Comportamento

Como o futebol está mudando a vida de mulheres no Irã

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Futebol tem se tornado esporte muito popular entre mulheres no Irã imagem: Getty

Até pouco tempo atrás, quando a iraniana nascida nos Estados Unidos Katayoun Khosrowyar dizia a seus amigos em Teerã que jogava futebol, ela era surpreendida com perguntas que faziam pouco sentido.

"Você joga futebol? Mas como? Você corre?". Eles não entendiam como mulheres poderiam ser capazes de jogar.

Há 10 anos morando no Irã, Katayoun é umas das protagonistas de uma "revolução do futebol" entre as mulheres em um país que ainda cultiva muitas restrições aos direitos femininos. O esporte, porém, está tendo um impacto nessa realidade.

"Para jogar futebol, as mulheres precisam conciliar treinos e estudo, não é uma coisa fácil. Isso faz com que elas ganhem um respeito maior da sociedade", disse à BBC Brasil Katayoun, que atuou pela equipe nacional e hoje é técnica da seleção iraniana sub-14.

Proibido de ser praticado pelas mulheres a partir da Revolução Iraniana de 1979, o futebol feminino voltou com força a partir de 2005, quando uma seleção foi montada para disputar um campeonato da Ásia Ocidental. Hoje, ele tem se tornado cada vez mais popular, atraindo milhares de meninas que começam a praticar a modalidade desde cedo.

Mais do que isso, o futebol feminino no Irã tem chamado a atenção para tabus tradicionais envolvendo mulheres no país.

Na semana passada, por exemplo, a capitã da seleção de futsal do Irã, Niloufar Ardalan, não pôde viajar para disputar a Copa Asiática na Malásia porque o marido não deixou --no Irã, mulheres precisam de autorização dos maridos para saírem do país. O tema ganhou destaque em vários jornais pelo mundo todo e gerou debate no próprio país.

A justificativa para não assinar a permissão de viagem à esposa foi porque "ela precisava estar em casa para acompanhar o filho no primeiro dia de aula". Conhecida como "Lady Goal", a jogadora de 30 anos não escondeu sua insatisfação.

"Como mulher muçulmana, eu queria lutar para que a bandeira do meu país fosse erguida (nos jogos); não estava viajando por lazer ou diversão", disse ela à imprensa local.

"Gostaria que as autoridades criassem uma solução que permitisse a atletas mulheres defenderem seus direitos nessa situação. Entendo que é a lei, mas nossa seleção precisa de mim. O governo poderia abrir uma exceção temporária para atletas profissionais disputarem partidas internacionais. Como mulher, mãe e uma atleta profissional iraniana, eu gostaria de receber esse apoio."

'Revolução'

Apesar de ainda não poderem estar nas arquibancadas em jogos de futebol masculino, dentro de campo, as mulheres já ocuparam seu espaço no esporte. O pontapé inicial foi dado dez anos atrás, quando se formou a primeira seleção feminina desde a proibição da modalidade no Irã na década de 1980.

O time foi um dos motivos pelos quais Katayoun Khosrowyar resolveu ficar no Irã. Ela tinha 17 anos em 2005 quando foi visitar a família e acabou sendo escolhida para fazer parte da seleção. "Eu jogava nos Estados Unidos e, quando vim para o Irã, comecei a jogar futsal, porque não tinha futebol de campo. Eu tive sorte, porque naquele ano, fizeram a seleção e fui convidada para ficar."

Àquela altura, a seleção americana já era bicampeã da Copa do Mundo de futebol feminino, mas Katayoun preferiu ficar no Irã em vez de voltar e jogar nos EUA.

Depois de jogar pela seleção iraniana, Katayoun fez o curso de técnicas da Fifa e assumiu a seleção sub-14 no Irã

"Os Estados Unidos já estão estabelecidos, o time de futebol feminino de lá já ganhou tudo. Eu queria fazer algo revolucionário. E queria fazer algo para ajudar meu outro país, para que elas fossem capazes de competir em alto nível", afirmou.

