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Casal de escritores cria refúgio em cabana de madeira nos EUA

Stacey Cramp/ The New York Times
Cabana no Maine (EUA) tem janelas amplas e vistas generosas para o rio Kennebec imagem: Stacey Cramp/ The New York Times

Penelope Green

The New York Times, em Arrowsic, Maine (EUA)

O que encanta Henry Petroski em sua casa é a forma como o construtor “suavizou” as bordas dos armários, das vergas, das portas e dos reforços estruturais. Esses detalhes sutis estavam entre os motivos que fizeram com que Henry iniciasse uma pesquisa para saber mais sobre o homem que os empregou. Henry vive em tempo integral com sua esposa, Catherine Petroski, em Durham, Carolina do Norte, onde é professor de engenharia e história na Universidade de Duke. Contudo, quando Catherine, que é escritora, estava pesquisando para um livro sobre a esposa de um capitão do mar de Richmond, Maine, eles passaram os verões trabalhando na área  e criaram uma missão de “caça à cabana”.

Assim, em um pedaço de terra com vista para o rio Kennebec o casal encontrou uma casinha de cedro datada de meados do século passado, com teto curiosamente plano, revestimento interno de pinho nodoso e duas paredes com janelas panorâmicas que dão vista para a água turbulenta. Nos dez anos que se seguiram, durante os verões, Petroski focou sua mente nos elementos da nova casa: suas estruturas, esquisitices e mecanismos. Cada prego tornou-se uma fonte de dados que desvendava o mistério de um homem e a casa por ele construída. Publicado recentemente, “The House With Sixteen Handmade Doors: A Tale of Architectural Choice and Craftsmanship” [NT: “A Casa com Dezesseis Portas Feitas à Mão: Um Conto Sobre Escolhas Arquitetônicas e Artesanato”, em tradução livre] é o enigma resultante destas investigações de Henry. 
Cabana e o amor
 
Era uma segunda-feira fria e úmida e os Petroskis, que tinham chegado na sexta-feira anterior para suas férias de verão no Maine, se acomodaram em seus balanços. Os Petroskis, que hoje têm pouco mais de 70 anos e estão casados há 48, são uma dupla de amantes das palavras que se conheceram na Universidade de Illinois quando seus respectivos colegas de classe, que estavam saindo juntos, os apresentaram.
 
Ele era estudante de engenharia e escrevia sonetos para que Catherine se apaixonasse por ele. Ela cursava inglês, mas não lhe retribuía as poesias, embora tenham se envolvido em uma competição feroz, em que cada um escrevia as palavras mais bizarras e misteriosas das quais pudessem se lembrar, colocavam-nas em tiras de papel e entregavam-nas para que o outro pudesse tentar defini-las. Uma rotina que continuou nos primeiros anos de seu casamento. Seus filhos, Karen e Stephen, são advogados, um resultado provável dadas as habilidades verbais acentuadas nesta família.
 
Para aprender mais sobre sua nova casa, Henry explorou profundamente as memórias dos seus vizinhos, mas grande parte de suas descobertas foram feitas por dedução, esmiuçando os cômodos como um cientista forense. O professor-escritor ficou maravilhado com as delicadas vergas sobre as portas, as cabeças dos pregos precisamente espaçados e perfeitamente alinhados nas juntas macho e fêmea, os painéis de pinho e o ajuste impecável das placas. Um carpinteiro menos habilidoso, observa ele, teria deixado uma marca ovalada em torno da maioria dos pregos ou teria retirado e recolocado alguns deles. Então, quem foi este hábil mestre carpinteiro?
 
Os vizinhos contaram a Henry que a casa havia sido construída por um engenheiro chamado Robert Phinney para sua família de seis pessoas. Os pai de Phinney, proprietários de grande parte das terras em torno do rio e do pântano, moravam em Nova Jersey, mas passavam os verões no Maine. Quando Phinney tinha 15 anos, entrou em um prestigiado concurso de construção de modelos patrocinado pela General Motors Co.. Seu prêmio em dinheiro o ajudou a frequentar a escola de engenharia e, mais tarde, o jovem passou a trabalhar para o pai em uma empresa de calculadoras em Orange. Porém, em 1954, quando tinha 39 anos, ele mudou-se em tempo integral para Arrowsic para começar uma nova vida com sua jovem família. A casa seria um “recipiente” para aquele novo capítulo.
Quanto à inspiração do projeto, Henry tira suas próprias conclusões, observando que o local não é nem uma casa no estilo “cape code”, nem um bangalô e nem uma casa de fazenda: “A casa de Phinney é a casa de Phinney, por dentro e por fora”. Contudo e de diversas maneiras ela era uma típica construção de sua época: molduras balão, uma base de 110 m² (o padrão para uma família de classe média da metade do século passado) e revestimento de pinho nodoso, um material “da moda” para aqueles que se inspiravam em catálogos e livros de modelos produzidos pela Sears.
 
Muitos livros, nenhum barco
 
Os Petroski se mudaram com muito pouca bagagem para a cabana. Nenhum dos dois tinha interesse, disseram, em perder tempo acumulando mais coisas. Eles trouxeram, entretanto, dois objetos bastante importantes, presentes de seu primeiro Natal juntos em Illinois: cada um tinha comprado secretamente para o outro um par de patos de ferro fundido, como uma lembrança de seu passatempo de universidade  que era alimentar os patos no Crystal Lake Park, em Urbana.
 
No segundo verão deles na casa, o casal comprou a coleção completa da Enciclopédia Britânica de 1976. Saiba: os Petroskis são minimalistas, exceto quando se trata de palavras e, por isso, eles também não têm um barco, uma condição interessante para os habitantes do Maine, mesmo para aqueles “de fora”, como dizem os locais. “Catherine cresceu em meio aos barcos e ela me contou quão problemáticos eles são. Se eu puder ir para meu escritório [na casa] e escrever todos os dias, serei feliz. Não preciso de recreação”, resume Henry.

Tradutor: Melissa Brandão Gubel (tradução) e Daiana Dalfito (edição)

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