Comportamento

Na síndrome de cisne, beleza pode se tornar um tormento

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Síndrome de cisne: belos preferem ser patinho feio desconhecido a cisne glorioso e foco das atenções imagem: Getty Images

GISELA RAO
Colaboração para o UOL

No livro “Mulheres que Correm com os Lobos”, Clarissa Estés fala sobre uma síndrome muito conhecida por todos nós: a do “patinho feio”. Quem de nós, em algum momento da vida, já não sentiu na pele (ou na “pena”) a devastação emocional que é se achar ou se sentir feio? Ou, pelo menos, não tão bonito como gostaria.

Todo mundo quer ser aceito por sua aparência, por sua “plumagem”. O que muitos não sabem é que muita gente do outro lado da lagoa preferia muito mais ser um patinho que passa despercebido do que um cisne glorioso e foco dos olhares e atenções.  

“O lado ruim de ser bonita é que a maioria das pessoas que se aproxima - homem ou mulher - é por interesse. As mulheres querem ter acesso à sua vida, à forma como você vive para fazer o mesmo”, desabafa Karina Peruzzo, 31 anos, estudante de psicologia. Para ela, muitas “amigas” querem tirar vantagem nas festas e baladas e, às vezes, sentem tanta inveja que se aproximam para tentar conquistar o namorado alheio. “Assim, elas estariam provando que, mesmo não sendo mais bonita que você, consegue conquistar o que é seu”, analisa.  Quanto aos homens, Karina acredita que muitos se aproximam apenas para exibir uma namorada bonita, como um troféu. “Como se você fosse algo muito valioso e que e ele - o todo poderoso – conseguiu”, diz ela.

Assédio feminino

Mas será que são apenas as mulheres bonitas que podem sofrer com o excesso de beleza? A resposta é não. O cirurgião A.M.F., 35 anos, dificilmente tem um momento de sossego - nem mesmo quando está trabalhando. “O fato de ser bonito me faz ser assediado até no hospital. Várias vezes, ao atender uma criança, a mãe - não muito sutilmente - me convidou para jantar entregando um bilhete com o número do telefone. Pior ainda é quando as pessoas preferem ser atendidas por mim - não pelo meu talento profissional, mas sim pela beleza. Detalhe: sempre fui um homem tímido e acabo me sentindo confortável somente quando estou no centro cirúrgico, com a roupa e a máscara de cirurgião”, confessa A.M.F.

O patinho feio pensou que iriam enxotá-lo. Muito assustado, ia esconder a cabeça entre as asas quando, ao ver-se refletido na água, percebeu, nada mais nada menos, que o belo cisne não era outro senão ele próprio, tão grande e tão belo como os que vinham ao seu encontro

Projeção

Segundo Marina Vasconcellos, psicóloga formada pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), especializada em psicodrama terapêutico, o visual é muito importante dentro da sociedade, principalmente para os homens na chamada “primeira impressão”. “As pessoas projetam no outro o desejo íntimo de ser belas, afinal o belo é gostoso de olhar, faz bem e possui uma energia muito diferente do comum ou do feio. O pensamento é assim: ‘Se eu tenho alguém bonito ao meu lado, me realizo’”, completa Marina.

Para Karina Peruzzo, outra desvantagem de ser linda é que no geral olham somente para a “casca” e esquecem que dentro existe um coração, uma mente.  “As pessoas bonitas geralmente são rotuladas de metidas, fúteis e menos inteligentes. O que percebo é que na maioria das vezes isso não é verdade. Outro ponto que vale ressaltar é que os outros sempre reparam como está seu cabelo, sua pele etc. Se você emagrece um pouco, está magra demais; se você engorda 1 kg, é como se tivesse engordado 15 kg. As pessoas estão sempre te olhando e comentando sobre você”, finaliza.

Na entrevista abaixo, a terapeuta junguiana Neiva Bohnenberger aborda esse mundo dos “belos-também-sofrem”:

UOL Estilo Comportamento - Por que as pessoas não acreditam que alguém muito bonito possa ser infeliz?

Neiva Bohnenberger -Essa é uma questão que nos leva a refletir sobre o hábito de avaliar as pessoas pelo externo, julgando que elas não tenham no seu interior um ser humano a ser conquistado. É inegável para o belo o favorecimento da sociedade e sua aceitação. Muitas vezes, ignoramos que tudo tem um preço. Ser bonito pode requerer ser bom, atencioso, disponível como pagamento pela graça e, com isso, o belo estará aprisionado na vaidade, acreditando que sua beleza é seu único talento e também seu instrumento de poder.

BELEZA BEM ADMINISTRADA

  • 1

    Observe mais as pessoas que se aproximam de você para perceber o grau de interesse

  • 2

    Lembre-se de que, apesar de bonito, você também tem limites. Respeite-os

  • 3

    Não se acomode com os frutos da sua aparência. Faça coisas além dela. Trabalhe seu conteúdo

Psicóloga Marina Vasconcellos

    Como aprender a enxergar profundamente as pessoas que são muito belas?

    Acredito que só podemos ver o que nos foi revelado. Mais que isso é suposição. Conhecer profundamente uma pessoa bonita depende de quanto ela também se conhece, mostra-se, revela-se e se deixa ver. Aos nossos olhos ver a beleza, aceitar o belo pode ser mais simples do que o desafio de não se deixar seduzir pela beleza e não perceber tudo o que compõe este ser. Querer essa beleza para si pode paralisar o belo que estará ameaçado pela cobiça. Então, conhecer a si mesmo, profundamente, pode ser o caminho do encontro nas diferenças externas e na humanidade interna.

    Existe algum paralelo entre a “síndrome do patinho feio” e a “síndrome de cisne”?

    O paralelo que é possível estabelecer é que, ao nos orientarmos pelo externo, estamos sempre procurando no outro a nossa imagem. O espelho do patinho feio só lhe revela a diferença e a inadequação por mais esforço que faça para ser igual, gerando muita insegurança. O espelho do cisne lhe revela outros cisnes não exigindo muito esforço nas comparações, mas exigindo uma vigilância permanente para não perder os seus iguais e continuar tão belo quanto eles, o que pode gerar rivalidades. A identidade de quem somos poderá ser determinada por quem nos olha, como nos olha e como eu sinto este olhar. Ao crescer enfrentaremos grupos nos quais temos que reconhecer nossa diferença, nossa forma própria de ser, exigindo uma confiança que só vamos adquirindo com o passar do tempo, principalmente se não nos tiver sido garantida a certeza de ser amado. Também, ao nascermos, os olhares que nos olharam podem ter encantado a criança que fomos e podemos ficar prisioneiros dos olhos que só olham com fascínio exclusivo. Aqui um desafio se estabelece, pois é necessário quebrar o encanto, entrar em contato com a sombra, para que o belo possa ser humano.

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