Comportamento

Desigualdade: mulheres brasileiras trabalham 'de graça' desde 19 de outubro

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A diferença média entre os salários de homens e mulheres no Brasil é de 20,32% imagem: Thinkstock

Luiza Bandeira Da BBC Brasil em Londres

Se alguém te pedisse para trabalhar de graça até o final do ano, você aceitaria? Provavelmente não.

Mas é o que de certa forma ocorre com as mulheres, na visão de um grupo de ativistas por igualdade de salários, que, levando em conta a diferença salarial entre homens e mulheres na Grã-Bretanha (14,2%), calculou que as britânicas "pararam de receber", neste ano, em 9 de novembro.

Em um mundo com salários iguais para o mesmo trabalho, homens e mulheres trabalhariam 365 dias por ano recebendo o mesmo. No Brasil, devido à desigualdade de salários entre homens e mulheres, elas já estão trabalhando "de graça" desde 19 de outubro.

O cálculo foi feito com base em estatísticas do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) pela especialista em economia de gênero Regina Madalozzo, do Insper --instituição de ensino e pesquisa sem fins lucrativos de São Paulo--, a pedido da BBC Brasil.

Segundo o IBGE, a diferença média entre os salários de homens e mulheres no país, para quem trabalha 40 horas por semana, é de 20,32%.

Como trabalham os mesmos 365 dias, é como se esse finalzinho do ano fosse de graça. Elas só recebem pelo trabalho de 291 dias –completados em 18 de outubro. A partir daí, passaram a trabalhar sem receber por isso.

A metodologia é a mesma usada no Reino Unido para marcar o "Equal Pay Day", um dia de luta pela igualdade de salários entre homens e mulheres. No país, que tem uma diferença salarial menor que a do Brasil (14,2%), a última segunda-feira foi o dia em que elas "pararam de receber".

Brasil

No caso do Brasil, foram usados os dados ajustados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 2013, último dado disponível.

Segundo a pesquisa, o salário médio dos homens é de R$ 1.886,50 e o das mulheres, R$ 1.503,17. Esses valores foram calculados com dados de pessoas entre 16 e 65 anos , que trabalham no mínimo 40 horas por semana.

A conta usa a média salarial de pessoas em diferentes profissões. Mulheres costumam seguir carreiras com salários menores, como enfermagem, e homens têm profissões mais bem remuneradas, como engenharia.

Segundo Regina, esse cálculo base é usado internacionalmente porque leva em conta que a discriminação pode ocorrer na hora da escolha da carreira.

"Sim, mulheres escolhem profissões que pagam menos. Mas essas profissionais merecem um salário menor ou paga-se menos nelas porque há muitas mulheres? E por que as mulheres optam menos do que os homens por engenharia, por exemplo? Por que elas se acham piores em matemática?", questiona.

"Quando você considera apenas pessoas que estão na mesma profissão, é como se você admitisse que não há um problema, que não existe preconceito em relação à escolha profissional", diz ela. "A média considera que podem haver outros preconceitos que influenciam na escolha profissional", fala a especialista.

Escolaridade

Quando o cálculo é feito considerando a escolaridade, os dias trabalhados "de graça" por elas aumentam ainda mais para alguns grupos. Isso ocorre porque, no Brasil, quanto mais escolarizada é uma mulher, menos ela recebe em comparação aos homens com o mesmo nível de estudo.

As mulheres que têm nível superior completo, por exemplo, estão trabalhando sem receber nada, teoricamente, desde o dia 13 de agosto.

Já aquelas sem nenhum tipo de instrução começaram a trabalhar de graça em 7 de novembro.

Mas isso não significa que não vale a pena estudar –as mulheres com nível de educação maior têm um salário bem mais alto do que as que não estudaram.

E por que as mulheres ainda recebem menos do que os homens?

"É o famoso e conhecido preconceito", diz a professora Maria José Tonelli, da Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas. "O Brasil tem muita fama de igualdade, mas a gente tem uma série de preconceitos velados", diz.

"Um liberal te diria que é porque elas trabalham menos", diz Hildete Pereira de Melo, professora da UFF (Universidade Federal Fluminense), especialista em trabalho e desigualdade de gênero. "Mas elas também fazem o trabalho doméstico. Trabalham mais, mas isso não é valorizado."

Segundo ela, a jornada média das mulheres brasileiras é de 30 horas, e, se não forem consideradas apenas jornadas de 40 horas, como faz o levantamento usado pela reportagem, a diferença salarial entre homens e mulheres está na faixa dos 30% –o que faria com que elas trabalhassem ainda mais dias "de graça".

Mas a professora acrescenta que, mesmo dentro das mesmas jornadas, há diferença. "É uma sociedade patriarcal, em que homens ainda veem mulheres como de segunda categoria."
Para Regina, além da diferença na escolha das profissões, uma das explicações está no fato de as mulheres negociarem menos, aceitarem salários mais baixos e pedirem menos aumentos.

"O homem pensa assim: se a empresa me contratou, tem de pagar o que eu valho. Já para a mulher é como se fosse um favor que a empresa faz. Li outro dia alguém dizendo que a gente pediu licença para entrar no mercado de trabalho e é como se continuasse pedindo. Pensamos: 'que bom, a empresa me aceitou'."

Mudanças

Para a especialista, uma mudança importante passaria pela concessão de licença-paternidade para homens.

Ela declara que, se eles pudessem ficar em casa mais tempo com o bebê, a sociedade poderia ver homens e mulheres de forma mais igual, compartilhando as mesmas responsabilidades com a família e com o trabalho doméstico, o que poderia ter impacto no mercado de trabalho.

Para Hildete, há necessidade de incentivar garotas do ensino médio a gostarem da área de exatas e dar a elas a oportunidade de seguirem carreiras como engenharia e informática.
As especialistas, porém, concordam que o momento é positivo para mudanças.

"Houve um grande debate ligado à questão do assédio (#PrimeiroAssédio) e depois os homens cedendo espaço para mulheres se manifestarem (#AgoraÉqueSãoElas). É bom, as mulheres têm de se mobilizar", diz Maria José.

"Tem uma coisa vibrante que não é só na classe média, reverbera também entre meninas pobres, negras. Ninguém vai dar nada de graça. Os homens que comandam empresas não vão dizer que as oportunidades são iguais se as mulheres não disserem 'eu também quero'", afirma Hildete.

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