Cerimônia

Exceto pela questão religiosa, casamento gay não difere de heterossexual

Célia Santos/Divulgação
12.out.2013 - No casamento de Daniela Mercury e Malu Verçosa, as noivas entraram com buquês nas mãos e com vestidos confeccionados pelo artista plástico Iuri Sarmento imagem: Célia Santos/Divulgação

Fábio de Oliveira*

Daniela Mercury se casou com a companheira Malu Verçosa no último sábado (12), em uma cerimônia na casa onde já viviam juntas, em Salvador, na Bahia. Recentemente, a ex-BBB Morango oficializou no cartório o relacionamento com a comissária de bordo Rabyta. Fora do mundo das celebridades, o movimento é o mesmo e casais homossexuais também estão selando seus relacionamentos com cerimônia e festa, como manda o figurino. Mas será que o mercado matrimonial está preparado para atender essa nova demanda?

Para Vanessa Blanco, da UP Assessoria de Eventos, os fornecedores de casamento estão correndo atrás. “Inclusive, alguns DJs e bandas estão até se especializando em serviços voltados especificamente para o público gay.” E completa: “Bons fornecedores de casamento estão habituados a fazer o possível para que o sonho de casais seja alcançado, independentemente do casamento ser gay ou heterossexual”.

Protocolo muda?
Hoje, o protocolo para o matrimônio está mais flexível. E não importa a orientação sexual. “Fora da igreja, que tem um rito, o casal pode fazer o que bem entender”, diz a assessora Carolina D’Angelo. “A etiqueta não muda; o que muda são os protagonistas. A sequência do casamento seria igual”, comenta Juliana Trabulsi, da empresa Happiness Eventos.

Inspiração

Lan Rodrigues/Divulgação
A recepção de Graziela Machado, funcionária pública federal, e sua companheira R. A., médica que preferiu não ser identificada, foi mais íntima, num restaurante em São Paulo. Foram convidadas 45 pessoas, entre familiares e amigos. As duas gaúchas fizeram a cerimônia em abril de 2011, depois de oficializarem o pacto de união estável. “Começamos a pensar na festa em outubro de 2010. Não tínhamos referencial”, diz Graziela.

Então, acharam uma consultoria de eventos, mas não se identificaram com a proposta. Em seguida, chegaram a falar com outros assessores de eventos até uma amiga indicar Tamara Barbosa, da Coordenare Eventos. “As pessoas ficavam desconfortáveis”, relata.

Cada uma delas levou um buquê. O de R. A. era feito de flores de laranjeira, que simbolicamente significam pureza, uma alusão ao fato de terem se conhecido virgens. Já o de Graziela Machado era de callas laranjas. As duas jogaram os buquês. Blusas e pantalonas brancas compunham o traje das noivas. Graziela entrou com o irmão e R. A. com um amigo.

A assessora Vanessa Blanco, que está organizando duas cerimônias homossexuais previstas para 2015, ainda diz que, na prática e tirando a questão religiosa, a organização do evento não muda em nada. “Como as igrejas não permitem a celebração, então os gays optam por contratar um celebrante ecumênico ou espiritual.” Ainda há a opção de fazer o casamento na presença de um juiz de paz. Alguns templos de religiões afro-descendentes também aceitam celebrar esse tipo de união.

Ao gosto do casal
Com base em sua experiência no ramo matrimonial, Vinícius Favale, assessor e diretor da empresa Múltipla Eventos, diz que os noivos gays são mais maduros, na faixa entre 34 e 40 anos, enquanto os héteros estão na casa dos 24 aos 28 anos. “Eles são mais seguros e independentes financeiramente.” Mas como fica a etiqueta num casamento entre gays ou lésbicas? Difere muito da de um heterossexual? Isso vai de casal para casal --tanto hétero quanto gay.

A escolha das roupas também é uma questão pessoal. “Em um casamento de um casal de lésbicas, uma pode querer entrar de vestido e a outra de terno”, exemplifica Tamara Barbosa, assessora de eventos da Coordinare Eventos. “Num dos casamentos que ajudei a organizar, os dois noivos entraram com fardas estilizadas”, conta Vinícius Favale.

De acordo com Favale, nenhum dos gays assessorados por ele entrou com vestimentas mais femininas, mas isso está longe de ser um empecilho. O buquê  também é outro quesito que depende do gosto de quem está casando. “Ainda não existe uma tradição”, comenta Favale. Pode entrar ou não com as flores. A assessora Tamara Barbosa cuidou de um casamento de lésbicas no qual as duas entraram com um ramalhete.

E com quem a noiva ou noivo devem entrar? “Pode ser com um dos pais, tudo vai depender da relação que os filhos têm com eles”, diz Tamara. Irmãos ou amigos queridos são outras opções. “Um dos casais com quem trabalhei entrou de mãos dadas para que não houvesse diferenciação”, conta Favale.

E o tão esperado beijo? Tamara Barbosa recomenda bom senso (“para héteros e gays”). “Se normalmente você não beija na frente de todo mundo, vai se pegar na frente da avó de 80 anos?”

Nos cartórios
Os cartórios registraram um aumento significativo no número de casórios entre pessoas do mesmo sexo depois que os procedimentos para esse tipo de união foram, em março último, equiparados aos dos heterossexuais no estado de São Paulo.

Para ter uma ideia, nos dois primeiros meses de 2013 foram realizados 22 casamentos civis entre homossexuais nos cartórios. Antes de a regra entrar em vigor, muitas vezes gays e lésbicas tinham de encaminhar um pedido de habilitação do casamento ao juiz corregedor permanente. Isso porque nem todos os cartórios oficializavam o enlace. Agora a história é outra.

De acordo com o último levantamento feito pela Associação dos Registradores de Pessoas Naturais do Estado de São Paulo (Arpen-SP), realizado em abril, 41 casais homoafetivos estreitaram os laços no período de um mês. 

* Com colaboração de Bárbara Stefanelli

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