Comportamento

Como "saiaços" se tornaram arma para debater igualdade de gênero nas escolas

Arquivo Pessoal
Professor Vitor Pelegrini usa saia durante desfile cívico de estudantes em Campinas imagem: Arquivo Pessoal

No ano passado, o professor Vitor Pelegrin, 30, participou de um desfile de 7 de Setembro usando um adereço que o distinguia dos demais homens presentes: uma saia. Segundo ele, a escolha do vestuário provocou recentemente seu afastamento da Escola Municipal Caic Zeferino Vaz, em Campinas, a 93 km de São Paulo.

A prefeitura da cidade, por outro lado, afirma que o afastamento de Pelegrin, há duas semanas, ocorreu porque ele queria discutir sua atuação no desfile, em vez de planejar o ano letivo com os outros professores.

Na ocasião, Pelegrin e outra professora entraram no desfile dos estudantes com uma faixa de protesto para pedir igualdade de gênero: "Já raiou a liberdade", dizia uma das frases estampadas. A Secretaria Municipal da Educação informou que a ação começou a ser investigada após pais e professores reclamarem do ato não programado.

É um entre diversos casos de "saiaços" que têm fomentado o debate sobre vestuário, liberdade de manifestação e igualdade de gênero em escolas. O afastamento de Pelegrin, em 18 de março, desencadeou uma série de manifestações, e os alunos passaram a discutir o assunto nas redes sociais e a expressar suas opiniões.

Houve desde quem criticasse o professor --alegando desrespeito às regras da escola ou exibicionismo-- até quem aderisse ao protesto, fotografando-se de saia em sinal de apoio, com a hashtag #SaiaSemPreconceito.

“Ele (professor) estava protestando contra a homofobia usando uma saia e levando cartazes. Em nenhum momento, eu e meus companheiros nos sentimos humilhados ou envergonhados, pelo contrário, ficamos muito felizes e orgulhosos”, disse um estudante em relato no Facebook.

Pelegrin afirmou que a intenção era fazer um protesto contra o sexismo. "A investigação do desfile recaiu só sobre mim. A nossa única intenção era fazer um desfile com valores próprios, performances de hip hop e baião. As meninas também tiveram espaço para reivindicar, por exemplo, o direito de jogar futebol e uma igualdade de gênero em geral nas escolas", afirmou o professor à BBC Brasil.

Alguns alunos de Pelegrin escreveram cartas de repúdio ao afastamento e uma petição em defesa do professor juntou mais de 4.000 assinaturas.

Espaço adequado

A secretária municipal de educação, Solange Pelicer, disse à BBC Brasil que o afastamento do professor não tem motivação política.

Ela afirmou que Pelegrin estava prejudicando a pauta e o planejamento escolar deste ano. “Ele queria discutir o processo disciplinar dele e não aceitou que isso fosse feito no espaço adequado”, disse.

"Ele e a outra professora entraram pela lateral do desfile, com faixas de protesto, e deram sinal para os alunos vestirem uma camiseta de manifestação. Tudo sem autorização ou aviso prévio”, falou Pelicer.

"Saiaços" semelhantes já ocorreram em outras escolas brasileiras e de outros países. Em 2013, o Colégio Bandeirantes, um dos mais tradicionais de São Paulo, foi alvo de um protesto feito por cerca de 50 alunos após dois estudantes serem repreendidos por usar saia.

Um deles tinha usado a roupa em uma festa junina interna e o outro vestia saia em um dia comum de aula, mas foi barrado e teve de voltar para casa.

Padrão de roupas

Para Rosana Schwartz, socióloga e historiadora da Universidade Mackenzie, em São Paulo, os "saiaços" são uma forma de jovens desafiarem tanto os “padrões conservadores de roupa” quanto a própria indústria da moda.

Enquanto vai na esteira dos debates sobre igualdade de gênero nas redes sociais, a polêmica também joga holofotes sobre barreiras sociais masculinas, segundo Schwartz.

“A mulher hoje tem mais liberdade para usar roupas consideradas masculinas. É normal uma mulher de camisa ou um terninho, e isso até dá um status de poder. Já o homem, quando usa uma saia, ainda é visto como sem masculinidade e desqualificado”, diz.

A consultora de moda Paula Martins lembra também que existe um crescente movimento de “não gênero” entre jovens.

“Eles estão se sentindo livres para se expressar não como uma figura feminina ou masculina, mas como uma pessoa. A moda assimilou isso como uma demanda a ser explorada”, afirmou. “E não é porque uma menina se veste como os homens que ela é necessariamente homossexual. Ela pode querer apenas demonstrar que é livre.”

Martins ressalta, porém, que parte dos colégios ainda exige um código de vestimenta tradicional para criar um padrão entre os estudantes, facilitar o controle e a organização da escola.

"Muitas escolas também pretendem dessa forma reduzir as desigualdades no ambiente escolar. Se não há uniforme, os estudantes podem ir com um tênis muito caro, por exemplo, e isso causar um desconforto para o professor”, diz a consultora de moda.

Mas existe dificuldade inerente, opina a consultora: “É natural que o estudante tente quebrar esses padrões e cause polêmica.”

“É muito difícil quebrar um paradigma tão antigo, mas há um caminho traçado. Esse movimento vai ficar mais forte quando o número de pais que exige liberdade de roupas para seus filhos crescer e as escolas se adaptarem para não perder alunos. Acho que em 20 anos não vamos mais discutir isso.”

Outros casos

Em fevereiro deste ano, estudantes de um colégio da Califórnia, nos Estados Unidos, fizeram “saiaços” e protestos após jovens terem sido proibidos de usar saia, cabelo longo e brinco. Desde então, os alunos fazem protestos pela alteração do manual de conduta interno.

Em maio de 2013, universitários da USP fizeram um protesto contra comentários ofensivos recebidos por um estudante que foi à faculdade de saia. No chamado "saiaço", as mulheres foram vestidas de terno e os homens, de saia, em quatro campi da universidade em todo o Estado.

No Reino Unido, um episódio semelhante ocorreu em 2011, quando o garoto Chris Whitehead, 12, do Village College, perto de Cambridge (sudoeste da Inglaterra), decidiu ir à escola de saia para protestar contra uma regra da direção do colégio que exigia meninos usassem apenas calça comprida.

O menino afirmou na época que o uniforme sugerido não combinava com o calor da região. Alguns amigos dele também aderiram ao protesto, e o colégio prometeu reavaliar a restrição.

O colégio enviou uma carta de recomendação aos pais para dizer que permite o uso de saias, desde que os responsáveis "se responsabilizem pela segurança do estudante".

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