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Casal resiste à especulação imobiliária em NY e mantém apê "hippie"

Bruce Buck/ The New York Times
O quarto do casal no loft do SoHo, em NY, bairro que sofre especulação imobiliária imagem: Bruce Buck/ The New York Times

Penelope Green

The New York Times, em Nova York (EUA)

Mesmo acima do ruído da Broadway, da sala da frente do loft de Michele Varian e Brad Roberts, no quarto andar de um edifício no SoHo, é possível ouvir a conversa-fiada dos guias dos ônibus de turismo. “Eles sempre mostram o edifício Nova Era”, diz Michele, olhando para o telhado íngreme e oxidado desse marco arquitetônico, através de cortinas de musseline que ela mesma costurou e fixou com tiras de couro. “Eles sempre dizem que é onde MaryTodd Lincoln comprava sua porcelana. Na verdade, ela comprava no edifício Corcoran nesta esquina”, completa. Michele se refere ao edifício E.V. Haughtwout, um palacete de ferro fundido construído por um fabricante de porcelana em 1856.

O casal vem lutando para se ajustar às extensas reformas empreendidas pela nova proprietária do edifício onde moram, a Thor Equities. A empresa está renovando o lugar para torná-lo um prédio com apartamentos de luxo para locação, lofts à prova de som que ocupam um andar inteiro com todas as extravagâncias habituais: banheiros com banheiras de spa, elegantes cozinhas italianas com fogões Viking, pisos de tábuas largas... e um aluguel de quase US$ 12 mil por mês. O processo não tem sido fácil.

Nos últimos três anos, Michele e Brad foram os únicos inquilinos residenciais do número 496 da Broadway, um edifício sem tantas histórias quanto o Nova Era Art Nouveau, do outro lado da rua, mas que reunia todos os adornos originais do SoHo: teto de metal (embora muito remendado), enormes janelas e muito espaço. O apartamento deles também veio com um contrato de locação estável, o que os coloca em uma situação incomum.

Assim como o próprio SoHo, a posição do casal é tanto familiar quanto atípica e um símbolo de uma vizinhança que continua a se aburguesar, mesmo quando se crê não haver mais espaço (ou lucro) para uma nova onda de intrusos "classe AAA". Passado e presente há muito tempo colidiram nesta zona histórica composta por 26 quarteirões.

SoHo em mutação

Uma vez o lar de fábricas e lojas de departamento e, em seguida, reduto conhecido dos artistas pioneiros dos anos 1960, 70 e início dos anos 80 , atualmente, o SoHo não é apenas um bairro é uma marca global. Construtores no nordeste da China, por exemplo, estão erguendo elegantes lofts com estilo industrial em um complexo residencial e comercial chamado SOHO. Cadeias de lojas como da Victoria’s Secret, Sephora e Uniqlo atraem dezenas de milhares de turistas todos os dias para a baixa Broadway.

E se o valor dos aluguéis e das vendas do bairro são mais elevados - e subiram mais rapidamente em comparação com o resto da cidade - isso se dá, principalmente, porque as unidades habitacionais são enormes e têm uma arquitetura única. “Você pode argumentar que o crescimento dos preços nessa área ultrapassou Manhattan em geral. Essencialmente, pela criação de lofts como uma categoria legítima e substancial do mercado. Mas eu não sei se há mais espaço para crescer”, Jonathan Miller, presidente e executivo-chefe da Miller Samuel, empresa especializada em avaliação imobiliária e consultoria.

Ele acrescenta, soando um pouco melancólico: “Só para divagar, tenho quatro filhos e moro em Connecticut. Meu objetivo de vida era ter um loft no SoHo com tinta spray em toda a fachada e que fosse como uma enorme caixa aberta do lado de dentro. Agora toda esta personalidade tão marcante já não existe mais”.

Exceções autênticas

Ah, mas ainda há exceções, o que nos traz de volta a Michele Varian e Brad Roberts e seu apartamento cheio de um estilo pouco convencional com teto de metal irregular, gravuras, coleções, taxidermias e o fogão a lenha – uma bênção no último inverno, quando disseram que o proprietário do edifício desligava o aquecimento central em intervalos regulares nos finais de semana.

O casal é um elo com os primeiros inquilinos do edifício. Brad comprou a concessão para o apartamento em 2000, por cerca de US$ 100 mil, de Howie Weinberg, um engenheiro de som veterano que masterizou álbuns do U2, Beastie Boys e Nirvana. Howie, por sua vez, tinha adquirido seu contrato em 1983, por cerca de US$ 20 mil, além de seu loft no Chelsea. “O proprietário não se importou com o fato de eu repassar o arrendamento para Brad”, conta.

No loft há uma cortina de musseline com apliques que serve como parede do escritório, um balanço feito de sáris reciclados, um tapete felpudo com as cores do arco-íris e muita taxidermia: pássaros em voo, um antílope chamado Aristóteles, um faisão chamado Elizabeth e um par de patos do ex-vizinho do andar de cima, Robert Becker, biógrafo de Nancy Lancaster e crítico de arte que deixou o edifício em 2011. Único, o loft, com toda a sua decoração indie, foi fotografado tantas vezes, que agora é um cartão de visita para Michele.

Obras em redor

Quando a Thor comprou o prédio, um representante da empresa pediu ao casal que se mudasse por dois meses para que as escadas pudessem ser substituídas. Depois de consultar seu advogado, os dois recusaram. Brad, da banda canadense Crash Test Dummies, estava trabalhando em um disco solo cuja conclusão estava prevista para apenas alguns meses à frente e ele trabalha em casa, como faz Michele, que projeta têxteis e outros produtos para interiores.

Foi quando as coisas ficaram problemáticas. Houve o dia em que a equipe de remoção de amianto chegou e o operário, em seu traje completo de proteção, entrou repentinamente pelo piso da sala de estar, abrindo um buraco com cerca de um metro quadrado, antes que Michele pudesse gritar para que ele parasse. Houve finais de semana de inverno nos quais o aquecimento ficou desligado de sexta a segunda e, também, uma inundação no apartamento, neste verão, depois que o trabalho no telhado foi terminado. Quando o edifício começou a ser reformado em março passado, a campainha parou de funcionar e um novo sistema só foi instalado em setembro.

A Thor fez uma oferta ao casal, que declinou a princípio. Então, assustados com o incidente do piso, eles disseram que aceitariam se conseguissem um contrato estável de aluguel em um loft na vizinhança ou o financiamento para comprar tal espaço. A Thor ofereceu US$ 400 mil e o valor foi recusado. Michele defende que o casal precisaria de US$ 4 milhões, baseados no valor das propriedades que eles viram à venda na vizinhança. (O preço médio por metro quadrado no SoHo é de US$ 21.500 e o apartamento da dupla mede 186 m²).

No entanto, a poeira está baixando, literal e metaforicamente, no número 496 da Broadway. Michele e Brad têm um novo piso e há um novo sistema de campainha também. O casal afirma estar feliz com o edifício recentemente pacífico. “Nosso apartamento está lindo e é maravilhoso poder tê-lo de volta”, resume a designer.

Tradutor: Melissa Brandão Gubel (tradução) e Daiana Dalfito (edição)

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