Comportamento

A guerrilheira que virou atleta de elite

Pegaso Media
Rai vencendo a primeira corrida, nas Dolomitas italianas, em tempo recorde imagem: Pegaso Media

Chris Haslam De Katmandu, no Nepal, para a BBC

Dez anos atrás, a nepalesa Mira Rai era uma guerrilheira adolescente procurada pela polícia. Hoje, aos 26 anos, ela é a mais bem-sucedida corredora do Nepal.

A reportagem da BBC se encontrou com a atleta de elite em um bar de Katmandu, e duas coisas chamaram a atenção: os olhos brilhantes e o fato de a nova heroína do empobrecido país ser uma mulher.

As mulheres do Nepal sofrem com a desigualdade de gênero e a disseminada violência contra elas. O Fórum Econômico Mundial coloca o país no 121º lugar entre 136 nações no Índice Global de Desigualdade de Gênero, e as mulheres lá são consideradas "paraya dhan" (a propriedade de alguém, em tradução livre).

Para completar, a nova Constituição do país nega a mulheres solteiras o direito de garantir aos filhos a cidadania no país. E tudo isso torna ainda mais extraordinário o fato de a nova heroína do esporte nepalês ser uma mulher.

Sem escola

Na aldeia de Sanu Duma 9, no leste do Nepal, as meninas nunca tiveram muitas oportunidades. Enquanto os irmãos iam para a escola, Rai deveria ficar em casa e fazer tarefas domésticas para, no futuro, se casar e ter filhos.

Martina Valmassoi
Mira Rai tem se destacado em duras provas montanhosas imagem: Martina Valmassoi

No entanto, Rai tinha outros planos. "Eu corria para o mercado --a três horas de distância--, comprava sacos de arroz e então corria de volta para vender (o arroz) e tirar algum lucro", contou. Os sacos de arroz pesavam 28 quilos e Rai tinha apenas 11 anos na época.

Mais tarde, aos 14 anos, a jovem se rebelou e se juntou às guerrilhas comunistas maoistas do país. "Disse para minha mãe que estava indo acampar. Não entrei em contato com ela de novo por sete meses", disse.

Nessa época, Rai ficou sabendo que a mãe tentou o suicídio durante sua ausência. "Ela não aguentava fazer as tarefas domésticas", brincou Rai.

Quando Rai se juntou aos guerrilheiros, em 2003, os maoistas estavam em fuga. O Exército do Nepal, com o apoio de Estados Unidos, Índia e Grã-Bretanha, os perseguia. Execuções sumárias, tortura e desaparecimentos eram frequentes, e ela descreve aquela época como de "incerteza constante".

Apesar da vida difícil, ela se impressionou com a infraestrutura de esporte dos guerrilheiros. "Eles tinham futebol, voleibol e atletismo. Oportunidades incríveis", disse.

Estômago vazio

Quando o conflito no país acabou, em 2006, ela entrou para um programa de reabilitação do governo e continuou correndo, mas só por diversão. A primeira corrida foi em um evento de 21 km. Sem dinheiro para se alimentar, ela correu de estômago vazio e desmaiou a 400 m da linha de chegada.

Ao se mudar para Katmandu, o apoio de um professor de karatê permitiu que ela continuasse correndo. Recebendo orientações por telefone, Raj treinava em uma das áreas asfaltadas mais poluídas de toda a Ásia.

Foi nesta época que ela descobriu ultra-running --corridas de 80 km ou mais em terrenos montanhosos. Sua primeira corrida --um evento de 50 km no Vale de Katmandu-- foi em março de 2014.

Como de costume, Rai compareceu com fome e usando tênis que custavam o equivalente a R$ 15.

Na metade da corrida, quando estava quase desmaiando, ela parou para comprar macarrão e suco de laranja. E acabou vencendo a corrida. O organizador do evento, Richard Bull, soube na hora que tinha encontrado um prodígio. "Perguntei a ela o que precisava para continuar treinando. Ela só queria dinheiro para comprar comida", disse.

Com o apoio de Bull, Raj participou e venceu uma corrida de 200 km pelas montanhas do país. Em seguida, ele fez um plano para que ela participasse de corridas na Europa. "Foi uma época difícil. O visto dela chegou apenas seis horas antes do voo. Então percebemos que ela nunca tinha estado em um avião", afirmou.

Mesmo com os empecilhos, Rai venceu duas corridas. Em seguida, conseguiu outras oito vitórias. Em 2015 ela participou de uma corrida de 82 km, a Mont Blanc Skyrunner World Series, uma das corridas mais difíceis do mundo. E venceu com facilidade, chegando 21 minutos antes da segunda colocada.

Agora, Rai conseguiu patrocínio e tem o potencial para se transformar em um dos nomes mais famosos do Nepal. Ao ouvir isto, a atleta ri com um pouco de incredulidade. "Comecei a correr para fugir do futuro", disse.

 

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