Equilíbrio

De jornalista a atendente: como venci a crise e me descobri preconceituosa

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Jornalista de formação, Beatriz Franco publicou post no Facebook sobre como enfrentou próprio preconceito ao aceitar emprego como garçonete de uma loja de doces; post viralizou imagem: Reprodução/Facebook

Luis Barrucho Da BBC Brasil em Londres

É a própria Beatriz quem atende o telefonema da BBC Brasil na loja de doces onde trabalha em Santos, litoral de São Paulo.

Jornalista de formação e fluente em duas línguas --inglês e espanhol--, ela atuava como assessora de imprensa na capital paulista quando foi demitida por causa de uma reestruturação na empresa. Decidiu voltar a morar com os pais em Santos e não pensou duas vezes quando viu uma vaga de atendente na doceria da amiga Verônica: de touca e avental, passou a servir clientes.

"Os frilas estavam cada vez mais escassos e estava sem trabalho há quatro meses. Como sabia que era jornalista, minha amiga me pediu para que eu redigisse a descrição de uma vaga de atendente na doceria dela. Acabei me candidatando ao posto", conta Beatriz Franco, 28, à BBC Brasil.

A transição acabou levando a jovem a embarcar em uma jornada de autorreflexão, sobretudo ao se deparar com um preconceito que imaginava não ter.

"Achava que não tinha preconceitos. Mas me descobri preconceituosa. Pensava comigo mesma: 'Como eu, jornalista, trabalharia como atendente?' O que aconteceria se algum dos meus amigos me visse naquela situação", relembra.

"Mas logo vi que não tinha mal nenhum em trabalhar como atendente. Feio é não ter dinheiro para pagar as contas", acrescenta.

Viral

Beatriz resolveu contar sua história no Facebook. O relato viralizou. Até a publicação desta reportagem, o post contava com 230 mil curtidas e 33 mil compartilhamentos.

"Nunca imaginaria tamanha repercussão. Resolvi escrever o post como um desabafo. Sempre recorri à escrita para desabafar. Foi uma autocrítica. Eu era preconceituosa e não tinha consciência disso. Deveria é ter vergonha de mim por pensar assim", afirma.

Desde que postou o relato no Facebook, ela conta ter recebido inúmeras mensagens, muitas das quais de pessoas que passaram por experiências semelhantes.

"Essa foi a minha melhor recompensa. As pessoas compartilharam comigo preocupações semelhantes para, no final das contas, darem-se conta de que tudo não passa de um preconceito estúpido", diz.

Beatriz conta que a experiência como atendente também lhe trouxe ensinamentos de gestão, especialmente de finanças.

"Pretendo fazer cursos, sem deixar de lado minha paixão, o jornalismo. Também dou aulas de inglês e não vou parar. Quem sabe lançar um blog em que possa trocar experiências com outras pessoas? Estou aberta a tudo", conclui.

Confira o relato que viralizou no Facebook.

Me descobri preconceituosa. Eu, que defendo tanto a igualdade de gêneros, de cor, de religião, que tenho amigos gays, nordestinos, evangélicos, jovens, velhos, com dinheiro e sem, até coxinhas e petralhas! Vários tipos de rótulos.

Explico: Nos últimos meses, minha área de trabalho - como muitas - está muito ruim. Em quatro meses não consegui quase nada. Então, depois de meses me enterrando num sofá perdendo tempo, vida e dinheiro, surgiu a oportunidade de ajudar uma amiga atendendo clientes em sua loja de doces. Quatro vezes por semana, período da tarde, remunerado. Uma boa forma de ocupar a cabeça, sair de casa e ter algum dinheiro. Foi aí que veio o primeiro julgamento: Eu, balconista? Jornalista, três idiomas, currículo em comunicação, trabalhando de touquinha na cabeça servindo os outros? Foi difícil tomar essa decisão, mas aceitei, estou precisando.

Dias depois, a cena durante a tarde, limpando uma das mesas, ouvi dois clientes conversando: "Coloco acento em 'tem'? Mudou com a nova ortografia?" "Não sei. Não entendo." E eu ali me remoendo pra dizer "eu sei, eu sei!!!". Mas, eu era só uma atendente e eles não iriam acreditar que eu sabia. Depois a barreira seguinte: conhecidos e colegas antigos entrarem na loja e me verem nessa função. "O que eles vão pensar? Eles não sabem como cheguei até aqui, que a dona é minha amiga, vão pensar que não dei certo na vida."

Dá pra entender como isso é errado??? Era com essa inferioridade que eu via os outros atendentes, balconistas e nunca tinha percebido! Sentia vergonha por estar em um trabalho honesto, justo, que traz alegria para as pessoas, que auxilia os outros? Eu deveria é ter vergonha de mim por pensar assim, por tanta falta de humildade e empatia.

Por um preconceito idiota eu ia perder a chance de conhecer tanta gente nova como nas últimas três semanas, de ouvir tantas histórias de vida como sempre gostei de fazer, de aprender um novo trabalho, de ajudar uma amiga, de ter dinheiro pra comprar uma nova bicicleta, pra ir no casamento de uma amiga em outra cidade, de viver! Em tão pouco tempo, esse trabalho que eu achava tão inferior já me ajudou a estar mais feliz, disposta, a ter novas ideias, entender como uma pequena empresa funciona, a buscar cursos para aprender mais.

Como dizia meu avô: A vida não é como a gente quer, é como ela se apresenta! Então, estou aqui aceitando com muito amor e gratidão o que me foi apresentado. Aceitando novas formas de crescer e evoluir com, por enquanto, um preconceito a menos. Hoje, estou aqui, jornalista, tradutora, professora de idiomas, aprendiz de gestora e sim, atendente de um ateliê de doces. E o que mais precisar, a gente aprende a fazer também! E, modéstia à parte, eu tbm fico linda de touquinha! :p

Esse textão é pra tirar de uma vez essa vergonha de mim, para agradecer pela confiança e apoio dos queridos amigos Veronica, Bruno e Felipe, pelo empurrão dos meus pais Edna e Orlando e, talvez, se não for me achar muito, ajudar alguém a fazer a mesma reflexão e dar um passo à frente se for o momento.

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