Comportamento

As dores e as delícias de viver um romance de férias

HELOÍSA NORONHA
Colaboração para o UOL

As mais do que esperadas férias de verão chegaram e, com elas, muitas expectativas de curtir bons momentos – especialmente para as descomprometidas. Não é mera impressão: a temporada de calor contribui – e muito – para a disponibilidade afetiva e sexual aumentar. “Nas férias as pessoas ficam menos estressadas, menos cansadas, mais despreocupadas e, portanto, a libido fica mais em alta, já que o estresse, a ansiedade e as preocupações são inibidoras do desejo”, explica a terapeuta sexual Maria Luiza Cruvinel, de São Paulo.

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    Nas férias, as pessoas saem da rotina e fazem coisas que não arriscaram no dia a dia

Outra explicação para o aumento do clima de paquera no ar é que o verão é uma época muito propícia para o romance e para o sexo. As pessoas usam roupas que mostram mais o corpo (e “aquele bronzeado”) e isso desperta sensações, é mais atraente. “Além disso, existem estudos que explicam que o calor favorece a liberação de feromonas, hormônios ligados à atração sexual e aos odores corporais, aos quais inconscientemente somos sensíveis”, completa Maria Luiza.

Nas férias as pessoas também saem de suas rotinas, liberam-se para fazer e sentir coisas que no dia a dia não arriscam. Livres das imposições rotineiras, elas se sentem com humor melhor, mais dispostas e liberadas para se envolver com quem não se envolveriam em outras circunstâncias, até porque nem teriam oportunidade de conhecer.  

“Já tenho um trabalho que me exige uma postura extremamente rígida o ano todo. Nas férias, permito-me ser feliz. Coloco roupas ousadas, experimento bebidas exóticas e, se estou solteira, quero mais é beijar muito na boca. Este ano vou passar férias no Rio e vou me jogar na Lapa”, diz a analista de marketing Silvânia R. P., de 25 anos.

Vale tudo

Muitas mulheres são mais certinhas ou caretas no cotidiano. Por que essas mesmas mulheres "piram" nas férias a ponto de ficarem com o bugueiro ou o líder da excursão? O sexólogo Oswaldo M. Rodrigues Jr., do Instituto Paulista de Sexualidade, de São Paulo, arrisca uma teoria: “Em São Paulo, principalmente, há décadas se ouve a frase ‘amor de praia não sobe a serra’, apontando a existência de grande número de pessoas que, de modo impulsivo, vivenciam amores de verão e, quando retornam à capital, afastam-se do que ocorreu nas férias, apenas guardando as memórias do bem-estar vivido. As pessoas em geral já olham para as férias como um momento especial para fazer o que não fazem no cotidiano. É uma espécie de autoproposta, em que a mulher, no caso, compromete-se também a tirar férias da caretice, da maneira cotidiana de viver. Ao se propor assim, ela mesma se dispensa de continuar, durante as férias, seguindo regras restritas e valores morais que se propõe normalmente”.

É por isso que vivem o romance pelo prazer, para viver o momento, sem assumir expectativas na maior parte das vezes. Portanto, entregam-se aos braços do pescador, do surfista, do turista, do chefe da excursão... “Eles podem não ser os homens ideais para um relacionamento sério, porque não preenchem as exigências para tanto, mas podem ser atraentes o suficiente para um romance prazeroso de férias”, comenta Oswaldo Rodrigues. “Isso é bom porque também temos a chance de conhecer e experimentar coisas em nós mesmos que desconhecíamos quando nos permitimos viver experiências novas”, avalia Maria Luiza.

A advogada mineira Adriana Prado, 33 anos, certa vez se encantou por um pescador de São Luís (MA). “Sabia que só teria aquela semana para aproveitar e decidi ficar com ele numa festa local. Não me arrependo nem um pouco, pois foi uma experiência ótima. Fico arrepiada só de lembrar”, revela.

Riscos

Os especialistas chamam a atenção para o fato, porém, de que algumas dessas vivências podem produzir uma falsa percepção de que o mundo seria mais bonito, mais emocionante, e que o cotidiano não vale a pena. Algumas pessoas vivem o ano todo à espera das férias para buscar reproduzir o que viveram em férias anteriores – como amores e paixões. Dessa maneira, produzem um mecanismo distorcido e destrutivo que pode parecer ser verdadeiro e dirigir a vida da pessoa. Outros riscos são aqueles que existem em quaisquer circunstâncias: evitar sair com um estranho para um lugar que não seja seguro e nunca, jamais esquecer-se de usar camisinha.

Não ter expectativas fantasiosas também ajuda, e muito, a não sofrer uma decepção. Se existem grandes diferenças de estrato social e cultural entre os dois, raramente os romances têm continuidade. “Na vida comum e cotidiana, identidades sociais e culturais são muito importantes e se impõem para a manutenção de relacionamentos afetivo-sexuais. Se o casal tem pouca coisa em comum fora do envolvimento emocional ou sexual, pouco poderá mantê-los juntos fora da interação das férias”, alerta a terapeuta Maria Luiza Cruvinel.

Agora, se houver a sorte de os gostos e os níveis social e cultural coincidirem, quem sabe há a chance de dar certo, mesmo se houver uma boa diferença de endereços entre os dois? Quando o verão acaba, a distância pode ser um empecilho para a relação, mas também pode ser uma aliada, pois evita o desgaste do relacionamento. Cada reencontro é especial, pois a incerteza é a essência do romance, da paixão. O ideal é que o estilo de vida seja o mesmo e que os encontros permitam quem ambos se conheçam de verdade, longe das fantasias das férias. “Conheci meu noivo em uma excursão de Réveillon para Buenos Aires. Acho que a quebra na rotina facilita a aproximação. Sem contar que o cenário mágico e romântico da capital argentina ajudou muito", conta a professora Cristina V. Souza, 29 anos, que se casa em 2011 com seu amor de férias.

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