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"Comunista", casa dos anos 1950 é reformada, mas se mantém original

Giovanny Gerolla

Do UOL, em São Paulo

O arquiteto Angelo Bucci havia sido procurado por seu irmão e cunhada, em 1995, para desenvolver o projeto de uma nova residência. O casal procurava por um terreno em São Paulo, mas não contava com a grande surpresa prestes a acontecer. A cunhada, sobrinha-neta do casal de professores da Universidade de São Paulo (USP), Olga e Sebastião Baeta Henriques, foi informada pela família que a Casa Olga Baeta, com arquitetura original de João Batista Vilanova Artigas (1915-85), estava à venda e que a preferência era dada aos familiares.

“Os Baeta eram amigos do Artigas, integraram o partido comunista, ficaram exilados na ex-URSS e depois faleceram em São Paulo. Passados alguns anos, os filhos anunciaram a venda, foi quando meu irmão me consultou. A oportunidade era maravilhosa, e não podia ser perdida”, relata Bucci.

Foi assim que, 40 anos após da construção da residência, com desenho datado de 1956, Angelo Bucci concebeu uma reforma que procurou valorizar o que considerava qualidades essenciais da obra histórica e que, por contingências da época de sua construção (1957), haviam sido parcialmente negligenciadas, por falta de mão de obra especializada para a  execução do serviço e problemas financeiros. “Tive acesso ao pessoal da Fundação Vilanova Artigas, que mantinha todo o acervo de desenhos originais da casa, e da estrutura”, conta Bucci. Hoje, o acervo pertence à USP.

Empenas e pórticos

A estrutura é destaque da Casa Olga Baeta. Isso porque Artigas, antes de ser arquiteto, era engenheiro e projetava a estrutura de suas casas. Nesta obra, foram propostos três pórticos sucessivos: dois de fachada, um de frente e outro de fundos, contam com a altura estrutural de duas grandes paredes de concreto (empenas), em balanço assimétrico de 4,5 m. Os pórticos formam-se pela somatória destas empenas com duas colunas laterais de sustentação, também em concreto. 

No terceiro pórtico central, no entanto, essa empena não existe. Ali foi previsto um eixo de circulação vertical, dado por escadas, entre os dois pavimentos do volume residencial, social, no térreo e, íntimo, no primeiro andar.

Essa “falta” do elemento estrutural componente do terceiro pórtico foi suprida com a adição de uma escora em concreto armado. “Por problemas com a mão de obra contratada à época da execução, aquela escora acabou sendo substituída por um pilarete improvisado, em concreto, do lado de fora da casa”, relata Angelo Bucci.

Porém, com a reforma de 1996, pôde-se retomar a ideia da escora original, só que agora metálica, para recompor a originalidade do projeto estrutural. Afora isso, a nova obra se limitou a refazer ambientes servidos por instalações hidráulicas:  cozinha, serviços e banheiros.

Original, sim senhor!

“Todas as alterações realizadas são técnica e formalmente distintas da construção original, evitando que esses dois momentos da história da Casa Olga Baeta se confundam. Novas paredes da área térrea reformada foram todas feitas com argamassa armada, de acabamento similar ao concreto aparente, mas com espessura de cinco centímetros”.

As cores primárias - vermelho, azul, amarelo – além do branco e do preto -, demarcam geometricamente os espaços, tanto nas paredes quanto nos pisos de ladrilho hidráulico, reproduzindo com fidelidade a inspiração de Artigas: a obra do pintor holandês Piet Mondrian (1872-1944).

Além disso, com extensa lateral totalmente envidraçada, a Casa Olga Baeta mantém uma luz que, como a arte, precisa ser vivenciada, sentida.

Ficha técnica

Casa Olga Baeta, São Paulo (SP)

Projeto de João Batista Vilanova Artigas (original); Angelo Bucci (reforma)

Detalhes do projeto
  • Área Construída 170 m²
  • Início do Projeto 1956
  • Conclusão da Obra 1998 (reforma)
  • Projeto João Batista Vilanova Artigas (original - 1956); Angelo Bucci (reforma - 1996)
  • Equipe Angelo Bucci (reforma - 1996)
  • Colaboradores Fernando de Mello Franco, Marta Moreira, Milton Braga, Alvaro Puntoni, Carmen Morais e Luciana Itikama (reforma)
  • Projeto de Arquitetura João Batista Vilanova Artigas (original - 1956)
  • Projeto de Paisagismo Raul Pereira (2008)
  • Projeto Estrutural - Concreto Ibsen Puleo Uvo (reforma)
  • Construção Construmet (Paulo Balugoli) - reforma
  • Projeto Luminotécnico Ricardo Heder (2008)
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