Comportamento

Cuidado, pequenas manias podem virar um grande problema

Monalisa Lins/UOL
Maria Veronica Pinheiro Martins tem mania de roxo: de roupas a acessórios, passando por itens para a casa imagem: Monalisa Lins/UOL

ANGELA SENRA
Colaboração para o UOL

Mania todo mundo tem. Há quem não goste de dormir com a porta do armário aberta ou quando a louça do jantar está suja na pia. Outros não compram nada em número par, ou ímpar. E por aí vai. Se burlarem a mania, não chegam a se angustiar com isso. Mas, para algumas pessoas, não é tão simples. E nestes casos é preciso começar a se preocupar, pois hábitos engraçados e curiosos podem se transformar num problemão.

Um dos sinais, segundo a psicoterapeuta Amelia Nascimento, é o sofrimento. “Se a pessoa sente-se mal com o deboche dos outros, angustia-se quando não age diferente, ou sente que sua mania está interferindo nos seus relacionamentos, é hora de buscar ajuda de um psiquiatra. E quanto antes, melhor”, diz ela.

Foi o que fez a auxiliar administrativa Josiane Fickel, 31 anos, de Florianópolis (SC). Sua ideia fixa era arrumar a cama, mesmo que se levantasse à noite para ir à cozinha tomar um copo d’água. “Fui procurar ajuda profissional porque me fazia sofrer e incomodava muito meu ex-marido. Hoje consigo ficar dentro de casa com a cama desarrumada, o que algum tempo atrás era impossível”, diz ela.

A psicóloga Carmen Cerqueira Cesar chama a atenção para os hábitos que começam a prejudicar a vida da pessoa ou dos que convivem com ela. “Pode ser TOC – transtorno obsessivo-compulsivo – , distúrbio que interfere negativamente no cotidiano. Um exemplo: passar regularmente três horas dentro do banheiro, lavando e lavando e lavando”, explica.

A boa notícia é que existe tratamento para o TOC. “É importante fazer psicoterapia e usar medicação, mas as duas juntas. E, em muitos casos, a pessoa terá de controlar o problema por toda a vida”, diz Carmen.

Nada de mais

Para a maioria, porém, os hábitos estranhos para os outros não afetam o seu bem-estar. A psicóloga Marina Vasconcelos explica que a mania tem a ver com adequação. “Se não atrapalha sua vida nem a dos outros, não há problema”, afirma. É o caso, por exemplo, do ator DanStulbach, que numa entrevista recente ao programa “Marília Gabriela Entrevista”, no canal GNT, declarou que só dorme com camiseta de manga longa, faça frio ou calor. E que isso não o atrapalha.

A jornalista Isabel (que prefere não se identificar), não come sushi em número par. E nunca compra o primeiro livro, ou pacote de açúcar, ou qualquer coisa que esteja à mostra numa prateleira. “Se tem um só, não compro”. Problemas? Nenhum.

Para a relações públicas Rosangela Andrade, 36 anos, o desagradável é levantar-se da cama de supetão, mas se isso acontece, o mundo não acaba. “Gosto de ficar deitada por pelo menos dez minutos de barriga para cima. Se tenho de levantar às 5h, coloco o despertador para às 4h40. Caso não faça assim, fico tensa o dia todo porque o dia não começou bem como eu gostaria”, diz ela.

 

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    Rosangela Andrade tem mania de ficar deitada por pelo menos dez minutos antes de levantar

Roxo, lilás, roxo

A mania da analista de mídia Maria Veronica Pinheiro Martins, 44 anos, é colorida. Há mais de 20 anos ela não vive sem roupas e acessórios roxos ou em tons de lilás. “Se pudesse, usaria da cabeça aos pés, mas não fica bom. Tudo que vou comprar procuro em roxo, é minha cor favorita desde criança, acho alegre”, explica ela. Só que na sua infância as tonalidades violeta e lavanda não eram nada populares. “Antigamente o roxo era cor de velório e não se encontrava nada neste tom. Ainda bem que isso mudou a partir da década de 1980”, comemora Veronica.

Dentro de casa e no trabalho ela também dá um jeito de incrementar tudo com roxo, das canetas ao potinho de plástico da cozinha, passando por lençóis, escova de dente, enfeites. “Só não abuso mais por causa do meu marido, que não gosta tanto assim”, diz ela.

Veronica não vê problema algum na sua mania, mas reconhece que se fosse proibida de usar a cor, ficaria bem chateada. “Uma vez uma amiga sugeriu que eu fizesse uma experiência de ficar um dia sem roxo, mas não topei. Sem o roxo ficaria ‘desbaratinada’, não gosto nem de pensar numa coisa dessas”.

Esquisitices

Carmen explica que aquilo que para alguns é esquisitice, para outros funciona como maneiras de prevenir situações desagradáveis ou temidas. “A pessoa sente que precisa daquele ritual para fugir ou reduzir um desconforto gerado pela obsessão.”

Josiane viveu algo do gênero. Numa viagem a Paris, o ex-marido não deixou que ela arrumasse a cama do hotel no dia de voltar ao Brasil. “Resultado: ao chegar aqui passamos mais de três horas no aeroporto para conseguir tirar o carro do estacionamento. Se eu tivesse arrumado a cama, isso não teria acontecido”, acredita ela.

Pensamento maníaco

A psicóloga Marina diz que, além de comportamental, as manias podem ser mentais, como contar, repetir palavras ou frases e brigar. “Existem pessoas que têm mania de ter razão, uma compulsão pelo embate. Só o ritual da discussão aplaca a mania”, diz ela.

Para a pessoa obsessiva, segundo Carmen, tudo tem de estar rigidamente dentro de um programa pré-estabelecido, senão ela entra numa angústia intolerável. “Ela tenta ter o controle sobre tudo e considera intolerável viver a vida como ela é, cheia de imprevistos. Seus principais sentimentos são medo e ansiedade”, afirma.

Em se tratando de qualquer mania, o importante é se perguntar: “Será que faço isso de forma exagerada? E e se eu não fizer, o que vai acontecer? Vou ficar angustiado?” Se perceber que está perdendo o controle da situação, é hora de procurar ajuda. “Esta é uma maneira de olhar para si e se observar, uma boa maneira de perceber estes e outros distúrbios. Só que para fazer isso é preciso estar atento e relaxado. Uma pessoa com um nível de obsessão alto não consegue ver a realidade. Nestes casos, será necessária a ajuda de terceiros”, diz Amelia.

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