Comportamento

Mulheres que optam por não ter filhos sofrem pressão

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Metade das mulheres sem filhos aos 40 anos optaram por isso quando eram mais novas, porém muitas delas preferem não declarar publicamente, segundo estudo imagem: Getty Images

ROSANA FERREIRA
Editora-assistente de UOL Estilo Comportamento

Cobranças fazem parte da vida. Se a mulher está solteira, perguntam quando vai arrumar um namorado. Se ela acabou de casar, é questionada sobre o primeiro filho. O bebê mal nasceu e já perguntam sobre o próximo. Mas a insistência nessa cobrança pode irritar algumas mulheres, principalmente as que optaram pela não maternidade, mesmo sem problemas de saúde que as impeçam de engravidar.

A pressão é tanta que muitas optam por não admitir publicamente a opção por não ter filhos. De acordo com um estudo feito no Canadá, cerca da metade das mulheres sem filhos aos 40 anos optaram por isso quando eram mais novas, porém muitas delas preferem não declarar. Afinal, é difícil ir contra o ideal de que mulher nasceu com a dádiva de procriar. “Associou-se maternidade à feminilidade como sendo atributos da personalidade”, escreve a psicanalista carioca Regina Navarro Lins em seu livro “A Cama na Varanda” (Editora Best Seller).

A sommelier Sonia Denicol, 46 anos, de São Paulo, viveu algo parecido alguns anos atrás, quando perguntavam se ela não ia ter filhos. “Chega um momento que cansa responder, mas, com o tempo, as pessoas percebem e param de fazer de pressão“, conta. “A mulher sempre sonha em casar e ter filhos, mas nunca pensei nisso. Depois de casar, comecei a refletir mais sobre o assunto e vi que não tinha instinto maternal”, analisa ela, casada há 14 anos.

Para Sonia, quando a mulher não pode ter filhos por conta de problemas de saúde a aceitação é mais fácil. “Algumas pessoas me olham com pena, achando que vou ser infeliz, mas não entendem que isso é uma opção. Existe vida sem filhos; eu me realizo com meu casamento, com minha profissão, com meu estilo de vida”, diz ela.

Quem não pode ter filhos também pode se sentir na obrigação de tentar. Como a empresária e consultora Jackeline Bittencourt de Lima, 44 anos, que teve problemas para engravidar, o que gerou inúmeros transtornos – tanto de saúde como emocionais. Mas a cobrança era tanta, inclusive dela mesma, que tentou várias vezes engravidar por métodos artificiais. Afinal, não é nada fácil ouvir frases do tipo: “você é como uma árvore seca”. Hoje, separada e com distanciamento dos fatos, consegue enxergar que isso não é tudo na vida. “Você precisa se perguntar por que quer um filho. E a resposta não pode ser egoísta”, reflete. Autora do livro “Maternidade e Antimaternidade Lúcida – A escolha é sua” (Hama Editora), ela ministra palestras pelo Brasil com o objetivo de divulgar sua experiência relatada na publicação.

Nem sempre foi assim

A questão da maternidade é uma construção social que tomou força a partir do século 16 quando surgiu a família burguesa. Nos séculos 16 e 17, quando não havia ligação entre mãe e filho como hoje, as mães não amamentavam e recorriam às amas-de-leite. “Porém, passou a existir, principalmente na França, uma preocupação com a mortalidade infantil. Os filósofos e padres fizeram campanha exortando as mães a amamentar seus filhos”, explica Rosa Maria Macedo, professora titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Família e Comunidade do Programa de Psicologia Clínica da universidade.

Segundo ela, a partir dessa questão e com o surgimento da classe burguesa, que formalizou um tipo mais fechado de família, a nuclear (pai, mãe e filhos), os laços entre mães e filhos foram fortalecidos. Nesse momento, também houve a divisão do trabalho entre público e privado, consolidando os papéis sociais: o homem como provedor e a mulher como a “rainha do lar”. “Isso valorizou a mãe, e a religião ajudou a formar esse modelo com o ideal da Sagrada Família e da Virgem Maria. Isso realizava a mulher”, analisa.

Segundo Regina Navarro Lins, nos anos 1960, isso começou a mudar com o surgimento dos anticoncepcionais e a revolução sexual. A mulher, portanto, passou a ser dona do seu corpo e a escolher seus parceiros sexuais e se queria ou não ter filhos.

Com a globalização e a entrada maciça da mulher no mercado de trabalho, outras expectativas e ideais foram se apresentando ao universo feminino, inclusive a possibilidade de construir uma carreira profissional. “Assim, muitos casais optam por ter filhos mais tarde ou, se ambos trabalham, precisam lidar com a complicação: quem vai cuidar dos filhos?”, diz Rosa Maria Macedo. Esse é um dos motivos pelos quais muitos casais decidem não procriar, um fenômeno que ganha adeptos em países desenvolvidos, onde há até um termo específico: dinks (“double income, no kids”, ou renda dupla, sem crianças).

Coerência

Seja qual o for motivo pela decisão de ter ou não filhos, o importante, segundo da professora da PUC-SP, é agir coerentemente com suas convicções. “Não posso ter filhos só para agradar meu marido ou a família, porque isso em algum momento vai ser cobrado”, concorda Sonia, cujo marido respeita a decisão da mulher de não ter filhos. “Depois que tomei a decisão de não tentar mais engravidar, minha mãe me falou eu tenho o menor de jeito para isso”, brinca Jackeline.

 

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