Comportamento

'Sou culpado e faço parte do problema', diz argentino em texto que viralizou após estupro que chocou país

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O texto do jornalista Hernán Casciari teve mais de 12 mil compartilhamentos no Facebook imagem: Reprodução

Daniel Pardo Da BBC em espanhol

Na esteira do caso de estupro da jovem de 16 anos que chocou a Argentina, o texto de um jornalista assumindo sua "responsabilidade" pelo machismo no país viralizou nas redes sociais.

Hernán Casciari usou a hashtag #MeHagoCargo (algo como "eu me responsabilizo" em português) para se declarar "culpado" pela cultura sexista que permeia os casos de violência de gênero, como o que matou Lucía Pérez e gerou comoção na América Latina.

"Sou um homem heterossexual de 45 anos. É muito difícil não dizer que 'pareço menina' cada vez que choro ou que 'pareço veado'. São muitos anos sendo um idiota achando que estava sendo engraçado, mas agora eu me esforço muito, porque entendi", afirmou o jornalista e escritor, no texto que já foi compartilhado mais de 12 mil vezes.

"Não vou colocar a rosa no meu avatar. Minha única hashtag sincera é #EuMeResponsabilizo. Só vim aqui dizer que sou culpado e que eu era parte do problema."

Caso chocante

O texto de Casciari foi publicado no dia em que centenas de milhares de pessoas foram às ruas em um protesto convocado pelo movimento "Ni Una A Menos" contra a violência de gênero. As manifestações ocorreram em vários países, inclusive no Brasil.

"Essa luta é, sem dúvida, a mais revolucionária que já aconteceu nesse país por décadas. Um dia, vamos olhar para trás e achar incrível que tenhamos demorado tanto para reagir."

A indignação tem crescido na Argentina pela sucessão de ataques que diversas mulheres sofreram no país, entre eles o caso de Lucía Pérez, que morreu após ter sido drogada, torturada e estuprada. Três suspeitos estão presos pelo crime.

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"Sou culpado e faço parte do problema", disse o argentino Hernán Casciari imagem: Reprodução

O texto de Casciari aborda o aspecto do papel dos homens, em geral, no machismo --não só como autores dos abusos, mas também como perpetuadores de práticas machistas.

"Entre os 30 e 40 anos, escrevi mais de 500 crônicas na internet. Há pelo menos 20 delas que têm alguma frase machista ou alguma ideia retrógrada que hoje me envergonho de ler", escreveu Casciari.

"Aos 43, eu me perguntei pela primeira vez o que deveria fazer com esses textos. Apagá-los ou modificá-los ou deixá-los como estavam? Escolhi mantê-los. Para reconhecer a pessoa que fui e ser menos imbecil daqui em diante."

"Sou culpado"

Entre os quase 500 comentários no texto de Casciari, chama a atenção a quantidade de mulheres que diz ter deixado de segui-lo nos últimos tempos justamente por causa de suas colocações machistas.

Um dos comentários com mais de mil curtidas é de uma mulher que diz: "Deixei de ler seus textos quando cansei de ver tantas mensagens subliminares ou mesmo diretas contra as mulheres".

"Sinceramente, pensei que suas crônicas só estavam sendo escritas para homens", afirmou a leitora.

Em seu texto de "mea culpa", Casciari cita exemplos de sua infância para mostrar como teve uma criação machista.

"Durante a infância, minha mãe mandava minha irmã fazer compras no mercado e nunca me mandava fazer o mesmo. Comecei a ir ao mercado só aos 13 anos, por vontade própria."

"Uma vez, meu pai teve de cozinhar porque minha mãe não estava. Minha avó fez um escândalo com a nora: 'Como é possível? Ele é o homem da casa!'"

"Leviandade"

Agora, porém, ele afirma se policiar para evitar perpetuar o machismo que aprendeu desde a infância.

"Nós homens não podemos mais ficar na leviandade de dizer que uma cantada não é violência nem na indiferença de achar que só elas devem protestar contra essa violência", afirmou.

No texto, ele finaliza dizendo que a atitude e a reação de protesto de tantas mulheres diante do caso bárbaro de Lucía ficarão marcadas na história.

"Nossos netos, queridas, ficarão muito orgulhosos de vocês."

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