Casa e decoração

Com 250 m², casa giratória se move com "potência de um secador de cabelos"

Emma Tannenbaum/ The New York Times
A casa-cúpula nos EUA é formada por vigas curvas e gira com um pequeno motor imagem: Emma Tannenbaum/ The New York Times

Matt A. V. Chaban

New Paltz, Nova York, Estados Unidos

Sentado em um dos seus muitos carros esportivos, Shiva Vencat decidiu que tipo de casa de veraneio construiria naquele lugar há 15 anos, uma estrada sinuosa no sopé das Montanhas Shawangunk, ao sul do estado de Nova York, nos Estados Unidos.

 “Você deixa seu carro no sol e ele vira um forno. Então o que as pessoas fazem? Movem o carro para a sombra. Contudo, você não pode fazer isso com sua casa. Pelo menos era isso o que eu pensava”, diz Vencat em uma entrevista por telefone diretamente da França. Em meados dos anos 90, ele - um investidor de commodities em Manhattan - estava em outra viagem de negócios pela França, quando leu sobre uma casa excepcional na Bretanha.

Era uma cúpula com quatro metros de largura feita a partir de vigas curvas de madeira. Uma espécie de cruzamento entre uma lanterna de papel gigante e um iglu, construído em uma fábrica Tcheca. A casa era resistente a terremotos e furacões e eficiente em termos de geração de energia. Porém, o que mais interessou a Vencat foi uma característica ainda mais incomum do que sua forma: a casa podia girar. “A ideia de poder tirar proveito do clima, das estações do ano e mesmo do dia em si era incrível. Tornou-se uma obsessão para mim”, conta.

Emma Tannenbaum/ The New York Times
Na área interna da casa-cúpula giratória há uma cozinha ampla e muito luminosa imagem: Emma Tannenbaum/ The New York Times
Para mover a casa com 250 m² de Vencat (sim, ele construiu uma!) é preciso apenas de um motor com tamanho de um cortador de grama e a potência de um secador de cabelos. Mas não é assim tão fácil encontrar alguém para comprá-la. A propriedade atraiu muita atenção desde que foi anunciada, há quarto anos, por US$ 1.2 milhão, mas ninguém pareceu querer de fato a cabana-carrossel. Nas mãos do terceiro corretor, seu preço caiu para US$ 975 mil.

“Ela envolve você como um casulo, mas creio que pode ser difícil para as pessoas mudarem totalmente seu modo de vida”, reflete Veronique Gautier-Vencat, esposa de Shiva e executiva da marca que projetou o interior da casa. Por mais de uma década, Vencat e o inventor da morada, Patrick Marcilli, têm tentado promover a construção como “a casa do futuro”.

Há cerca de 200 dessas residências, chamadas de “Domespace”, na França e outras duas dúzias em outros lugares do mundo. Como “movimento arquitetônico”, porém, a casa-cúpula giratória ficou num beco sem saída: “Achei que a América fosse a terra dos pioneiros mas, aparentemente, não”, lamenta Marcilli.

Emma Tannenbaum/ The New York Times
Na área interna da casa-cúpula giratória há uma cozinha ampla e muito luminosa imagem: Emma Tannenbaum/ The New York Times

Sonho antigo

Um dos problemas é que pode ser bastante difícil encontrar construtores que apoiem a ideia. Outro entrave é que o domo giratório, assim como sua versão estacionária (menos divertida), pode passar a sensação de ser algo saído diretamente do desenho “Os Jetsons”. Mas, a verdade é que o sonho de viver em cúpulas economicamente acessíveis, energeticamente eficientes e produzidas em massa é bem antigo: data de 1950 e envolve nomes como o do visionário arquiteto Buckminster Fuller, que desenvolveu os domos geodésicos.

Nos anos 60 e 70, particularmente estimulados pela crise energética, os projetos de Fuller ganharam alguma popularidade. Com uma construção leve que promoveu melhor fluxo de ar e isolamento, as cúpulas começaram a aparecer em áreas suburbanas, fazendas e até mesmo no Epcot Center em Orlando, Flórida. No entanto, a ideia nunca teve plena aceitação neste mundo repleto de quadrados.

Emma Tannenbaum/The New York Times
Detalhe da estrutura do domo em madeira. A casa foi toda feita sob encomenda imagem: Emma Tannenbaum/The New York Times
Marcilli, particularmente, teve a ideia de uma casa giratória por acidente. Professor, ele construiu sua primeira casa redonda em 1988 na cidade de Scaër, França. Depois de uma grande cobertura da imprensa, o inventor passou a receber pedidos de casas e os “Domespaces” começaram a aparecer.

Ele percebeu que a maneira mais fácil de montar dúzias de vigas de sustentação que se contrabalanceiam em centenas de rolamentos era fazer com que a casa se movimentasse, ao invés dos trabalhadores que a montavam. Um dos compradores viu a casa se movendo e decidiu mantê-la assim. Hoje, cerca de metade das casa-cúpula construídas gira.

Porém, os Vencat sabem o quão difícil pode ser erguer uma casa circular. A deles demorou quase quatro anos para ficar pronta, em parte, porque o trabalho é muito pouco convencional e levou meses até que achassem um arquiteto, um engenheiro e um construtor que estivessem confortáveis com o design e muitos meses mais para convencer os inspetores de obras locais de que o projeto era consistente.

Emma Tannenbaum/The New York Times
A casa gira vagarosamente e sob comando para melhor aproveitar a luz e a paisagem imagem: Emma Tannenbaum/The New York Times
Os trabalhadores estavam sempre reclamando por terem que curvar paredes e instalações e quase tudo foi feito sob encomenda: desde as janelas trapezoidais até a escada em espiral inspirada no museu Guggenheim, de Nova York. O kit para a construção com 8,3 m custou cerca de US$ 250 mil e os Vencat gastaram outros US$ 250 mil nos interiores, além do valor pago pelos 12 hectares de terreno onde a casa está.

Por enquanto, os Vencat alugam a casa para temporada por US$ 800, o fim de semana. Embora inquilinos não estejam autorizados a girar a casa, os proprietários esperam que um deles se envolva permanentemente com a ideia de morar em uma residência giratória.

Tradutor: Melissa Brandão (tradução) e Daiana Dalfito (edição)

Topo