Casa e decoração

Com paredes inclinadas, casa estreita ganha amplitude pela ilusão de ótica

Giovanny Gerolla

Do UOL, em São Paulo

Ninguém dava importância para aquele terreno de esquina estreito e alongado, em um bairro de Porto Alegre (RS). Tanto que o lote estava esquecido há vinte anos e, nos três primeiros leilões de venda, nada de lances. Uma interessada viria, porém, ao quarto leilão: professora de história, já por volta dos seus sessenta anos, a compradora queria uma casa com arquitetura ousada e revestimentos simples.

Mas o que projetar para um terreno-linguiça com apenas 3,5 m de largura e quase 40 m de comprimento? Ao contrário do que possa parecer, a equipe do escritório britânico Procter-Rihl via futuro ali.

“Temos um interesse especial por terrenos residuais urbanos. Acreditamos que as cidades devem ser desenvolvidas em seu máximo potencial. E isso significa que nenhum lote pode ser considerado pequeno demais ou pouco importante a ponto de ser deixado de lado. O desafio está em buscar, para eles, a melhor solução de planejamento e de programa de uso”, diz o arquiteto brasileiro Fernando Rihl, que integra o time.

Residual e prismática

Terrenos residuais são espaços pequenos espremidos entre lotes maiores ou cantos de rua que surgem em função da dinâmica mutante das cidades, à medida que construções surgem e desaparecem. No terreninho renegado de PoA, a partir de estudos aprofundados para a iluminação e a ventilação naturais e o impacto dos jardins nos interiores surgiu a "Slice House" ou casa-fatia.

Com conforto, a construção abriga dois dormitórios, salas de estar, jantar, cozinha e jardim, além de uma piscina e duas vagas de garagem. Por fora e de cima é possível visualizar o zigue-zague das linhas criadas pelas paredes paralelas em alturas variáveis e pelos planos inclinados em ângulos diversos. O resultado é uma arquitetura de geometria complexa, assimétrica e prismática. 

A piscina é, sem dúvida, o grande destaque do projeto: apoiada em três de seus lados, sua quarta face foi feita com vidro estrutural, de forma que sua altura  funcione como uma janela para o living. Durante o dia, é a água que filtra a luz natural que entra nas salas, pela frente da residência. À noite, o fundo do tanque, visto desde a sala, se transforma em um painel de luz colorida.

Brasilidade

A originalidade da forma e a exploração da geometria que desafia o olho humano são as influências europeias do projeto. Enquanto o toque brasileiro vem dos sistemas construtivos: pórticos estruturais e vigas em concreto armado que possibilitaram grandes vãos, rampa em balanço e a piscina apoiada sobre a laje, cujo nível d’água está na mesma linha do pavimento superior íntimo. Para completar a casa gaúcha, as fachadas foram executadas, predominantemente, com concreto aparente, o que disfarçou os elementos estruturais.

Os pisos, em concreto polido, também dialogam com o modernismo nacional, cara a cara com forros no mesmo material que, por serem angulados, sobem e descem criando áreas com pé-direito muito baixo - próximo da altura das portas (2,1 m) - e outras onde ultrapassa os 3,5 m. Essa variação fez “crescer” aquilo que era destinado a ser pequeno. A assimetria garantiu espaços contínuos e amplos, criados por uma espécie de ilusão de ótica. A beleza e a funcionalidade da obra, no entanto, não é ilusória.

Ficha técnica

Slice House, Porto Alegre (RS)

Projeto de Procter-Rihl (www.procter-rihl.com)

Detalhes do projeto
  • Área do Terreno 265 m²
  • Área Construída 210 m²
  • Início do Projeto 2002
  • Conclusão da Obra 2004
  • Projeto Procter-Rihl - Christopher Procter e Fernando Rihl
  • Equipe Christopher Procter, Fernando Rihl, Dirk Anderson, James Backwell e Johannes Lobbert
  • Projeto de Arquitetura Procter-Rihl
  • Projeto de Decoração Procter-Rihl
  • Projeto de Paisagismo Procter-Rihl
  • Projeto Estrutural - Concreto Antonio Pasquali
  • Construção JS Construções
  • Gerenciamento da Obra Mauro Medeiros
  • Projeto de Instalações Elétricas Flavio Mainardi
  • Projeto Luminotécnico Procter-Rihl
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