Casa e decoração

Restaurada por US$ 10 mi, casa de Roosevelt é um mergulho no passado

William Grimes

The New York Times, em Cove Neck, Nova York (EUA)

Haviam se passado três anos e meio desde que o público deixou de circular pela Sagamore Hill, a residência ampla da família de Theodore Roosevelt, presidente dos EUA de 1901 a 1909. Em dezembro de 2011, as portas foram fechadas, a maior parte dos artefatos foi enviada para outros locais e equipes de trabalhadores se mudaram para realizar a restauração que custou US$ 10 milhões.

A casa foi reaberta em 2015, com uma cerimônia que Teddy teria gostado: uma banda com 25 integrantes tocou marchas patrióticas e músicas de época. Foram feitos passeios de pônei e havia animais para acariciar. Os Rough Riders deram uma demonstração de cavalaria, bandeirinhas e dois descendentes - Theodore Roosevelt IV e Tweed Roosevelt - falaram sobre o presidente.

Byron Smith/ The New York Times
Após uma restauração de três anos e meio, a casa foi reaberta ao público em 2015 imagem: Byron Smith/ The New York Times

A casa é um deleite para os aficionados por história e voyeurs imobiliários. Uma das grandes virtudes de Sagamore Hill é que a propriedade permaneceu nas mãos da família, desde que foi construída, em 1886, até a década de 1950, quando a Associação Theodore Roosevelt assumiu o controle. Em 1963, a instituição passaria a gerência dos 33 hectares ao Serviço de Parques. Por isso, a casa tem se mantido mais ou menos intacta.

Seus 23 cômodos guardam o mobiliário e as bugigangas originais e a profusão de cabeças empalhadas de animais, tapetes de urso, mobília excêntrica e os milhares de livros que Roosevelt acumulou e expôs sem um sentido definido de catalogação ou design. É uma casa exuberante e extrovertida. Mais enfaticamente, é uma casa de família, um lugar onde as crianças correram livres e Roosevelt – em alguns aspectos ele mesmo uma criança grande – expressou todas as facetas de sua personalidade descomunal. A casa é um achado para bisbilhoteiros e há muito para se olhar.

Reforma e restauro

Na casa há duas mudanças visíveis: uma grande adição e uma grande subtração, mas só. A extensão da cozinha, anexada à varanda dos fundos da casa em 1950, não existe mais. Na parte interna, uma entrada de luz e ventilação, removida na mesma época, foi reinstalada, melhorando o fluxo de ar e reduzindo a condensação. A maior parte do dinheiro da restauração foi utilizada para trabalhos muito importantes, mas invisíveis, na infraestrutura da casa. As caldeiras foram substituídas, as instalações elétricas refeitas, a iluminação modificada e os sistemas de segurança foram atualizados.

Byron Smith/ The New York Times
Após uma restauração de três anos e meio, a casa foi reaberta ao público em 2015 imagem: Byron Smith/ The New York Times

Havia muito de trabalho minucioso de restauração também. A taxidermia, por exemplo, já mostrava sua idade: o órix (antílope africano) no salão principal, como muitos de seus irmãos, tinha desenvolvido linhas de idade – rachaduras minúsculas que especialistas preencheram com filamentos finos e depois selaram com verniz. O tinteiro feito com um pé de rinoceronte, no estúdio de Roosevelt no terceiro andar, pode ou não ter ido à pedicure, mas suas unhas estão brilhantes. Há novos adereços de alimentos na grande cozinha, como um presunto no fogão, legumes na bancada e caixas de biscoitos. “Acabamos de receber uma caixa de biscoitos que têm cheiro de canela”, disse Martin Christiansen, chefe das áreas de interpretação, serviços ao visitante e recursos naturais da Sagamore Hill.

Todos os 8.000 livros foram espanados e consertados. O papel de parede da grande Sala Norte – um espaço adicionado em 1905 por insistência da primeira-dama, Edith Roosevelt, em parte para acomodar as tralhas do marido – simplesmente despregou enquanto os trabalhadores removiam os quadros. Um especialista copiou o padrão e o reaplicou em um novo papel de parede. E alguém felizmente se lembrou de jogar o velho chapéu Rough Rider (primeiro regimento de cavalaria voluntária dos EUA), de Roosevelt, na ponta de um chifre de alce.

História

Quando Roosevelt pisou pela primeira vez em Sagamore Hill, ele que havia sido três vezes deputado pelo estado de Nova York, não havia chegado aos 30 anos e tinha uma longa e turbulenta carreira pela frente: dono de rancho em Dakota do Norte, candidato malsucedido a prefeito de Nova York, reformador irreprimível na Comissão da Função Pública, comissário de polícia, secretário assistente da Marinha, líder dos Rough Riders durante a Guerra Hispano-Americana, governador de Nova York e vice-presidente William McKinley. Roosevelt se viu empurrado ao Salão Oval aos 42 anos, quando McKinley foi assassinado, e lá permaneceu até 1909.

A casa fora destinada a primeira esposa do futuro presidente, Alice Hathaway Lee. Mas em 1884, quando os planos finais estavam sendo elaborados, ela morre ao dar à luz à filha. Só depois de se casar com sua segunda esposa, Edith, em 1886, Roosevelt tomou posse do local. Três de seus cinco filhos nasceram na residência. E lá o casal viveu pelo resto de suas vidas.

Byron Smith/ The New York Times
Após uma restauração de três anos e meio, a casa foi reaberta ao público em 2015 imagem: Byron Smith/ The New York Times

De 1902 a 1909, Sagamore Hill serviu como casa presidencial de verão e, de lá, Roosevelt conduzia seus assuntos de Estado. Na pequena biblioteca próxima à entrada, o presidente recebeu enviados da Rússia e do Japão e ajudou a solucionar o conflito entre as nações, o que lhe assegurou o Nobel da Paz. O castiçal de prata cuja chama derreteu a cera de vedação sobre o Tratado de Portsmouth ainda está de pé sobre a mesa de Roosevelt.

Não há como fugir Theodore Roosevelt. Oyster Bay e Sagamore Hill foram os lugares que ele mais amou. Ele morreu na grande casa na colina, sobre a cama onde disse à esposa: “Eu me pergunto se você vai entender o quanto eu amo Sagamore Hill”, apenas algumas horas antes ele dar seu último suspiro, em 06 de janeiro de 1919. Ele se foi há muito tempo, mas a casa continua um portal atraente para o passado.

Tradutor: Melissa Brandão (tradução) e Daiana Dalfito (edição)

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