Últimas de Estilo de vida

Casa de fazenda com 200 anos ganha intervenções feitas à mão

Randy Harris/ The New York Times
Melissa Leo sempre sonhou em ter uma torre na parte de trás de dua casa de fazenda imagem: Randy Harris/ The New York Times

Penelope Green

The New York Times, em Stone Ridge , Nova York (EUA)

Da estrada, a casa de fazenda com 200 anos, de Melissa Leo, parece uma construção comum do Condado de Ulster, com uma ornamentação habitual: na varanda, uma rede, alguns sinos de vento, cadeiras estilo “diretor de cinema”, um manequim sem braços trajando vestido florido e um boné de beisebol e um enorme símbolo da paz. (Woodstock está a menos de 30 km de distância).

Mas algo está “explodindo” na parte de trás da construção: um torreão incrustado de pedra e tijolo, decorado com mosaicos de azulejos, nichos povoados com pedregulhos animalescos e uma mão de pedra brandindo uma tocha. Este lado da casa também é revestido com placas onduladas. Sobre a porta da cozinha, uma extrusão de formas fluidas coberta por redemoinhos formados de azulejos e seixos tem um pouco de [Antoni] Gaudí (arquiteto catalão, que projetou o templo da Sagrada Família, em Barcelona) e algo de Morris Lapidus (arquiteto neobarroco que construiu hotéis em Miami).

A recente fama de Melissa veio na improvável e emocionante idade de 51 anos, quando ganhou o Oscar por seu papel como a mãe megera de Mark Walberg no filme “O Vencedor”. A atriz, porém, também é conhecida por seu comportamento nada tradicional.

Em 2011, nas semanas que antecederam a cerimônia do Oscar, Melissa veiculou anúncios de página inteira nas revistas especializadas de Hollywood, mostrando-se em trajes glamorosos com a legenda “Considere...”, um ato de autopromoção pelo qual foi amplamente criticada. Quando recebeu seu prêmio como Melhor Atriz Coadjuvante falando palavrões, a aprovação que se seguiu acabou com todas as críticas. Em 2013, a atriz conquistaria ainda um Emmy por sua aparição em “Louie”, show do comediante Louis CK exibido no FX, como uma mulher que pratica sexo oral em troca de serviços.

Sua casa, contudo, tem algo a mais, é totalmente única. Embora Melissa viva lá desde 1990 – quando tinha 30 anos e era mãe solteira com um filho pequeno – a metamorfose do lugar ocorreu há pouco tempo. A atriz - uma figura pequena e animada usando camiseta folgada e jeans desgastados cortados abaixo dos joelhos, com os cabelos presos num rabo de cavalo -, explica que, durante a maior parte de suas primeiras duas décadas na casa, estava trabalhando duro e realizando muito pouco, mas tinha sonhos de alterar o local.

Melissa esteve por conta própria desde os 16 anos, depois de passar por uma infância itinerante que começou no East Village, em Nova York. Seu pai, Arnold Leo, era editor da Grove Press e quando se separou de sua mãe, Peggy, uma educadora, levou Melissa e seu irmão para Vermont e depois, Londres, em uma série de mudanças (foram 23), que incluíram viver em casas emprestadas e improvisadas, às vezes, por apenas um ou dois meses.

No final dos anos 1980, Melissa morava em Nova York e era uma atriz experiente, depois de ter passado um ano atuando na série “All My Children” e, um pouco mais, na chamada “The Young Riders”. Na sequência, se mudou para o Condado de Ulster e se envolveu em uma luta judicial pela custódia de seu filho, Jack, com o ator John Heard, o pai do garoto, que durou quase uma década. Então, você pode imaginar como uma mulher como essa começa a fantasiar sobre ter uma torre.

Em 1993, a atriz se juntou ao elenco da série policial “Homicídio: vida na rua” e passou cinco anos indo e vindo de Baltimore. Seu avô havia dado a ela um pequeno empréstimo para a entrada da casa, que custou US$ 140 mil. Quando “Homicídio” decolou, Melissa tentou devolver o dinheiro, mas o avô recusou. Entretanto, o sucesso do programa lhe permitiu quitar a casa.

Era uma casa incomum...

Com pouco mais de 93 m² e formato traçado por uma criança, a construção possuía uma porta de entrada ladeada por duas janelas e quatro salas e estava em um terreno de quatro hectares, com um celeiro e um galpão. Em seus primeiros invernos lá, Melissa e seu filho dormiam no andar de baixo em frente ao fogão à lenha.

