Equilíbrio

Troquei casa, carro e trabalho por abrigo de sem-teto, diz gay latino que pede asilo nos EUA

João Fellet/BBC Brasil
"Felicidade para mim é ter paz", conta imagem: João Fellet/BBC Brasil

João Fellet Da BBC Brasil em Washington

Estima-se que até 5.000 gays, lésbicas, bissexuais e transexuais busquem asilo nos Estados Unidos todos os anos --muitos desses fugindo da homofobia em países latino-americanos.

A BBC Brasil entrevistou um jovem gay da Guatemala que abriu mão de uma vida confortável em seu país para tentar uma vida em Washington, onde tem dormido em abrigos de sem-teto, enquanto aguarda a análise de seu caso por autoridades migratórias --a legislação americana ampara pedidos de asilo de pessoas perseguidas por sua sexualidade.

Para não influenciar o processo, o jovem pediu para não ter o nome nem detalhes sobre os países por onde passou publicados. Leia o depoimento.

"Estava andando na rua quando fui abordado por um grupo. Apanhei tanto que não lembro detalhes nem quantos eram. Também levaram minha carteira.

Roubos são comuns na Guatemala --e quando os bandidos notam que a pessoa é gay, podem espancá-la ou até matá-la.

Nasci em uma família muito religiosa (cristã), como a maioria no país. Tinha uns 12 anos quando descobri que era gay. Na escola, os colegas se referiam a mim com palavras depreciativas.

No intervalo das aulas, em vez de ir jogar futebol, ficava estudando. Era minha fuga. Virei o melhor aluno da turma e consegui uma bolsa para a universidade na área de ciências.

Formei-me e cresci profissionalmente, com empregos cada vez melhores. Trabalhava sete dias por semana. Comprei uma casa e um carro, tinha um bom salário.

Mas isso foi um refúgio temporário, porque todo o resto não estava indo bem. Por me sentir atraído por pessoas do mesmo sexo e ser incapaz de mudar, eu me via como uma pessoa má, terrível, nojenta. Isso criou uma guerra interna. Percebi que havia sido ensinado a me odiar.

Meu terapeuta dizia que eu tinha de buscar realização em outras áreas, talvez arranjar um companheiro e ficar em paz comigo mesmo.

Tentei me relacionar com algumas pessoas, mas não deu certo. Mesmo na fila do cinema, as pessoas na Guatemala viram o pescoço e fazem comentários maldosos quando veem dois homens juntos.

Lá há paradas gays, mas você nunca verá alguém "montado" como uma drag queen em um ônibus ou andando na rua a caminho da parada. Ela não chegaria viva. As pessoas têm de se arrumar bem perto do evento ou no próprio local.

Quando o desfile começa, é acompanhado por muitas pessoas curiosas e alguns homofóbicos, que jogam lixo e cospem em quem passa. Por isso, nunca fui.

Por sorte, sempre pude viajar bastante por causa do meu trabalho. Costumava ver aquelas semanas em que podia estar fora do país como um alívio. Viajei a vários continentes. Naquelas ocasiões, finalmente podia ser eu mesmo. A ansiedade e a depressão quase desapareciam.

Mas era só voltar à Guatemala que as minhas doenças se agravavam. Ao longo de vários anos, fui diagnosticado com transtorno bipolar, déficit de atenção, hiperatividade, transtorno de personalidade limítrofe e estresse pós-traumático. Cheguei a tomar 12 pílulas por dia, mas estava tomando os remédios errados. Em alguns momentos, pensei em me matar.

Na Guatemala, o único hospital público de saúde mental é um lugar perigoso. Um documentário da BBC o classificou há alguns anos como o hospital mais perigoso do mundo, porque pacientes são drogados e estuprados por funcionários ou gangues com quem eles têm acordos.

Há relatos de pacientes que cometem suicídio. Um deles, que estava tentando fugir, preferiu se enforcar.

Resolvi ir embora do país. Deixei para trás a casa e o carro que estavam em meu nome e saí com o que se pode levar em um avião: duas malas e uma mochila.

No novo país, aluguei um apartamento e comecei a comprar itens de cozinha. Como não pude ficar lá, tive de abandoná-los. Mesmo assim, levei o açúcar que restava na cozinha. Não gosto de jogar comida fora e pensei: "Pelo menos não precisarei comprar açúcar no próximo lugar".

Tentei morar em outros seis países. Passava dois meses em um, outros dois em outro e assim por diante. Morei em países onde as pessoas não falavam inglês nem espanhol, na esperança de que poderia recomeçar minha vida ali.

Quando meu visto estava perto de expirar, não conseguia renová-lo. Decidi que não queria ficar mais me mudando e resolvi vir para os Estados Unidos. Vim só com uma pequena mala e 400 dólares na carteira.

Tenho dormido em diferentes abrigos de sem-teto. Neles, a maioria das pessoas são afro-americanas. Algumas moram lá há anos e parecem acostumadas. Pela manhã, vestem terno e gravata e saem para trabalhar. Outros têm empregos mais humildes.

Às vezes, você vê nos banheiros pessoas usando drogas. Não é um ambiente saudável nem seguro.

Em alguns momentos sou discriminado por ser gay, mas a essa altura da vida não fico mais calado. Em muitas ocasiões, mostrei o regulamento do abrigo e disse que, se continuassem a dizer aquelas coisas, seriam expulsos.

Só aqui encontrei um médico que me deu um diagnóstico correto para meus problemas mentais e um tratamento que funcionasse. Uma fundação paga meu tratamento.

Hoje tomo cinco medicações. Ainda estou me recuperando e não tenho condições de trabalhar --meu corpo fica dolorido por causa dos remédios.

Mas consegui fazer amigos, vou a uma academia gratuita, nado em piscinas públicas, frequento parques. Minha saúde melhorou e comecei a sentir esperança pela primeira vez.

Entre homens gays brancos, não me lembro de sofrer qualquer discriminação. Pelo contrário, interessam-se quando digo que sou da Guatemala. Em seguida perguntam se a Guatemala fica no México, no Caribe ou na África. Outro dia ouvi que ela era uma ilha perto do Havaí (risos).

Já quando estou entre latinos que não são gays, sou discriminado o tempo todo --especialmente por pessoas do meu próprio país.

Eles me veem usando brincos e um bracelete com as cores do arco-íris e me olham diferente. Sabem que se fizerem algo contra mim terão problemas, mas dizem coisas depreciativas.

Eu respondo: "Se não gosta de ver homens dando as mãos, deveria voltar a seu país retrógrado".

Já se passaram quatro ou cinco meses desde que cheguei. Aprendi a viver com o básico e percebi que não preciso de muito para ser feliz. Hoje, felicidade para mim é ter paz."

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