Casa e decoração

K7s, VHS e videogames antigos decoram a casa com estilo e nostalgia

Emily Berl/ The New York Times
O arquiteto e artista Chris McCullough cria retratos de ícones culturais usando K7s imagem: Emily Berl/ The New York Times

Alex Williams

The New York Times, de Nova York (EUA)

Lançado no meio do ano no Brasil, o filme de Noah Baumbach, “Enquanto Somos Jovens” conta a história de Josh (Bem Stiller) e Cornelia (Naomi Watts), um casal de meia-idade do Brooklyn (NY) que tenta desesperadamente recuperar sua juventude. Eles conhecem um casal mais jovem, Jamie (Adam Driver) e Darby (Amanda Seyfried), que adotam uma postura “anti-tendências” e adepta do “compartilhar” colocando em xeque o modo de ver o mundo e a vida do casal 40ão.

No longa, Josh e Cornelia são “atacados” pelos já familiares clichês hipsters (a máquina de escrever elétrica e as estantes repletas de discos de vinil), que o jovem casal exibe com orgulho junto a uma biblioteca de filmes da década de 80 em fitas VHS e K7s de música. “É como se o apartamento deles estivesse cheio de tudo que um dia jogamos fora”, constata Cornelia com um ar de espanto.

Sally Ryan/ The New York Times
Erika Simmons cria quadros e retratos a partir de fitas de K7, VHS e filmes 8mm imagem: Sally Ryan/ The New York Times
Assim como na ficção, na vida real o detrito tecnológico dos anos 80 e 90 está encontrando uma espécie de segunda vida com uma nova geração de artistas e nostálgicos tecnológicos arranjando novos usos para os destroços do início da era digital como arte, decoração e joalheria, por meio do design de apelo popular aliado à ironia.

Pense nisto como a próxima evolução do estilo retrô chique: o analógico auto-consciente pode ter dominado a última década, pelo menos entre os formadores de opinião com seus jeans tecidos artesanalmente, seus aparelhos de som “vintage”, máquinas de escrever e relógios mecânicos. Mas assim que as crianças que cresceram na companhia do Nintendo e do Naspter amadurecem ao ponto de sofrerem ocasionais ataques de nostalgia cultural, o lixo dispensável de sua juventude pode, também, estar pronto para ser reconhecido.

K7s, Nintendos e outras belezinhas

 “Estamos em um ponto onde podemos olhar para trás e perceber o quanto a fita VHS era legal”, diz Erika Iris Simmons, uma artista com 31 anos, de Chicago, que trabalha sob o nome de Iri5, fazendo retratos de ícones como Jimi Hendrix e Marilyn Monroe não com um pincel, mas com redemoinhos de fitas de antigos K7s e VHSs.

Seguindo esta mesma linha, o designer de Los Angeles Chris McCullough, de 40 anos, cria arte para seus espaços. Ele constrói retratos de ícones culturais como James Brown usando cassetes como mosaicos. As fitas descartadas, além de baratos e abundantes, têm apelo para o público da sua idade. “Os K7s representaram o primeiro meio portátil de música que você podia compartilhar e personalizar”, resume McCullough, antes que serviços como o Spotify tornassem a música “sempre disponível”.

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Pixelkabinett 42 , da Love Hulten, que cria arcade games com o jeitão dos anos 80 e 90 imagem: The New York Times
Velhos periféricos do Nintendo também podem servir como arte ou, ao menos, como pontos de destaque na decoração da casa. Jeff Farber da Oshkosh, em Wisconsin, vende luminárias de mesa e de chão no estilo pop art criadas com PlayStations, Nintendos 64 e similares em sua loja Woody6Switch, no Etsy. As criações se destinam a celebrar uma era em que os dispositivos tecnológicos, até mesmo os mais baratos de plástico, tinham certo poder de permanência.

“Quando eu era criança, a tecnologia avançava muito mais lentamente do que hoje em dia. Era como ter um animal de estimação: você cuidava do seu dispositivo e ele lhe dava alegria e entretenimento por muitos e muitos anos”, constata Farber, de 36 anos.

Por outro lado, acrescenta, “os avanços e atualizações tecnológicas de hoje são tão rápidos que um aparelho comprado hoje pode se tornar virtualmente obsoleto em questão de meses, por isso não há tempo para se apaixonar por ele, da forma como você se apaixonaria pelo videogame da infância”.

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A empresa Woody6Switch Geekery cria luminárias usando consoles antigos imagem: The New York Times
Lixo eletrônico

Certamente não há escassez de material: como o ciclo de vida médio do aparelho eletrônico encolhe até virar um piscar de olhos, as montanhas de lixo eletrônico continuam a aumentar, devendo superar 70 milhões de toneladas em 2015, contra cerca de 19 milhões em 1990, de acordo com um relatório 2014 feito pela Step, uma iniciativa de sustentabilidade de filiadas à Organização das Nações Unidas (ONU).

Exceto em casos incomuns – como a história recente sobre uma mulher de Bay Area que jogou fora um raro computador Apple I da década de 1970 que vale cerca de US$ 200 mil, aparentemente por acidente, em um centro de reciclagem em Milpitas, Califórnia – poucos olham naquela pilha de lixo e enxergam tesouros.

Contudo, a base de consumidores para estes produtos reutilizados tende a ser pequena e auto-seletiva: enquanto alguns consideram a reutilização de dispositivos eletrônicos antigos em molduras ou vasos como um gesto ecológico, outros a veem como uma celebração da herança tecnológica compartilhada.

“São aficionados por tecnologia e nerds”, afirma Rob Connolly, um aposentado da Flórida que, juntamente com sua parceira Rita Balcom, faz intrincados relógios de mesa e parede a partir de placas mãe e discos rígidos. Há alguns anos, a Tecoart (empresa da dupla), que tem lojas virtuais no Etsy e na Amazon, recebeu um pedido de 2.400 peças feito pelo Google, que os repassou como prêmios de incentivo aos funcionários.

Não é surpresa que estes amantes da tecnologia compartilhem sua paixão em comunidades online. Um dos fóruns mais populares é o DIY, blog sobre tecnologia gerenciado pela Evil Mad Scientist laboratories, uma companhia familiar de Sunnyvale, Califórnia, que produz hardware de código aberto. O site apresenta tutoriais sobre como fazer brincos a partir de um chip regulador linear, berloques de vinho a partir de capacitores e um estrado de madeira na forma de um clássico chip 555 com circuito integrado dos anos 70.

“A maioria de nós se aprofunda nas comunidades que ensinam a confecção”, diz Lenore Edman, uma das fundadoras, “sendo assim estes itens são símbolos tanto da nossa história quanto do nosso conhecimento”.

Tradutor: Melissa Brandão (tradução) e Daiana Dalfito (edição)

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