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Nos 100 anos de Lina Bo Bardi, conheça a arquiteta e sua Casa de Vidro

Divulgação - Instituto Lina Bo e P. M. Bardi/ Henrique Luz
A Casa de Vidro está engastada na colina e mantém-se suspensa sobre pilotis imagem: Divulgação - Instituto Lina Bo e P. M. Bardi/ Henrique Luz

Giovanny Gerolla

Do UOL, em São Paulo

Numa das mais altas colinas do bairro do Morumbi, em São Paulo, a arquiteta italiana Achillina Bo Bardi construiu, entre 1950 e 1951, um dos ícones do acervo modernista brasileiro. A Casa de Vidro abriga hoje o Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, criado por ela e seu marido, o crítico de arte Pietro Maria, em 1990.

A Casa de Vidro foi o primeiro projeto de Lina – como ficou conhecida - a ser integralmente construído. Na Itália, ela havia trabalhado com o arquiteto Gio Ponti (1891–1979) e como ilustradora de jornais e revistas. Posteriormente, dirigiu e editou a revista Domus, entre 1942 e 1943, mas nada pôde construir à época, porque, conforme contava, “durante a guerra só se destruía”.

No Brasil desde 1946, até então Lina só havia projetado móveis, e feito algumas reformas. A primeira sede do Museu de Arte de São Paulo (MASP), na Rua Sete de Abril, foi uma das mais importantes. Mais tarde, a arquiteta seria a responsável pelo projeto do edifício com vão livre de de 74 metros, na Avenida Paulista, inaugurado em 1968, após 12 anos de desenvolvimento e obra.

Divulgação - Instituto Lina Bo e P. M. Bardi
Lina no navio Almirante Jaceguay, rumo ao Brasil (1946) imagem: Divulgação - Instituto Lina Bo e P. M. Bardi

Experiências

A Casa de Vidro foi residência do casal Bardi e fica “escondida” em um pedaço de Mata Atlântica não-original, ao contrário do que muitos pensam. “O terreno era descampado. Foi Lina quem plantou toda a vegetação em redor da casa, com ajuda do amigo Burle Marx”, conta o arquiteto Marcelo Ferraz, hoje na Brasil Arquitetura, mas que começou a trabalhar com a italiana em 1977, quando estagiário contratado para as obras do Sesc Pompéia, em São Paulo.

Ferraz esteve com Lina até sua morte, em 1992. Este ano ela comemoraria cem anos de vida. “Eu estava cursando o quarto ano de arquitetura na FAU/USP e foi um grande impacto entrar naquela velha fábrica para desenhar o projeto do Sesc. Quando cheguei, o prédio já estava sendo descascado e aquela mulher forte coordenava o trabalho de 300 operários. Eu logo vi que a minha escola estava prestes a começar”, revela, bastante emocionado.

Mais do que estar na academia, conviver com Lina Bo Bardi era imergir num caldo de cultura e intelectualismo. A Casa de Vidro, por outro lado, era parada obrigatória para todo e qualquer artista ou intelectual que cruzasse São Paulo: Saul Steinberg, Max Bill, Gio Ponti, Alexander Calder, John Cage, Aldo van Eyck, Roberto Rosselini, Glauber Rocha, Oscar Niemeyer e Darcy Ribeiro são alguns nomes de uma lista de ilustres frequentadores.

Divulgação - Instituto Lina Bo e P. M. Bardi/ Bob Wolfenson
Lina e fifó - (pequeno lampião a querosene), em foto de 1978 imagem: Divulgação - Instituto Lina Bo e P. M. Bardi/ Bob Wolfenson

A arquitetura de Lina e a casa perfeita

“Sua arquitetura deveria ser nada mais que uma extensão ou uma possibilidade para a qualidade de vida das pessoas. Era para proporcionar conforto, diminuir o sofrimento e aumentar o bem estar de quem ocupava os espaços”, conta Ferraz. Pessoa de cultura muito vasta, enormes conhecimentos e formação sólida em arquitetura e design, Lina fez trabalho rigoroso em estruturas que bem expressam a poética de sua obra.

Projeto sóbrio e racional, de linhas retas, simples e contidas, a Casa de Vidro é rica em lições do movimento moderno brasileiro (e internacional). Para Ferraz, toda a garra de construir e experimentar, represada por anos de guerra na Europa, manifesta-se nesta construção seminal. Ainda estão lá, preservados, os elegantes pilotis sustentando o volume, na meia-encosta da colina, com acesso pela escada metálica em balanço que leva a áreas sociais amplas e muito iluminadas.

Tanto a casa, como a mata que a cerca, são tombados pelo patrimônio histórico. A morada traz o design europeu suavizado por um brasileirismo com toque feminino e orgânico, que se vê na delicadeza dos detalhes, como as pastilhas de vidro azul celeste do piso, ou nas cortinas a substituir as paredes; pela sutil curva da cobertura e o notável cuidado em aconchegar e bem receber. “É uma open house”, definiu, inúmeras vezes, a própria Lina Bo Bardi.

Danilo Verpa/Folhapress
O prédio do Masp foi inaugurado em 1968. Por exigência da prefeitura, o projeto deveria preservar a continuidade entre o Parque Trianon, na Av. Paulista, e a paisagem do vale do Saracura, coberto pela avenida 9 de Julho, além da vista para a serra da Cantareira imagem: Danilo Verpa/Folhapress

Para ela, também, algumas “mixarias” precisavam conviver com a “alta cultura”: uma garrafa de vidro vagabundo em forma de taça Jules Rimet, com um anjo barroco ao lado; ou um banquinho caipira, ao lado da chaise longue Le Corbusier, em couro; um carrinho de plástico, brinde de aniversário de criança, pousa aos pés de uma escultura de Ernesto de Fiori. E assim os interiores da residência ganharam corpo.

A mulher de frases de efeito – “sou antifeminista”, “stalinista”, “militarista”-, presença muito marcante e que polemizou na imprensa, gostava mesmo era de tomar “uma” com limão. Marcelo Ferraz não hesita, questionado sobre qual presente levaria para Lina Bo Bardi, pelo seu centésimo aniversário: “Uma garrafa da cachaça mais maravilhosa”.

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