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Jardim comunitário completa 30 anos em NY e permanece "quase" secreto

Randy Harris/ The New York Times
A "Garagem Florida" em Manhattan é um dos muitos jardins comunitários da cidade imagem: Randy Harris/ The New York Times

Julie Lassky

The New York Times, de Nova York (EUA)

Há cinco anos venho cuidando de um lote – cultivando hostas, lírios e astilbes e tentando gentilmente persuadir um arbusto de hortênsias a não deixar esta terra – no Lotus Garden, um jardim comunitário na Rua West 97th, entre a Broadway e a Avenida West End. Este é um dos pontos mais exuberantes e tranquilos de Nova York, mas se você nunca ouviu falar dele, não é o único. Enquanto um sinal em um portão de ferro claramente marca a entrada, tudo o que é visível através das grades é um lance de escadas que leva ao telhado de um estacionamento.

Contudo, se você estiver disposto a subir aqueles degraus, encontrará 670 m² de árvores maduras, arbustos e caminhos sinuosos em torno de aglomerados de plantas perfumadas mantidas por 30 jardineiros de idades e níveis de experiência variados. Há vinhas também, pedaços de esculturas, conjuntos de bancos ideais para se conversar, um barracão pitorescamente decomposto e um par de tanques com peixinhos dourados que deram ao jardim o seu nome. Aparentemente um homem da Manchúria, que vinha cultivando lótus em banheiras na sala de estar de sua casa em Manhattan apareceu um dia – na época do jardim estava sendo instalado – e perguntou se poderia colocá-las nos novos tanques, enquanto o clima estava quente.

Três décadas: é o tempo que o jardim se encontra assentado na cobertura da garagem, cercado por edifícios, como um High Line em miniatura sem o enxame de turistas. E então há a história extraordinária pela qual o jardim passou ser o que é: conforme conta Jeffrey Kindley - um jardineiro do Lotus que compartilha um lote com sua esposa, Louise, e está compilando a memória do lugar -, as origens datam do final dos anos 1970. Naquela época a Broadway, entre as ruas West 96th e West 97th, era um caso para o estudo da decadência, depois de ter sido despojada de dois de seus teatros históricos, o Riverside e o Riviera. Os edifícios sobreviveram à morte do “vaudeville”, mas não à recente crise financeira da cidade.

O pai-jardim do Lotus Garden

Kindley conta que, Mark Greenwald, arquiteto do Departamento de Planejamento Municipal e jardineiro de telhado em sua casa na Rua West 97th, se juntou aos membros da associação de bairro para persuadir o Manufacturers Hanover Trust a permitir que o grupo limpasse os detritos e jogasse terra em toda a extensão de um amplo lote desocupado de propriedade da instituição financeira. Em poucos anos, a área de 4 mil m² era trabalhada por 125 jardineiros. Ele notou que até mesmo os sem-teto da região lhes davam apoio: Certo dia uma pessoa pulou a cerca e roubou um tomate, um dos homens que estavam na esquina acertou o ladrão com uma garrafa de vinho.

Entre os jardineiros havia uma compositora e escritora de comédias chamada Carrie Maher. Greenwald passava pelo terreno baldio em seu caminho para o metrô todas as manhãs e passou a conhecer Carrie melhor através da cerca de arame. Eles se tornaram parceiros, companheiros de jardinagem e se casaram em uma igreja na vizinhança. Todavia, Maher, acima de seus outros interesses, era uma ativista das hortas comunitárias ligada a vários grupos de arborização da cidade, enquanto Greenwald conhecia os processos em torno do espaço urbano e de toda a burocracia.

Em novembro de 1984, Maher e Greenwald recrutaram voluntários locais para elaborar o Lotus Garden. No centro do espaço, o casal plantou um pessegueiro anão que, inexplicavelmente, atingiu mais de três metros de altura e seis de largura e em poucos anos estava produzindo muitos quilos de frutas.

Do pessegueiro aos 670 m²

Quando as notícias sobre o jardim se espalharam, o casal foi contatado por um horticultor no Rockefeller Center que lhes ofereceu três Amelanchier canadensis, que eles não estavam conseguindo nutrir apropriadamente no terraço do edifício. Cada árvore pesava mais de 200 quilos e exigia manobras criativas para ser transportada até as escadas.

O casal montou o primeiro grupo de jardineiros, um coletivo escasso que começou uma festa anual de Halloween que continua até hoje, e introduziu a prática de distribuir chaves, cobrando uma taxa nominal, para que o público pudesse apreciar o jardim ao longo da semana. O preço atual para alugar uma chave é de US$ 20 por ano ou US$ 10 para os candidatos com 65 anos ou mais. Quando os lotes cultiváveis têm vagas, novos jardineiros são selecionados a partir dos portadores das chaves que se encontram em trabalhos voluntários no jardim, como regar.

Greenwald contou a Kindley, o historiador do Lotus, que ele e Maher quiseram evitar as picuinhas que mancharam as relações em outros jardins comunitários, então dirigiram o Lotus Garden “como uma ditadura benevolente”. Depois de 11 anos o casal se mudou para Connecticut e abriu uma firma de projetos paisagísticos. Então, eles entregaram a liderança do Lotus Garden para Mary Sherman Parsons.

Parsons morreu em 2004 e, após um ano de liderança compartilhada, Kennet Karpel, um arquiteto consultor, tornou-se presidente. (Imagine que qualquer general seria mais suave, para se ter uma ideia de sua administração). Em 2011, o arquiteto entregou as rédeas à Pamela Mason Wagner, uma diretora e produtora de documentários extrovertida e ganhadora do Emmy, e à Judith Vowles, uma introspectiva autora e estudiosa da literatura europeia, que trouxeram dons complementares àquele governo de coalizão.

Karpel, porém, ainda lidera projetos como a reconstrução do galpão de ferramentas e a estruturação de novas caixas de compostagem. E quando uma jardineira se mudou do estado, levando com ela todas as plantas do seu lote (até mesmo aquelas que havia herdado do guardião anterior), ele realizou uma cerimônia de queima de sálvia para limpar o jardim de qualquer traço de maldade.

Em um domingo, o arquiteto levou este repórter numa visita guiada pelo seu lote, um recanto obscuro no canto sudoeste que pertenceu a Greenwald. Ele apresentou suas hostas, que incluíam variedades conhecidas como Guacamole e Orelhas de Rato e sua Corylopsis sinensis, ou Hamamélis, como é chamado por aqueles que não têm o seu dom para técnicas de memorização: “Flopsy, Mopsy, Corylopsis”, diz ele. “É a única maneira de eu me lembrar”.

Tradutor: Erika Brandão e Melissa Brandão Gubel (tradução) e Daiana Dalfito (edição)

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