Comportamento

Pais fazem loucuras pelos filhos no Natal

ANGELA SENRA
Colaboração para o UOL

O espírito de natal, de confraternização, de alegria e de amor, muitas vezes, vem junto com turbulências emocionais, sacrifícios e algumas pequenas maluquices dos pais, que nesta época acabam, em sua maioria, extrapolando a conta bancária ou dando asas à imaginação para fazer a felicidade dos filhos.

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    O desejo de ver a felicidade dos filhos é motivo para os pais gastarem mais do que podem, vestirem-se de Papai Noel no calorão brasileiro e inventarem histórias para encantar

Este comportamento pode ser uma forma de compensação pela ausência e as muitas horas que passam longe dos filhos durante o ano. “Se ficam horas trabalhando justamente para o bem-estar da família, eles se sentem na obrigação de dar algo de muito valor”, diz a psicóloga Suzy Camacho, autora do livro “Guia Prático dos Pais” (Editora Paulinas).

Também há o grande prazer de proporcionar aos pequenos tudo que eles mesmo não tiveram. “Um adulto que não foi mimado na infância pode sentir necessidade maior de agradar os filhos e acabar fazendo extravagâncias”, afirma a psicanalista infantil Anne Lise Scappaticci.

A fisioterapeuta Corina Pinelli dos Santos, de Ribeirão Preto (SP), assume que faz dívidas para agradar o filho João Paulo, de 11 anos. “Às vezes, o presente é caro e o jeito é parcelar. Foi assim quando ele se encantou com uma moto elétrica, uns seis anos atrás. Meu marido e eu resolvemos dividir em não sei quantas vezes o valor porque queríamos que ele ficasse feliz com o presente”, diz ela.

Quando ela era pequena, a mãe também se sacrificava para comprar as melhores bonecas para ela e a irmã no Natal. “Muitas vezes, deixo de comprar algo para mim e trago algo para ele. Mãe é assim”, diz ela.

Orçamento familiar

O problema, segundo os especialistas, está no excesso. Eles acreditam que não se pode dar presentes que comprometam o orçamento familiar ou abrir mão de outros programas que pais e filhos devem fazer juntos, como as férias. “É comum pessoas ‘venderem’ semanas de férias para pagar dívidas que contraíram no fim de ano. Isso é um crime contra si e contra os filhos”, acredita Camacho. “Mesmo que a família não possa fazer viagens longas, as férias são importantes para o descanso e o convívio familiar, mas como vivemos na era do consumismo, muita gente acredita que dar presentes caros é mais importante do que manter o convívio.”

A frustração de não ganhar o presente desejado é difícil de encarar, mas pior do que isso é estar ausente da vida dos filhos. “Não adianta dar um presente caro e não brincar com a criança, não assistir a um filme juntos, conversar, abraçar”, diz Camacho.

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    O valor do presente deve levar em conta as condições financeiras da família e o merecimento

Na medida

Para Camacho, o valor do presente deve levar em conta as condições financeiras da família e o merecimento, que não tem a ver necessariamente com resultados, como o boletim recheado de dez, pois nem sempre é possível, mas com o esforço pessoal. “Seu filho dá o melhor de si, é comprometido, tem responsabilidade, faz a parte dele em casa e na escola? Se faz tudo isso ele é merecedor.” Se as notas estão ruins, é importante procurar saber o que está acontecendo, mas nunca deixar de presenteá-lo. “É muito triste ser excluído, pode deixar uma marca perigosa. Ele pode não ganhar o presente bacana que queria, mas o Natal não pode passar em branco”, diz.

Papai Noel

O mito do Papai Noel deve ser mantido até quando a criança parar de acreditar. Se ela perguntar se ele existe mesmo, você deve devolver a pergunta e manter sua crença. Por volta dos 6 anos, ela descobre que é tudo fantasia, na maioria das vezes pela boca dos amiguinhos mais velhos. Mas como explicar que não há dinheiro para adquirir o que ela deseja? “A saída é dizer que os pais colaboram com o Papai Noel para comprar o presente e que neste ano o papai e a mamãe estão com pouco dinheiro. A criança pode ficar triste, mas entende ao perceber o esforço dos pais”, diz Camacho. E isso as ajuda a tolerar as limitações da vida, que não são poucas.

O desejo de que o filho Victor, hoje com 17 anos, continuasse a acreditar em Papai Noel por mais algum tempo fez a diretora executiva Vania Ciorlia, de São Paulo, inventar um truque para manter acesa a fantasia dele quando tinha 5 anos. “Como o Victor estava começando a desconfiar, enviei pelo correio uma carta do Papai Noel dizendo que ele estava muito atarefado, que precisava de um ajudante e que o escolhera. Junto foram também um saco vermelho de cetim, um gorro e um crachá que mandei confeccionar numa gráfica. Ele ficou super entusiasmado, adorou a ideia”, lembra a mãe.

Na noite de Natal toda a família entrou na brincadeira e Victor distribuiu os presentes. “Com certeza foi seu Natal mais marcante. Durante mais um ano ele acreditou no Papai Noel”, lembra Vania.

Para o paizão Paulo Dutra, o argumento de se vestir de Papai Noel surgiu quando ele achou que o bom velhinho seria capaz de convencer os filhos gêmeos de 2 anos (hoje com 9) a abandonar as chupetas e mamadeiras. Depois dessa apresentação, a menina recebeu o Papai Noel no Natal muito contente, mas o menino manteve um olhar de desconfiança.

A mudança de personalidade – de pai para Papai Noel - até eles completarem 7 anos era uma operação de guerra. “Fingindo estar passando mal por ter comido demais, eu ia ao banheiro, passava uma tonelada de creme branco no rosto, colocava barriga, barba, peruca e sobrancelhas falsas. Num ano cheguei a falar em inglês para disfarçar mais. O comportamento de minha filha foi sempre o mesmo, enquanto do meu filho havia apenas o interesse pelos presentes”, conta.

Era um trabalhão, mas compensava. “Durante o ano eu escondia muito bem a fantasia para eles não descobrissem a ‘verdade’. O evento me deixava muito feliz, apesar de meu filho só querer saber dos presentes. Acho que contribuí para a fantasia das crianças, apesar de que até hoje me perguntam se era eu. A dúvida persiste apesar da idade deles e isso é recompensador para mim”.

O Natal tem um simbolismo importante para a família e traz à tona as vivências familiares da infância. É um período turbulento que pode causar alegria, mas também muita tristeza. Por este motivo muitas vezes surge a necessidade de extravagância, na tentativa de preservar o espírito de esperança e amor. Mas o mais importante é o investimento que fazemos nas pessoas, nos vínculos e na confiança.

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