Jack Heard, hoje um artista de 27 anos que mora na Califórnia, recorda-se de como era pequeno, frágil e constantemente doente quando criança. Ele se lembra, também, de sua mãe derrubando cômodos “para retirar das paredes pelos de gato de 200 anos, jornais, blusas ou sei lá o que estivesse entranhado na alvenaria, me fazendo ficar doente. E ela fazia isso devagar, um cômodo de cada vez, durante a maior parte da minha vida, o que significa que alguns ambientes precisavam que ser refeitos”, diz.

Pequenas melhorias foram feitas, porém: um pouco de tinta e um novo teto de madeira compensada na sala de estar, que seria substituído por uma série de cobre que a atriz encomendou de uma empresa em Indiana e que ficou desmontada por anos.

Jack, todavia, afirma que amava sua casa caindo aos pedaços e o teto de cobre ornamentado que ele podia tocar. Ele descreveu com carinho o velho deck nos fundos - que tinha uma grade tão decrépita que perdia pedaços em intervalos irregulares - e a porta da frente, que “nunca estava trancada, mas se estivesse, as chaves sobre um banquinho de vime próximo a ela não seriam suficientes para abri-la, pois era necessário ter uma mão hábil e fazer alguns truques com o pé. Eram coisas como estas que me faziam amar aquela casa, além de como minha mãe punha as paredes abaixo e acrescenta novas”, recorda.

... e melhorada

Há cerca de cinco anos, Jason Downs, músico e ator com uma família recém-formada que, na época, morava na área, ofereceu à Melissa ajuda com a casa. Jason foi um dos muitos amigos que se dispuseram a lhe dar uma mão, aliás. Foi então que as coisas começaram a ficar realmente interessantes. O plano básico era ampliar a cozinha para trás e para fora da casa instalando uma torre em um dos cantos. A escada seria aumentada e haveria todo tipo de enfeites idiossincráticos se entrelaçando e subindo em torno dela.

“É uma luta encontrar pessoas que não achem que estou louca. E não quero ninguém me dizendo: ‘Oh, senhora, acho que não’”, desabafa Melissa. “Deixe o material falar com você”, diria ela ao carpinteiro ou ao azulejista artesanal quando pressionada a dar instruções. Além disso, embora seja uma carpinteira mediana, uma estucadora melhor e um artista de mosaicos muito boa, Melissa não é capaz de construir cada parte de sua casa sozinha.

Constant van Hoeven, 35, artista holandês e cineasta que também trabalha como carpinteiro, é um de seus conspiradores mais adeptos. No final da última década, Jason pediu-lhe para pintar a casa e esse trabalho desdobrou-se em muitos, já que Constant foi capaz de executar as ideias de Melissa com uma precisão fantástica.

O momento em que eles se entenderam foi em um dia a mais ou menos um ano atrás, quando a cozinha havia sido expandida e Constant disse à Melissa que ela tinha quatro opções para fazer uma proteção na porta da cozinha: “A primeira é um telhado com uma água, outra é um telhado de duas águas e a terceira é uma junção das duas primeiras. Todos têm problemas”. E ela disse: “Ok, qual é a quarta opção?” E ele respondeu: “Fazermos algo completamente louco”. Então Constant construiu o telhado no estilo Gaudí e Melissa o azulejou.

Hora de ver a torre!

Subindo a escada recentemente ampliada, vê-se o segundo andar fixado com ramos polidos de um bordo que havia caído durante uma tempestade, logo após o patamar folheado por carvalho com um padrão de estrela assentado recentemente por Constant que dá para dentro do torreão que não tem mobília, mas está cheio de detalhes.

Há janelas com vidraças em padrão diamante, outras com vitrais e uma curioso óculo distante 1,5 m do chão, forrada com tecido feito a partir de cascas de árvores e equipada com uma espécie de poleiro. Melissa projetou esta parte como uma parede de escalada, com apoios estratégicos para os pés e mãos. Ela conta que quando a casa estiver terminada, começará a trabalhar no celeiro e no galpão, que pretende transformar em um retiro para atores.

Com o passar do tempo, porém, a atriz-empreiteira está ficando mais exigente. A parte de trás da casa, por exemplo, ainda precisa de um deck e ela tem complicadas ideias baseadas na obra do artista plástico e cartunista Rube Goldberg com relação às sarjetas e à coleta de água da chuva. Tais intentos parecem estar sendo colocados em prática por tentativa e erro, mas o deck está recebendo um tratamento mais tradicional.

De qualquer forma, ela está fazendo um modelo, que estava outro dia em sua cozinha: uma nodosa, mas evocativa bolha de barro, vidro e pedra que lembrou as tentativas de Richard Dreyfuss de moldar sua própria obsessão em “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”: “O ambiente irá se alastrar como a terra o faz aqui em Catskills, através de uma fina camada de terra boa sobre uma realidade rochosa”, finaliza a atriz sonhadora. 

Tradutor: Melissa Brandão Gubel (tradução) e Daiana Dalfito (edição)

Topo