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Jornalista constrói casa artesanal e vive história de caubói nos EUA

John Burcham/ The New York Times
Peter Heller construiu a casa de quatro cômodos no Colorado de maneira artesanal imagem: John Burcham/ The New York Times

Steven Kurutz

The New York Times, em Paonia, Colorado (EUA)

Como um garoto que cresceu no Brooklyn, em Nova York, Petter Heller era fascinado pelo mítico Oeste, particularmente pelos romances de caubói de Louis L’Amour. “Lembro-me da capa de um livro de L’Amour que mostrava um caubói conduzindo um cavalo de carga através de um riacho na neve” conta Heller, de 55 anos. “Algo ali fez com que tudo o que eu quisesse fosse vagar por terras ermas no lombo de um alazão”.

Depois de se formar em Dartmauth, Heller foi para o Colorado onde, ao invés de laçar novilhos, desceu corredeiras em um caiaque e se tornou jornalista de aventura para revistas, antes de se voltar para a ficção e publicar seu romance de estreia - que foi sucesso de vendas: “Na Companhia das Estrelas” (2012) e, em 2014, o segundo título, “O Pintor”.
Nos últimos 14 anos, Heller viveu a maior parte do tempo em Denver, onde compartilha uma casa no lago com sua esposa, Kim Yan. Contudo, aos 30 anos, antes de publicar seu primeiro romance, ele acompanhou uma namorada até Paonia, uma cidadezinha a aproximadamente cinco horas de viagem a oeste, um lugar cheio de pomares, fazendas e vinhedos, rodeado por montanhas.
 
Heller “se apaixonou imediatamente” pelo lugar, foi de caiaque até lá e aprendeu a pescar. Logo que uma área de oito hectares ao sul da cidadezinha foi posta à venda, o jornalista gastou U$$ 13 mil para comprá-la (hoje ele possui 73 hectares).
 
Do lago à casa
 
A primeira coisa que ele construiu na propriedade foi uma doca na lagoa. Sem habilidades para carpintaria ou uma renda estável, Heller sabia que qualquer casa que construísse teria que ser simples na concepção e de construção barata. Além disso, ele queria que a morada estivesse “em harmonia com a paisagem, para que, quando você olhasse para a casa, dificilmente a visse”.
 
A solução veio através do que o jornalista descreveu como uma “máquina mágica” que pertencia a um dos seus vizinhos: uma engenhoca que fazia blocos de barro compactados. A terra veio do próprio terreno de Heller e os blocos resultantes foram empilhados para formar as paredes, uma técnica muito antiga de construção.
 
Heller contratou três funcionários e teve a ajuda de um amigo carpinteiro para fazer os batentes das portas e janelas. Toda a madeira da casa de 100 m² (principalmente abetos e pinheiros) foi serrada por outro vizinho. Para posicionar as janelas, explica Heller, “entrávamos na estrutura que estava sendo erguida, escolhíamos uma vista bonita e dizíamos: ‘Aqui!’ Foi tudo baseado na intuição. Descobrimos como fazer ao longo do processo”, resume Heller, chamando a obra de “arquitetura sem arquitetos”.
 
A construção
 
Pelo fato das paredes de terra com 45 cm de espessura armazenarem calor quando o tempo está frio e diminuírem o efeito do aquecimento solar nos dias quentes, a construção não precisou de um sistema de climatização. Apenas um velho fogão à lenha é usado para o aquecimento. A eletricidade, por sua vez, é fornecida por um painel solar que alimenta um conjunto de baterias.
 
“A casa foi erguida da terra. Não há nada artificial nela. Você se sente verdadeiramente acolhido lá”, defende Heller. Lisa Jones, a ex-namorada que apresentou Paonia ao jornalista - e que continua sendo sua amiga -, diz que se sente “enterrada” todas as vezes que o visita. “Há um cheiro terroso leve que é tão bom. O piso é de barro e é áspero sob seus pés. Dá a impressão de que, caso seja atingida por um meteoro, a casa não terá problemas para se reintegrar ao solo. Mas é muito bem feita”, avalia Jones.
 
O interior tem pouca mobília: um grande cômodo principal agrupa a cozinha, a mesa de jantar, o fogão à lenha, uma cadeira de balanço e um pequeno sofá. Também há um banheiro com uma antiga banheira verde, posicionada de modo que se tenha vista para as montanhas, e dois quartos pequenos. As paredes têm um tom rosa claro, como o de uma antiga igreja no Novo México e as portas francesas se abrem para um pátio protegido por um telhado de palha.
Uma vida no meio-oeste
 
Heller viveu em tempo integral na cabana por nove anos, deleitando-se com a beleza da paisagem e a simplicidade rural. Algumas vezes, conta ele, acordava na escuridão da madrugada, caminhava na direção do Monte Lamborn e caçava um alce para comer. Era como um romance de caubói que se torna realidade.
 
Eventualmente, todavia, a riqueza natural se tornava uma distração e um fator desmotivador, como confessa Heller: “Quando morei naquela casa estava tão saturado pela beleza que faria uma matéria sobre viagem por mês e acharia ótimo, em seguida sairia para dar uma volta em minha bicicleta”.
 
Heller e sua esposa hoje utilizam a cabana como um refúgio para nadar e pescar. O jornalista frequentemente a visita sozinho, ficando lá por uma semana ou mais a cada vez. “Você não vê outra luz. Só há a vista de grande parte da montanha contra as estrelas. Eu nunca deixo de apreciar isso”.
 
Refletindo sobre sua infância em NY e a maneira pela qual ele acabou neste canto do Colorado e aqui construiu sua cabana, Heller reflete: “Eu passo pela 'porta' em Paonia e algo incrível acontece com o meu espírito. É uma sensação súbita: um misto de gratidão, beleza e pura paz”.

Tradutor: Melissa Brandão Gubel (tradução) e Daiana Dalfito (edição)

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