Comportamento

Como encarar o silêncio dos homens

GISELA RAO
Colaboração para o UOL

“Às vezes você me pergunta por que é que eu sou tão calado? Não falo de amor quase nada nem fico sorrindo ao teu lado”. Esta estrofe pode parecer linda na música Gita, de Raul Seixas, mas na realidade não é bem assim. Muitas mulheres sofrem quando seus homens dão uma de Capitão Caverna e “entram na toca” – seja para resolver um problema, seja para refletir ou até curar uma simples gripe. Elas não sabem o que fazer e ainda podem comprometer a relação forçando a barra, como é o caso da dentista N.R., 33 anos. “Eu detesto quando meu noivo entra nessa fase e quase o obrigo a falar o que está havendo. Faço isto porque fico super ansiosa achando que na hora em que ele sair do silêncio vai me contar alguma bomba, principalmente sobre a relação. A espera é horrível”, desabafa. Antes continuar lendo esta reportagem, faça o teste abaixo para medir a sua tolerância com o assunto:

 

 

Segundo a psicóloga Silvia Pedrosa, se levarmos em conta as diferenças biológicas e culturais, podemos pensar que para as mulheres a comunicação é muito importante no relacionamento, é a maneira que elas têm de entender o mundo, de organizar os sentimentos. “Para elas, o silêncio tem um significado negativo, de que algo está errado. Supondo que o homem é mais prático, não há nele uma necessidade de buscar explicação o tempo todo por meio da linguagem, e muitas vezes este silêncio pode representar que tudo está em ordem”, analisa.

Para o mestre em psicologia André C. Costa, as pessoas ficam inquietas diante do silêncio por não saberem o que está acontecendo com o outro. E começam a “minhocar”. “Trata-se, em geral, de falta de autoconfiança que leva a agir como uma criança emocionalmente carente. Se a mulher enxerga o parceiro como o centro de seu universo, ela vai ter medo de o relacionamento acabar. Não consegue tolerar a falta de controle ante a expectativa (fantasiada ou não) de rejeição e abandono”, diz Costa.

E como eles se sentem diante da nossa pressão?

Lemmy de Souza, 36 anos, fotógrafo, considera-se um praticante do “cavernismo” e acha isso muito saudável. “Eu gosto de estar com a minha namorada, mas às vezes saio do circuito. Existem coisas que são difíceis para eu lidar, então acho melhor me afastar. Quando é sério, ou enfio a cabeça na areia, igual um avestruz ou vou para a batalha, e aí gosto de estar sozinho, porque explodo mesmo e não é bonito. Para minha namorada eu prefiro dar o meu melhor”, conta.

Fred Wagner, publicitário, colunista e conselheiro sentimental concorda: “Os homens precisam de seus momentos de reclusão longe das reclamações e daqueles papinhos do dia a dia, sem falar na famosa D.R. (discutir a relação). Nós precisamos de espaço na frente da televisão assistindo a um jogo de futebol sozinhos ou até mesmo a um programa de variedades só para ver as bailarinas dançando. Deus me livre me perturbarem nessas horas”.

Isso só acontece com as mulheres?

Para a psicanalista Regina Navarro Lins, autora do livro “A Cama na Varanda” (Editora Best Seller), a resposta é não. “O mesmo acontece com os homens em relação às mulheres. Todos ainda somos regidos pelo mito do amor romântico. Esse tipo de amor traz várias expectativas e ideais. Entre elas, está a ideia de fusão, que os amantes só têm olhos um para o outro, ou seja, quem ama tem como único interesse o (a) parceiro (a). Se você percebe que o outro está em silêncio, que tem pensamentos só dele, que não compartilha com você, isso pode ser vivido como desamor”, explica.

Sete dicas para lidar com o “homem caverna”

Para as mulheres, o conselheiro amoroso Fred Wagner revela sete conselhos para não estressar diante do silêncio masculino:

- Não escarafunche o seu parceiro. Isto pode funcionar como uma "profecia autorrealizadora", ou seja, você acaba provocando justamente aquilo que procurava evitar: ele se sente sufocado e se manda.

- Não fale de assuntos estressantes a não ser que seja indagada; nada é tão importante que não possa esperar por uma hora mais oportuna.

- Não o convide para sair porque ele não vai querer estar em nenhum lugar.

- Nunca use a metodologia barata de carência, pois só vai irritá-lo.

- Apelar para a sua sensualidade neste momento não vai ajudar, e sim danificar a sua autoestima.

- Deixe a gente em paz (sem dramas!), logo voltamos dos “ergástulos” revigorados e prontos para vocês.

- Viva a sua própria vida e não a do outro. Aproveite para sair com suas amigas, fazer compras e assistir ao novo “Sex and the City”.

Sete dicas para o “homem caverna”

- Avise quando for “entrar na caverna”. A gente avisa quando está na TPM, por que você não pode fazer o mesmo?

- Antes de se isolar não custa reafirmar: “Oi, hoje eu vou ficar na minha, mas eu te amo, ok?” (mesmo que a gente não ouça e não acredite na frase após a vírgula).

- “Cavernation” é legal, mas por mais de dois dias é demais!

- Evite praticar o “cavernation” no banheiro (se a casa só tiver um), principalmente se o estojo de maquiagem e o depilador estiverem lá. Você corre um sério risco de encontrar a réplica do “Elo Perdido” quando sair.

- Se mesmo assim você insistir em se isolar no WC, pelo menos leve uma caixa de fósforos ou um incenso. Não temos esquadrões especializados em guerra química no bairro.

- “Cavernation” no dia do casamento da nossa melhor amiga é golpe baixo, e a revanche pode ser uma hecatombe.

- Mulheres modernas também gostam de ficar sozinhas de vez em quando. Não, isso não quer dizer que vamos encontrar o “Ricardão”.

Topo