No início, Katayoun conta que sofreu bastante com o preconceito dos homens, que não acreditavam que mulheres seriam capazes de jogar futebol. "Era um choque e ainda é para algumas pessoas ver mulheres jogando, mas isso tem melhorado nos últimos dez anos, porque o futebol é muito importante e popular por aqui."

"Estamos tentando fazer nosso país se adaptar e mudar esse pensamento de que mulheres não podem jogar futebol. Estamos mostrando que mulheres são fisicamente capazes de jogar os 90 minutos, que elas podem driblar e fazer coisas incríveis, assim como os homens", completou.

Frustração

Com a seleção iraniana montada a partir de 2005, as mulheres do país começaram a sonhar mais alto: elas queriam disputar os Jogos Olímpicos. A oportunidade viria em 2012, nos Jogos de Londres, mas uma regra imposta pelo Comitê Olímpico Internacional e pela Fifa transformou o sonho em frustração.

Em um jogo classificatório para a Olimpíada, em 2011, o Irã acabou eliminado porque as jogadoras entraram em campo usando o hijab, tradicional véu islâmico que as mulheres usam para cobrir o cabelo. Desde 2007, a Fifa não permitia o uso dele "por questões de segurança".

"Foi uma frustração horrível. Porque tivemos mães que abriram mão de ficar com seus filhos, estudantes que tiveram que conciliar estudo e treinos. Mas em meio a tudo aquilo, a gente pensava: 'ok, vai valer a pena quando nos classificarmos para a Olimpíada'", contou Katayoun.

"Tínhamos treinado por anos para poder gerar aquele grande impacto e isso foi simplesmente tirado de nós. Tivemos que sair porque o mundo não estava pronto para ver mulheres jogando com hijab."

A regra mudou em 2014. "Acho que agora, toda vez que jogamos com hijab, eles veem que nós somos tão competitivas e tão fortes quanto os outros times e que nós estamos ali pra vencer também. E com o tempo, vão perceber que é apenas um véu cobrindo o cabelo, nada além disso."

Apesar da liberação do hijab, Katayoun diz que a seleção feminina do Irã não competirá nos Jogos do Rio porque o time de 2012 foi desfeito após a frustração da desclassificação. Agora, é feito um trabalho de preparação das meninas mais novas para formar um time capaz de disputar a Olimpíada de 2020 e a próxima Copa do Mundo, em 2019.

Desafios

Atualmente, cerca de 4 mil meninas iranianas jogam nas categorias juvenis, e o país conta com cinco seleções - adulta, sub-19, sub-16, sub-14 e seleção de futsal. Apesar disso, Katayoun conta que o futebol feminino no Irã ainda sofre com a falta de estrutura.

Isso porque há poucos campos de futebol para atender toda a demanda das mulheres iranianas. Segundo ela, cada vez mais meninas e mulheres se interessam pelo jogo e não há clubes suficientes para elas. Além disso, os times femininos não podem ter técnicos homens e há poucas mulheres capacitadas para serem treinadoras.

Katayoun acredita que não vai demorar muito para a seleção iraniana estar disputando títulos em alto nível

"Não faltam mulheres que queiram ser técnicas, mas não há pessoas capazes de dar esses cursos. Temos muito interesse, mas não sabemos quem poderia dar esses cursos --e queríamos que fossem mulheres", disse.

Katayoun está otimista com relação ao futuro do futebol feminino no Irã. Com cada vez mais apoio no país, ela diz que as mulheres estão quebrando preconceitos e logo estarão disputando títulos em competições internacionais de alto nível.

"Leva um tempo porque nós somos um país islâmico e isso é muito novo para essa região - ver mulheres tão apaixonadas pelo futebol. Mas nós temos muito apoio agora, especialmente das famílias. Estamos 100% prontas e queremos ganhar."

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