Casa e decoração

Casa de praia é construída como mini arranha-céu e resiste a furacão

Trevor Tondro/ The New York Times
A casa de aço e vidro em Fair Harbor foi desenhada pelo arquiteto Richard Meier imagem: Trevor Tondro/ The New York Times

Julie Scelfo

The New York Times, de Nova York (EUA)

A história de como Richard Meier, um dos arquitetos mais famosos do mundo, chegou a projetar uma pequena casa de um dormitório numa ilha, provavelmente destinada à extinção, remonta quase meio século. O ano era 1969 e Phil e Lucy Suarez, futuros donos da morada, eram recém-casados.

Phil, na época com 27 anos, se tornaria parceiro de negócios do aclamado chef Jean-Georges Vongerichten e havia fundado uma companhia que se tornou muito bem sucedida produzindo comerciais populares e vídeos musicais. Ele e Lucy, então com 24 anos, haviam comprado seu primeiro apartamento e estavam pensando em reformá-lo. Quando Phil pediu que um colega lhe recomendasse um arquiteto, foi sugerido o nome de Meier, uma estrela em ascensão que já se tornava conhecida por seus edifícios dramáticos puramente brancos.

Foi nesta época que George Lois – um importante publicitário e primeiro chefe de Phil Suarez – convidou o casal para visitá-lo em Fair Harbor, uma pequena praia em Fire Island com bangalôs de madeira em estilo “bon vivant”. Lucy, que tinha a reputação de ser sempre a última a deixar uma festa, se apaixonou instantaneamente pelos coquetéis e jantares de pés descalços.

O casal adquiriu uma casa de veraneio de frente para a baía em 1971 e, alguns anos mais tarde, investiu em uma residência moderna dos anos 1950 em uma rua calma, pagando cerca de US$ 80 mil. Como a maioria das construções da vizinhança, aquela era uma estrutura de madeira, sem ar-condicionado ou isolamento térmico, mas tinha vista para o mar e um deck com espaço suficiente para uma churrasqueira e muitos convidados.

Ali, por quase quatro décadas, os Suarez receberam um fluxo interminável de amigos. E, com o passar do tempo, compraram outras duas casas adjacentes à beira-mar para hóspedes, criando um pequeno complexo: “Havia um monte de amor naquelas paredes”, diz Phil. E foi isso, o que tornou tão doloroso o fato de um incêndio ter derrubado a casa em 2011. “Ela guardava 40 anos de memórias e todas as bugigangas e presentes que nos foram dados. Tudo o que tinha a ver com a praia, algo a ver com os nossos amigos”, rememora Lucy.

Trevor Tondro/ The New York Times
Detalhe de uma das poltronas Womb que compõem o estar imagem: Trevor Tondro/ The New York Times

A nova casa

Eles ainda estavam se recuperando, várias semanas depois do desastre, quando em um jantar, Richard Meier se ofereceu para ajudá-los a reconstruir a casa. Eles ficaram surpresos com o fato de que o renomado arquiteto, que a esta altura havia ganho o Prêmio Pritzker (o “Oscar da arquitetura”), tivesse interesse em algo tão pequeno e possivelmente efêmero.

Contudo, Meier amou a ideia. Depois de quase 50 anos de carreira, era como voltar ao início. A primeira casa que ele projetou e construiu foi em Fire Island, em 1961, para o ilustrador e artista Saul Lambert e sua esposa. “Eles tinham US$ 9 mil para gastar. Eu não tinha muito o que fazer na época, então aceitei”, recorda Meier.

Logo estavam tento reuniões e Lucy disse-lhe que estava esperando por algo com o charme da velha casa de madeira. Mas o casal foi obrigado a enfrentar uma realidade indesejável: por causa dos novos códigos de construção que visavam a minimizar os danos causados por tempestades, a casa teria que ser elevada. Como Amalia Rusconi-Clerici – uma das projetistas – afirma: “Eles estavam acostumados a ter uma casa construída rente ao solo. Agora há esta grande entrada elevada. É um novo conceito que todos nós tivemos que aceitar”.

Quando chegaram a um acordo sobre as exigências legais, o casal tornou-se mais aberto à ideia de Meier em fazer algo totalmente diferente do original. Contudo, a construção da estrutura de aço e vidro de US$ 2,25 milhões que ele tinha em mente apresentava uma série de desafios.

Trevor Tondro/ The New York Times
Detalhe de uma das poltronas Womb que compõem o estar imagem: Trevor Tondro/ The New York Times

Para começar, foi preciso escavar três metros abaixo do nível do mar para enterrar as estacas de madeira. Depois, foi necessário instalar uma estrutura de aço, sobre tais estacas, para o suporte eficientes das 25 toneladas de vidro. Sam Wood, o construtor civil responsável, trabalhou em Fire Island por 30 anos e nunca havia visto nada parecido: “A casa foi construída como um mini arranha-céu. Nós tivemos ferreiros trabalhando aqui por dois meses inteiros. Houve outro ferreiro em Fire Island? Talvez uma vez em 25 anos nós tenhamos soldado algo por aqui”.

Além disso, algumas das vigas pesavam mais de duas toneladas, então foi imprescindível alugar uma barca-guindaste para içá-las diretamente da balsa para o local da construção. Porém, quando a primeira leva chegou, descobriu-se que a baía era muito rasa para que a embarcação chegasse perto da costa. “Então uma de cada vez, trouxemos as colunas de aço, do cais até a casa, através de uma plataforma móvel sobre trilhos”, explica Sam.

Ainda assim, todo o esforço provou ter valido a pena. Antes de a casa estar terminada, a estrutura passou pelo seu primeiro teste, em 2012, com o furacão Sandy. Enquanto muitas construções na ilha foram destruídas, o mini arranha-céu sobreviveu ileso. Como defende Phil: “Se aquela casa cair é porque a ilha literalmente desapareceu”.

É verdade que a residência é uma raridade no local: uma estrutura de aço e vidro que se destaca entre as casas de praia mais convencionais. Porém, talvez por causa de seu tamanho modesto – apenas 185 m² – ou por causa do estilo descontraído da comunidade, houveram poucas reações negativas ou fofocas entre os vizinhos. Vongerichten, um convidado frequente, oferece outra explicação: “Diversas pessoas bem-sucedidas atraem a inveja, mas com Phil e Lucy, só é possível querer aproveitar a companhia deles”.

Tradutor: Melissa Brandão Gubel (tradução) e Daiana Dalfito (edição)

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