazer mais cinema também significaria dizer não com maior frequência às pessoas do teatro, as quais considera como família.
 
Em uma recente visita guiada pela casa, Brooke aponta algumas de suas coisas favoritas: “Estes [quadros] não são pinturas de zilhões de dólares. A maioria era de feiras, US$ 25 na tenda do artista”, diz ao se referir às centenas de obras que o casal vem colecionando.
 
Seus filhos se lembram de incontáveis viagens de verão em família aos mercados de pulgas nos arredores da Nova Inglaterra, das visitas às sucatas das cidades industriais. E a dificuldade de comprar presentes para colecionadores tão ávidos: o que você dá a um casal que tem tudo?
 
Will afirma que é um tabu dar qualquer coisa nova aos pais – mas se algo é antigo, as chances são de que já faça parte da coleção deles. “Se eles veem algo que gostam, vão tê-lo. Então você tem que encontrar coisas que eles não encontrariam. Este é o desafio”. Ano passado, o rapaz deu aos dois um modelo miniatura de um trailer Airstream e ficou feliz em vê-lo exposto bem visivelmente quando os visitou. Seu irmão mais novo gosta de fazer piada sobre presenteá-los com algo que já é deles: “Eles nunca saberão. E vão ficar muito animados em ter mais um”.
 

Tradutor: Erika Brandão e Melissa Brandão Gubel (tradução) e Daiana Dalfito (edição)

Topo