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Casa de praia cria jogo de opostos e se equilibra em muros e pilares no RS

Ledy Valporto Leal

Do UOL, em São Paulo

Ao contrário de muitas casas que se ‘despem’ aos poucos para o observador, esta residência, situada em um condomínio fechado no litoral norte gaúcho, a 135 km da capital, se revela por inteiro de uma só vez.

Com projeto que se assemelha ao de uma casa urbana e área construída de 340 m², a obra está implantada em um terreno de esquina em forma de trapézio, medindo 530 m². O partido adotado pelos arquitetos do escritório MAPA consiste na clara superposição de dois corpos, deliberadamente distintos e em franca oposição.

O térreo é um volume envidraçado e o piso superior, um bloco fechado, envolto por uma trama de madeira. Ao rés do chão ficam o living, a cozinha e a churrasqueira, enquanto três dormitórios e os banheiros se alinham no pavimento suspenso.

Elemento dissonante, mas de vital importância é o muro disposto transversalmente à frente da construção, que atende a um duplo propósito: protegê-la dos fortes ventos nordeste e separar os espaços externos dos ambientes internos, assegurando a estes a necessária (e delicada) privacidade.

 Transparência e introspecção

Segundo pontuam os arquitetos do MAPA: uma casa de praia sempre tem uma relação muito marcada entre os usos diurno e noturno. Dia e noite; transparência e introspecção; atividade e descanso se transmutam na forma de estruturar os dois blocos da casa: a interligação entre a parte social e seu entorno exterior se dá de forma intensa, através da absoluta transparência do estar e a continuidade entre eles, com o emprego de uma mesma pavimentação (ardósia).

O oposto foi adotado na ala íntima. Dada a natureza íntima dos ambientes, os projetistas envolveram o volume com uma espécie de “filtro”, um ripado de itaúba (painéis de 3,5 m x 3,65 m). Todavia, há uma particularidade nesses espaços configurada pelo emprego de terraços com grandes balanços nos dois extremos da casa, uma reprodução, em escala íntima, das relações interior-exterior.

Solução construtiva

Os elementos de apoio térreo são, pela ordem de importância, o muro de concreto e uma sequência de pilares metálicos, em parte aparentes (estar) e, em parte, embutidos nas paredes de alvenaria das dependências de serviço. No piso superior, essa sequência de colunas corresponde às divisórias dos dormitórios e das áreas de banheiro. As lajes, em concreto aparente, não têm vigas, sendo a espessura do entrepiso relativa a 30 cm e a cobertura impermeabilizada e acabada com uma manta verde.

Os dois terraços, com balanços de 4,5 m à frente e quatro metros aos fundos, foram construídos com base em peças metálicas do piso, que suportam placas cimentícias, e nos requadros que dão esteio ao envoltório ripado. Para viabilizar esses balanços, foram empregados os recursos de contraventamento (cálculo e execução de um sistema de proteção para edificações contra a ação do vento) e atirantamento (tensionamento e apoio) por vigas periféricas metálicas, este com continuidade em toda a borda do piso superior, a fim de firmar os brises de madeira.

As funções de retaguarda

Nesta “casa de propostas antagônicas, que combinadas se complementam num jogo ambíguo entre o íntimo e o social”, as soluções se espelham e contrapõem, até mesmo nos espaços de serviço e apoio. 

A escada e o lavabo conformam um volume revestido com laminado de madeira, a mesma empregada no ripado do piso superior. Dispostos em eixo estão o espaço da cozinha – espécie de ilha, com pia e fogão – e na parte externa, outro volume, destinado a churrasqueira e lavanderia.

Na face da circulação temos, internamente, armários para geladeira e apoio à cozinha e, externamente, voltados para um corredor de 1,5 m, “encaixes” para as instalações de gás e aquecedores, além dos equipamentos de limpeza e manutenção.

Como não poderia deixar de ser, tal solução se repete em frente à escada de serviço no pavimento mais alto, pois ali há mais uma sequência de armários que serve de apoio aos dormitórios. É um toma lá, da cá que fez desta, uma das melhores arquiteturas de 2014.

Ficha técnica

Casa Xan, Xangrilá (RS)

Projeto de MAPA Architects

Detalhes do projeto
  • Área do Terreno 530 m²
  • Área Construída 340 m²
  • Início do Projeto 2011
  • Conclusão da Obra 2013
  • Projeto MAPA Architects (maam + studioparalelo)
  • Equipe Arquitetos Luciano Andrades, Maurício Lopez, Rochelle Castro, Matías Carballal, Andrés Gobba e Silvio Machado
  • Colaboradores Alexis Arbelo, Jaqueline Lessa, Aldo Lanzi, Diogo Valls e Camila Thiesen
  • Projeto de Arquitetura MAPA Architects (maam + studioparalelo)
  • Projeto de Paisagismo Savannah Jardins e MAPA
  • Projeto Estrutural - Concreto Tecnolinea Engenharia (André Tedeschi - concreto)
  • Projeto Estrutural - Aço Tecnolinea Engenharia (Francisco Volpato - estrutura metálica brises e varandas) e Valls Engenharia (pilares metálicos)
  • Construção ALM - Alfredo Lima Martins Construções
  • Gerenciamento da Obra MAPA maam + studioparalelo
  • Projeto de Instalações Elétricas Studio Horizonte
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