Casa e decoração

Opção ou necessidade: como é morar em apartamentos minúsculos?

Simon Plestenjak/ UOL
A jornalista Christiane Aguiar mora em um apê com 24 m², em São Paulo, com o marido imagem: Simon Plestenjak/ UOL

Giovanny Gerolla

Colaboração para o UOL, de São Paulo

Eles estão ficando cada vez menores: 30 m², 24 m², 15 m², mas embora pareçam pequenos demais, os chamados “microapartamentos” podem oferecer duas vantagens importantes para quem está decolando na carreira e ainda precisa trabalhar muito: preços altos, mas “pagáveis” pela baixa metragem e localização estratégica, muitas vezes central ou próxima das linhas de metrô ou de áreas de negócios.

Minha doce caixinha de fósforos

A designer de interiores Lívia Nara da Fonseca, 32, não aguentava mais enfrentar o trânsito da região do ABC, na região metropolitana de São Paulo, até a Vila Olímpia, bairro onde está o escritório em que trabalha. “Queria um lugar para ficar durante a semana, que fosse temporário e flexível. Não sobrava tempo para academia, lazer ou estudos”, justifica. Lívia acabou alugando um espaço com 15 m², no Itaim Bibi: “Comprar na Vila Olímpia é algo ainda muito fora da minha realidade”, diz. E a designer não é exceção: ali os preços são salgados, ultrapassando R$ 12 mil pelo metro quadrado, em média.

Já a escrevente Kiára Mendonça, 36, morou por um ano e três meses em uma quitinete com 28 m², em um prédio mais antigo. “Era o típico quarto-sala, que você acessa por um corredor com pia e espaço para um pequeno fogão”, conta. Na casa de Kiára, a geladeira ficava no quarto e a máquina de lavar, no banheiro. “Eu não aguentei, porque era improvisado demais”, resume.

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Kiára Mendonça mora em um apê com 37 m² há dois anos: "Dá pra ter um banquinho!" imagem: Simon Plestenjak/ UOL
Além disso, a única porta dava para o corredor do prédio, onde os vizinhos faziam barulho. A roupa ficava no meio do quarto-sala, estendida num varal de chão, a cozinha não tinha ralo e a circulação de ar era precária: “O travesseiro cheivara a bife”, conta a moradora. Kiára foi então para um apê mais espaçoso, mas ainda assim, compacto. Está há dois anos no imóvel com 37 m², onde afirma viver bem.

O novo apartamento tem divisões internas e uma garagem. Os nove metros extras parecem ter pouco impacto no dia a dia, mas a distribuição mais acertada acomodou os pertences que viviam amontoados e deu para incluir um sofá na decoração. “O prédio é novo, com área de lazer completa. Sou a primeira moradora do imóvel e tenho até uma sacada! Cabe um banquinho”, brinca Kiára. Como a perfeição é difícil de ser alcançada, a moradora aponta um problema: a parede fina, em gesso acartonado e sem isolante acústico, a faz ouvir o despertador do vizinho todos os dias.

Necessidade e tendência

O problema dos novos apartamentos nas grandes metrópoles não é só o espaço diminuto. Para o engenheiro especialista em acústica, Fernando Henrique Aidar, a preocupação é o desconforto – em primeiro lugar - com o barulho. “São prédios em áreas urbanas centrais e muitos têm salas de ginástica sem tratamento acústico, piscinas de cobertura e churrasqueiras com tubos de exaustão que também não recebem isolantes. É impossível que pessoas idosas vivam nessas caixas de fósforo ressonantes”, critica.

Aos 85 anos e aposentado, Fernando adoraria ir para um imóvel menor com sua esposa, especialmente, se o lugar estivesse próximo de serviços e metrôs, mas não encontra boas opções. “Os terrenos estão muito caros, o que encarece o metro quadrado. Por outro lado, morar em microapartamentos pode ser visto como uma necessidade dos mais jovens, que priorizam gastar com viagens a investir em espaços maiores e mais confortáveis. De forma generalizada, essa necessidade vai virando tendência”, defende.

O empresário e construtor José Firmo Piazza Junior também acredita que levantar edifícios com microunidades é uma necessidade de mercado que pode ser encarada como modelo a ser seguido: “Apartamentos cada vez menores viabilizam preços compatíveis com o poder de compra do público alvo. Mas esta redução de tamanho deve ter um limite, que será regulado no médio prazo com a estabilização do mercado”, prevê.

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A designer Lívia Nara da Fonseca aproveitará o espaço com uma cama suspensa imagem: Simon Plestenjak/ UOL
Projetinho bacana

Fato é que muitos enxergam morar em um microapê como quase obrigatório no início da vida adulta e as alternativa a esse modelo acabam se limitando à dividir do aluguel com amigos ou parceiros ou manter-se na casa dos pais ou em pontos mais distantes em metrópoles como São Paulo. Mas começar a vida em um microapartamento, mesmo que não se saiba exatamente quando terá de deixá-lo, não indica um “para sempre”.

A jornalista Christiane Aguiar, 28, comprou há cinco anos um apê com 24 m² na região da Sé, centro da capital paulista. “Ia morar sozinha. Trabalho o dia todo e saio aos finais de semana. O tamanho era suficiente”, avalia. Há dois anos, porém, veio o marido e a primeira reforma, que dividiu o espaço integrado em quarto e sala de estar, usando apenas um armário. E o velho banheiro teve uma de suas paredes derrubada a fim de acomodar a nova lavanderia: “Mantivemos o piso original e investimos em novos revestimentos”, conta Christiane.

Integrada a cozinha com sala de estar, o apartamento até parece maior do que era e tem funcionado muito bem para o casal. “O guarda-roupas-divisória teve o fundo revestido e se tornou um mural decorativo. Os móveis não são planejados, porque custariam três vezes mais. Assim, saímos à caça da mobília com fita métrica, para achar o tamanho ideal. A cama box tem um baú, que serve para guardar nossas coisas”, descreve a moradora. 

Apesar de já terem entrado em um consórcio para comprar o próximo imóvel, Christiane só vê necessidade de empacotar a mudança na hora que o primeiro filho vier. “Um dormitório a mais vai bastar”, planeja, sem pressa nem urgência. No caso de Lívia Nara da Fonseca, trabalhar em um escritório de arquitetura de interiores a motivou a planejar o apê. Ela e os colegas estão fazendo um projeto para uma pequena reforma para os seus 15 m².

“Não posso quebrar nada, porque o imóvel é alugado. Então vamos colocar uma cama suspensa, aproveitando o pé direito relativamente alto. Ela será apoiada, em parte, sobre o guarda-roupa e o acesso será por uma escada lateral com nichos e gavetas sob os degraus. Foi o jeito que encontramos de aproveitar o cômodo único, que só tem uma pia”.

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