Equilíbrio

De onde vem a timidez --e ela pode trazer vantagens?

David Robson Da BBC Future

Se um dia você for tomado por uma sensação de insegurança, lembre-se desse episódio ocorrido com a escritora britânica Agatha Christie, a famosa autora de livros de suspense.

Em 1958, convidada para uma festa em um luxuoso hotel de Londres para comemorar o sucesso de sua peça "A Ratoeira", Christie foi barrada por um porteiro que não a reconheceu. Em vez de mandar o clássico: "Você sabe quem eu sou?", ela humildemente se virou e foi se sentar sozinha no lobby. Apesar de ser a escritora que mais vendia livros na época, ela ainda se sentia paralisada por "uma timidez cruel, horrível e inevitável".

Como alguém tão bem-sucedido pode se sentir tão inseguro? Essa é a contradição abordada no livro "Shrinking Violets" (expressão usada para denotar pessoas extremamente tímidas), que acaba de ser lançado na Grã-Bretanha. Nele, o historiador Joe Moran explora a timidez na política, na literatura e na psicologia.

Moran conta que é tímido desde que se conhece por gente. E seus sentimentos podem ter influenciado sua carreira antes mesmo de ele dedicar suas pesquisas acadêmicas ao assunto.

Seus livros anteriores exploraram as minúcias do cotidiano, como a história de objetos e rotinas do dia a dia e os hábitos televisivos dos britânicos. "A timidez pode transformar alguém em um antropólogo amador, de tanto que a pessoa se coloca na posição de observadora", afirma.

Em "Shrinking Violets", ele volta sua atenção para os pensamentos e sentimentos sobre os quais muitas pessoas têm vergonha de conversar. A natureza estranha e contraditória da timidez foi o que chamou sua atenção para a riqueza do assunto.

Campos minados

Muitos de nós acreditamos que a timidez é algo que permeia todo tipo de situação. Mas, para Moran, ela "avança e recua" dependendo do contexto.

O próprio historiador se diz mais à vontade dando uma aula para centenas de alunos do que respondendo a perguntas de um punhado deles, por exemplo. Ou fica inseguro quando se vê diante de várias rodinhas em uma festa. Pequenos espaços comuns, como elevadores e salas de espera, também são campos minados para o tímido.

Moran relembra o caso do duque de Portland, um aristocrata do século 19 que era tão tímido e reservado que mandou construir um labirinto de túneis sob sua mansão para não ter de ficar cara a cara com seus empregados.

Mas nem todos os tímidos são introvertidos. Susan Cain, autora do livro "O Poder dos Quietos", acredita que as duas personalidades são, na realidade, bastante diferentes: enquanto os introvertidos precisam de um tempo sozinhos e não ligam para o que os outros pensam deles, os tímidos podem se sentir carentes de companhia e ficam ansiosos quanto à opinião dos outros.

O livro de Moran explora o amplo espectro da timidez. Ele cita exemplos como o biólogo Charles Darwin, que se dizia alguém "sem a menor sofisticação social" e "um orador terrível"; a atriz Keira Knightley, que afirma não conseguir começar uma conversa em uma festa; o autor e neurologista Oliver Sacks, o ex-presidente francês Charles de Gaulle e o cantor Morrissey, dos Smiths.

Algumas dessas personalidades acabam tirando partido de um recurso chamado "Maskenfreiheit" --termo em alemão que expressa a liberdade sentida ao se usar uma máscara ou representar um personagem.

Essa sensação de "irrealidade" ajuda o próprio Moran quando ele tem de falar em público, por exemplo. Mas a timidez e a ansiedade voltam assim que a pessoa percebe que sua verdadeira personalidade está exposta.

Estratégia de sobrevivência

Está claro que a timidez não é um empecilho para o sucesso. Mas será que ela traz algum benefício palpável? Alguns biólogos evolucionistas argumentam que se trata de um sentimento que vem de comportamentos pré-históricos que ajudavam na sobrevivência.

Já estudos recentes sobre a personalidade de animais avaliaram o grau de timidez e extroversão de indivíduos de várias espécies, observando que frequentemente a timidez e a ansiedade têm suas compensações.

Enquanto animais mais corajosos podem ter mais parceiros para acasalar e mais comida, os tímidos, relegados a segundo plano, conseguem evitar serem atacados --nos dois casos, trata-se de estratégias evolucionárias bem-sucedidas.

Para Moran, no entanto, a timidez não é apenas um traço primitivo. "Temos a capacidade de virarmos a atenção para nós mesmos enquanto estamos cientes de que deve haver outras pessoas que pensam em nós", diz.

Por vivermos em grandes grupos, começamos a dar importância ao que os outros acham de nós --mesmo se isso traz sensações desconfortáveis, como a vergonha e o nervosismo.

"Criamos esses estranhos ciclos viciosos em que nos achamos tímidos e sentimos vergonha disso", afirma o autor.

As falhas na linguagem

Moran acredita que a timidez humana pode ser agravada por problemas de linguagem. "Quando falamos, estamos emitindo algo muito próximo de nossos sentimentos. Os tímidos estão mais cientes disso", explica.

A consequência disso pode ser o chamado "efeito da escada" --a tendência a rememorar o que foi dito e o que deveria ter sido dito.

Trata-se de uma condição altamente frustrante, mas que pode ter seu lado bom. "Muitas das obras de arte e literatura que menciono em meu livro vieram dessa sensação de que a palavra ou o contato pessoal são imperfeitos ou fracassam", afirma Moran. "Os artistas acabam conseguindo se expressar por meio de suas obras."

O autor explora ainda a diferença com que a timidez é expressa e avaliada em várias culturas. Enquanto em países como a Finlândia, por exemplo, a timidez tem uma conotação mais positiva por evocar a ideia de modéstia, em outros, como os Estados Unidos, a timidez pode agora ser diagnosticada como um distúrbio psiquiátrico. A decisão foi condenada por muitos psicólogos, que acreditam se tratar de uma tentativa de "tratar" ou "corrigir" qualquer aspecto que saia da norma.

Moran se diz dividido em relação ao assunto. "A timidez pode ser debilitante, pode ser uma dor e um fardo. Certamente, há casos extremos em que a pessoa não consegue viver normalmente, sofrendo de uma ansiedade social extrema. Mas acho que temos uma tendência a dar remédios e tratamentos para coisas que podem ser apenas parte da experiência humana", diz.

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