Comportamento

Administradora que já demitiu 40 tenta vencer depressão detonada por crise

Fernando Maia
Crise econômica impulsiona quadro de depressão inédito na vida de administradora imagem: Fernando Maia

Claudia Jacobs Especial para a BBC Brasil

A administradora de empresas Márcia Alencar (nome fictício), aos 47 anos, 24 de profissão, precisa lidar com o dilema de escolher diariamente quem será ou não mantido no emprego e, ao chegar em casa, convive com a luta do marido para se recolocar no mercado de trabalho.

Tanta pressão, associada a problemas pessoais e de saúde, foi determinante para que ela desenvolvesse pela primeira vez na vida uma crise de depressão.

Para conseguir enfrentar o que chamou de "fantasmas do dia a dia", ela tem precisado de ajuda profissional e medicamentos.

Funcionária de uma grande empresa no Rio de Janeiro, Márcia viu sua vida virar pelo avesso ao se deparar com a constante e árdua missão de cortar funcionários, muitos deles amigos que fez em anos de empresa.

Nos últimos 12 meses, foi obrigada a dispensar cerca de 40 profissionais. Com o avanço da crise, ela não sabe quantos mais terá de demitir. Ir ao trabalho se tornou uma missão difícil.

"Tenho de demitir pessoas todos os dias. Muitas delas estavam fazendo planos, comprando carros novos ou mesmo uma casa. Tenho de decidir a vida de amigos", conta a administradora, que chegou a desenvolver síndrome do pânico.

Márcia faz parte de um grupo que chama a atenção. De acordo com uma pesquisa do centro de medicina preventiva Med-Rio, levando em consideração a análise de 6.000 formulários de pessoas que fizeram check-up no primeiro semestre deste ano, 12% dos pacientes apresentaram quadro de depressão, contra 8% do mesmo período de 2014 --um aumento de 50%.

Já o quadro de ansiedade foi detectado em 32% das pessoas. No ano passado, eram 20%.

Gilberto Ururahy, diretor-médico da Med-Rio e responsável pela análise dos dados, diz acreditar que o cenário de crise política e econômica, e até mesmo a crise hídrica, estejam afetando diretamente o bem-estar da população.

"Somos produto do meio em que vivemos. Por isso, temos observado entre os pacientes altos níveis de estresse, além de depressão e ansiedade, que levam à hipertensão arterial e à insônia, por exemplo. As pessoas estão convivendo com a incerteza, não sabem o dia de amanhã. O Brasil mudou muito de um ano para cá. A tranquilidade mudou e vem refletindo diretamente na vida de cada um", afirma Ururahy.


Preocupação com o futuro da família

Mãe de uma jovem de 22 anos, Márcia se preocupa com o futuro da filha, que está fazendo estágio. Ela teme que a jovem enfrente os mesmos problemas que o pai, demitido há dois meses.

"Esta semana meu marido arrumou trabalho, mas não é o que esperava, bem inferior ao que tinha. Por isso, continua buscando uma nova oportunidade de se recolocar no mercado. É muito triste chegar em casa e ter de vê-lo enviando currículos", fala Márcia.

A demissão do marido não chegou a afetar o orçamento familiar, já que ainda estavam contando com o dinheiro da indenização, mas foi por pouco.

"Tínhamos calculado que teríamos como sobreviver dentro do nosso padrão até o fim do ano, mas, depois disso, nosso orçamento cairia pela metade. Mesmo assim, há um ano, com o acirramento da crise, estávamos tentando controlar os nossos gastos", diz.

Márcia atribui à terapia, conjugada com os medicamentos, a gradual reversão do quadro depressivo que vinha enfrentando pela primeira vez na vida. Para ela, também é fundamental a mudança na forma de pensar, de encarar os fatos do dia a dia, mudando hábitos e adquirindo novos valores.

