Comportamento

'Me adiciona no Face?': britânico relata supresa com 'amizades instantâneas' do Brasil

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Adam Smith passou seis meses no Brasil imagem: Divulgação

Adam Smith Estudante de Oxford e blogueiro do 'Para Inglês Ver'

O meu post anterior, em que escrevi sobre americanização e o complexo de vira-latas, recebeu uma vasta gama de reações.

Apesar de um certo ódio em alguns dos comentários, adorei gerar tanta repercussão neste extraordinário país que é o Brasil. Para este post, no entanto, pensei em algo mais leve. Afinal, haja coração!

Meu assunto hoje são as amizades. Como se fazem amigos no Brasil? O que isso revela sobre a cultura? E qual a diferença entre brasileiros e britânicos neste aspecto?

No Brasil, recebi inesperados convites quase instantâneos para jantares, viagens de carro e até pernoites em residências. Mas o que realmente me surpreendeu foi a facilidade com as "amizades" virtuais. Impossível não falar do que talvez seja o maior fenômeno sociocultural da minha geração, o Facebook.

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No Brasil, é muito fácil fazer um novo amigo ou receber um convite para jantar de alguém que você acabou de conhecer. E a cultura do Facebook parece não apenas refletir como também levar essa abertura extrema dos brasileiros a um nível ainda mais elevado (extrema porque é o extremo oposto do que estou acostumado).

Não era incomum, no Brasil, depois de uma primeira conversa de poucos minutos, alguém dizer: "Me adiciona no Face?". Era algo que, para mim, com uma cabeça britânica, só faria sentido se, de fato, houvesse uma intenção real de manter contato com a pessoa. Não seria o caso de uma relação de poucos minutos em que nem sequer o nome do "novo amigo" havia sido memorizado. Tenho amigos no Facebook com os quais não falo há bastante tempo, mas fiquei com a impressão de que, no Brasil, é mais comum se conectar com pessoas que você nem sequer não conhece.

Uma vez, fui parado na rua por alguém que nunca tinha visto na vida. Ele me falou que um amigo dele tinha visto várias vezes um cara que, segundo a descrição do amigo, se parecia comigo. Depois de dois minutos de uma conversa embaraçosa (e surreal), o cara me pediu para adicioná-lo no Facebook. Me parou na rua, citando uma descrição confusa de um amigo e queria me adicionar no Face! Fiquei atônito. Algo assim nunca aconteceria em Londres.

Ainda não resolvi na minha cabeça se essa facilidade extrema de estabelecer relações pessoais é algo bom ou ruim ou até mesmo se deve ser classificada como uma coisa ou outra.

Vivo agora na Alemanha, depois do período no Brasil. Aqui em Berlim, diria que há uma abertura maior do que em Londres. No entanto, nada que chegue perto das experiências que tive no Brasil.

São aqueles aspectos do dia a dia que fazem você refletir sobre sua cultura, sua criação. Em Londres, as pessoas são muitas vezes frias e fechadas. Nem olham para os outros no metrô. Não existe conversa espontânea no transporte público, como tive tantas vezes em Sampa.

Se você começa a olhar no olho das pessoas ou mesmo observar alguém mais atentamente e puxar conversa, vira uma espécie de pária social. Não sei por que somos assim. Vai ver a explicação vem do céu. Será que é uma necessidade de imitar nosso céu escuro com um humor igualmente cinza? E será que o comportamento dos brasileiros reflete o brilho vivo do céu aberto?

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Foi essa hospitalidade que fez de mim um admirador do Brasil (sei que não são todos assim, mas diria que são a maioria dos que conheci). Essa abertura, no entanto, pode trazer desvantagens. É fácil fazer amigos rapidamente, mas é difícil ter o que vejo como amizades verdadeiramente próximas e íntimas.

Será que isso explicaria também por que, na sociedade brasileira, parece haver pouca confiança entre as pessoas? Como é que se diferencia a sinceridade da superficialidade em um rosto que oferece um sorriso amigo e palavras acolhedoras? Claro que há sutilezas que um gringo não "pesca". Mas ouvi de brasileiros que essa diferenciação não é tão simples assim mesmo para quem nasceu e cresceu brasileiro.

Você concorda? Adoraria saber o que vocês pensam sobre isso, se tiveram experiência diferentes do "estereótipo" no Brasil ou em outras partes do mundo.

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