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Nos EUA, casa "hippie" tem decoração rústica e incomum

Paul Costello/ The New York Times
Casa e ateliê de Dawn DeDeaux, em Nova Orleans, com aspecto rústico e artístico imagem: Paul Costello/ The New York Times

Penelope Green

The New York Times, em Nova Orleans, Luisiana (EUA)

Dawn DeDeaux tem pensado muito sobre o apocalipse e gostaria que você entrasse no clima também. DeDeaux, uma artista multimídia, disse que tem levado ao pé da letra as previsões de Stephen Hawking de que os terráqueos tenham 100 anos pela frente antes que o planeta acabe. Como uma filha de Nova Orleans, DeDeaux, de 63 anos, “enfrentou” (é claro!) o apocalipse antes.

Seu querido barracão de arte vitoriano, às margens da vizinhança de Fairgrounds Triangle, conta seu conto pós-Katrina de formas frágeis e encantadoras: seu esqueleto de ripas sem a cobertura do gesso parece um raio-x fantasmagórico de uma casa. Há fragmentos de madeira queimados aqui e ali, posicionados como esculturas de Giacometti ou figuras africanas. Uma galeria pluvial metálica enorme de bordas irregulares e cheias de pontas fica na frente de uma janela. O gesso do teto carece de uma demão de pintura.

Mas, depois que o furacão arrancou o telhado e DeDeaux recebeu seu dinheiro do Fundo de Emergência para substituí-lo, ela decidiu parar no meio do caminho porque descobriu que o teto ficava atraente apenas com a base para pintura aplicada. “Não lembra a você um típico tecido africano?", pergunta ela.

Nos primórdios

Antes de ouvirmos sua história sobre o Katrina e o trabalho resultante dele, devemos contextualizar. Como muitas histórias de New Orleans, a de DeDeaux é adequadamente gótica. Aos 11 anos, ela, a mais velha de seis irmãos, foi morar com sua avó, Hilda Warfield. Isso ocorreu logo após dois de seus irmãos terem falecido em apenas um ano e sua mãe ter deixado a família por estar sofrendo de depressão extrema. “Fiquei um pouco muda”, relembra DeDeaux.

Seu melhor amigo era o jardineiro de sua avó, na época com cerca de 40 anos. Os dois aprenderam a pintar com um jovem artista de Nova York que estava hospedado na casa. Aos 15 anos, DeDeaux se considerava uma velha mestra das artes e, por volta dos 20, estava fazendo instalações com cabines telefônicas ligadas a canais de rádio de curta distância.

A artista ganhou notoriedade por um de seus trabalhos: uma série de retratos de um bandido de rua chamado Paul Hardy, feitos durante um programa de artes na prisão local no final dos anos 80. Em 1994, uma das imagens de Hardy sem camisa chegou ao Museu Whitney como parte da mostra “Homem Negro” sob curadoria de Thelma Golden.

Em 1997, ela passou oito meses em Roma, parte dos quais com uma bolsa, na Academia Americana de lá. Quando voltou, DeDeaux estava determinada a possuir um pedaço de sua cidade natal. Ela comprou duas casas típicas do sul dos Estados Unidos distante uma quadra uma da outra. A primeira custou US$ 35 mil e a segunda, que se tornaria o Barracão de Arte, cerca de US$ 38 mil.

“Era um local limpo para todos os meus computadores”, diz Deaux, apontando para a volta do Barracão de Arte. Ela também comprou um estúdio nas proximidades, um antigo estábulo de 650 m², no qual ela guardava seus trabalhos artísticos e materiais de trabalho: resgates arquitetônicos, pedaços de móveis, chapas de metal, antigas luminárias e madeiras de demolição.

As construções e o caos

DeDeaux deixou a cidade no domingo antes da passagem do Katrina, com uma ressaca enorme por causa de um jantar na noite anterior, em uma van carregada com seus computadores, três vizinhos, um amigo de fora da cidade, seis tentilhões, um cão idoso e um gato. Quando retornou, um mês após o furacão, os tetos de ambas as casas tinham sido derrubados por árvores caídas e a metade traseira do estúdio ruiu, destruindo um terço do seu trabalho. “Graças a Deus eu não sou mais uma pintora. Sou apenas uma artista conceitual ilusionista”, argumenta.

Talvez um golpe maior ainda tenha acontecido um ano após o Katrina, quando seu estúdio foi completamente queimado, destruindo grande parte de seu trabalho, seus materiais e memórias. Foi acidental, lembra, partiu de uma fogueira feita por exilados que não tinham lugar para ficar. Quando os bombeiros chegaram, não havia pressão na água: “Fiquei tão desnorteada, porque eu posso aceitar completamente os resultados da natureza, mas eu tive muita dificuldade em aceitar a loucura do homem, da política”.

Contudo, assim como muitos artistas locais, ela começou a fazer novos trabalhos utilizando entulhos e escombros. DeDeaux usou cola branca, lama e cordas sobre compensado para criar abstrações poéticas, incorporando placas de acrílico com imagens digitais de água. Conseguiu, também, salvar 12 partes queimadas do celeiro e colocá-las em uma mostra. E recolheu canos de galerias pluviais de uma pilha de detritos, os prendeu às paredes de uma galeria de artes e neles instalou alto-falantes que tocavam uma velha canção de blues, “Senhor Ajude os Pobres e Necessitados”.

DeDeaux ainda está utilizando sua outra casa no final do quarteirão, apelidada de Barracão Ostra, como seu dormitório. Ela demonstrou como dorme lá, deitada como um cadáver em um caixão, num minúsculo sofá antigo, com os braços cruzados sobre o peito. DeDeaux tem um talento, disse Eric D. Bookhardt, crítico de arte de Nova Orleans, “um talento francês genético, para o drama e certo tipo de floreio”. Ele comparou o Barracão de Arte a um “Louise Nevelson maníaco, com uma textura como algo que um Anselm Kiefer poderia ter inventado. Como uma escultura com pose de casa, é muito interessante”.

Tradutor: Melissa Brandão Gubel (tradução) e Daiana Dalfito (edição)

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