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Casa circular no cerrado se adapta à topografia e aproveita a paisagem

Giovanny Gerolla

Do UOL, em São Paulo

A casa RP faz parte da fase mais recente da obra do arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé. O projeto é exemplo de uma metodologia bem estabelecida para a aplicação do aço como elemento estrutural e plástico, combinado a outras tecnologias de forma a “industrializar” o canteiro de obra.

A residência localiza-se no chamado Altiplano Leste, distante 20 Km da Praça dos Três Poderes, em Brasília (DF), entre o requintado bairro do Lago Sul e Paranoá (cidade-satélite). A topografia bastante acidentada oferece vistas para vales, grotas e ribanceiras do cerrado central.

Na entrada principal do terreno com mais de 18 mil m², uma marquise vermelha e ondulada em balanço contrasta com o branco dominante da primeira cota do conjunto. Ela dá abrigo aos visitantes recém-chegados e leva à residência do caseiro.

De lá até a casa principal, o caminho permite a observação da inclinação do terreno. A construção está “encaixada” nos vários desníveis, moldados por muros de arrimo de pedras, que definem os acessos: da garagem para os interiores e destes para a varanda e a piscina.

Flor do cerrado

A garagem conta com uma cobertura metálica em forma de cogumelo: é um  imenso guarda-chuva, surpreendente na leveza e cuja forma arrojada destoa da geografia acidentada e rústica. Junto a ela, uma escada de metal amarelo é cria o eixo de circulação até o volume que se destaca sobre o declive recortado.

Já do lado de dentro, a escada se transforma em “ponte”, ao se debruçar sobre um jardim aquático, no que pode ser chamado de hall de recepção: um espelho d’água com contorno definido pelo arrimo de pedra (ele é parte da arquitetura de interiores), que se opõe à fachada interior envidraçada (portas de correr sobre grande trilho semicircular) e de onde se avista a cozinha, o estar, o jantar e a biblioteca.

A água é um elemento importante na casa não só como fator estético, mas por gerar um microclima úmido em meio a um domínio morfoclimático seco.

Lelé, um manifesto

A circulação da casa é “circular” e parte da sala de estar que funciona como recepção e eixo central, distribuindo fluxos que nela se entrecruzam, para os dormitórios e o ateliê, a cozinha e as dependências de serviços e a área externa de lazer.

Lelé morreu em 2014, foi arquiteto, mas se dedicou também aos projetos de instalações e ao cálculo de estruturas. Sua preocupação com questões construtivas como a execução, a racionalização do cronograma e os custos de cada obra, o levou a idealizar esta casa semicírculo, segundo aponta  Adalberto Vilela, pesquisador do Departamento de História e Teoria da Arquitetura do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, na Suiça, e mestre especialista na obra residencial de Lelé, pela Universidade de Brasília (UnB).

“[Esta casa foi] desenvolvida sobre dois eixos de composição: um radial, que atravessa a casa transversalmente, e outro arqueado, longitudinal e concêntrico”, explica o pesquisador. Vilela ainda afirma que, o mais fundamental na casa RP é sua implantação. Dentre todas as residências projetadas por Lelé, esta é a que melhor mantém uma relação com o solo e a paisagem circundante. “O cerrado ali não é apenas cenário de contemplação, ele foi entendido e usado como elemento para a tomada de decisões”, conclui.

Segundo o próprio Lelé, para quem a concepção do espaço sempre foi uma interlocução com a natureza, a casa projetada em meados de 2000 é “uma interlocução visual”. 

Ficha técnica

Casa RP, Paranoá - Brasília, Distrito Federal

Projeto de João Filqueiras Lima, o Lelé

Detalhes do projeto
  • Área do Terreno 18.475 m²
  • Área Construída 1.880 m²
  • Início do Projeto 2007
  • Conclusão da Obra 2008
  • Projeto João Filgueiras Lima (Lelé)
  • Projeto de Arquitetura João Filgueiras Lima (Lelé)
  • Projeto de Instalações Elétricas João Filgueiras Lima (Lelé)
  • Cálculo Estrutural João Filgueiras Lima (Lelé)
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