"Fui aprendendo a diminuir a pressão, buscar qualidade de vida. Sempre fui muito 'mãezona' e agora aprendi que 50% dos problemas não me pertencem, que tenho de me preocupar a fazer aquilo que eu posso. Que não sou responsável por tudo. A terapia tem me ajudado muito a avaliar melhor, definir minhas urgências, a pensar mais, ter mais cautela", declara a administradora.

Os problemas continuam rondando a vida de Márcia, mas ela está aprendendo a lidar com as dificuldades e buscando conviver com a crise, sem colocar a saúde em risco.

"O clima de insatisfação é geral. Pessoas são obrigadas a sair do trabalho e não têm perspectivas. Aprendi a minimizar esse impacto na minha vida. Encontrei na terapia minha válvula de escape e entendi que cuidar da minha saúde é fundamental. Acho também que todos precisam entender o momento de dificuldade e tentar diminuir as expectativas. Controlar os gastos para que não sejam pegos de surpresa em caso de demissão. O momento não é fácil, e o ideal é diminuir a pressão em torno de si", afirma Márcia. 

Busca por pequenos prazeres

A psicóloga clínica e institucional Lydia Rey trata cerca de 15 pessoas com quadro de depressão, e 30% fazem uso de medicamentos para enfrentar o problema. Rey detectou um aumento significativo no número de pacientes com depressão e ansiedade no último ano, principalmente profissionais em cargos estratégicos, como Márcia.

"As representações sociais e políticas afetam o ser humano. Independentemente de estar empregado ou não, o momento é difícil e influencia a todos. Uma mudança no sistema familiar, por exemplo, gera conflito. Como construir um planejamento dentro de um cenário de incerteza? Você perde o controle e as emoções passam a estar à frente da razão", explica a psicóloga.

Ela considera a ajuda profissional fundamental para a reversão do quadro depressivo. Além disso, resgatar os pequenos prazeres da vida, como caminhar, ir à praia e encontrar os amigos, é um passo importante para quem está buscando estabilidade emocional.

"Em meio a todos esses sintomas, a sua identidade fica desorganizada. Assim, não vão sair felicidade e alegria, vão sair ansiedade e medo, o que resulta em fobias e ataca diretamente o corpo, resultando em problemas de saúde. Buscar o que dá prazer, mesmo que muito pequeno, é um passo importante. É fundamental também definir um plano B, uma alternativa de vida para a situação que está vivendo. Quando você se encontra deprimido, ansioso, você não consegue pensar em alternativa", fala a psicóloga.

Para o médico Gilberto Ururahy, as pessoas precisam ficar atentas aos sintomas iniciais de depressão e ansiedade, como cansaço excessivo, tristeza e falta de vontade, prevenindo assim consequências mais graves, como a consolidação de um quadro depressivo. Ururahy também alerta para os riscos do uso indiscriminado de medicamentos.

"O que pode ser uma depressão ou tristeza passageira, se não tratada devidamente, pode se transformar em depressão profunda. Por isso, antes de qualquer coisa, é necessário tentar buscar uma vida mais saudável. Incluir na rotina alguns minutos de caminhada, ter o sono regular e cuidar da alimentação. Buscar melhor qualidade de vida é o primeiro passo antes de pensar em medicamentos. Muitas vezes, a mudança nos hábitos é suficiente para coibir os sinais de depressão", diz Ururahy.

Conheça 11 sinais clássicos de depressão

- Cansaço constante independentemente das horas de sono;

- Sensação de impotência perante dificuldades da vida;

- Perda de interesse em amigos e atividades que, antes, geravam prazer;

- Mudança em hábitos alimentares;

- Mudança em horas de sono (insônia ou horas excessivas dormindo);

- Dificuldade de concentração; tarefas parecem mais difíceis do que antes;

- Incapacidade de controlar pensamentos negativos;

- Alto grau de irritabilidade, agressividade, menos tolerância;

- Consumo mais elevado de álcool ou de outras drogas;

- Comportamento irresponsável usado como válvula de escape;

- Surgimento de dores físicas muitas vezes inexplicáveis.

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