Vida no trabalho

Atenção à agressividade da criança pode evitar tragédias como a de Realengo?

Divulgação/Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro
Wellington Menezes de Oliveira, 23. No dia 7/4/2011, ele matou 12 adolescentes em uma escola do Rio imagem: Divulgação/Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro

HELOÍSA NORONHA

Colaboração para o UOL

O Brasil vai demorar para se recuperar da dor e da revolta provocadas pelo massacre na Escola Municipal Tasso da Silveira, no Rio de Janeiro. A morte brutal de 12 crianças trouxe à tona vários debates. Entre eles, o bullying e a psicopatia. O atirador Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, afirmou em um vídeo ter sofrido bullying na infância, mas disse que essa não seria a maior motivação para o que fez.

Um dos irmãos adotivos de Wellington disse, em entrevistas, que o rapaz vivia trancado e solitário. O assassino mostrava apreço pelo terror, dizia querer repetir o atentado do 11 de setembro no Cristo Redentor, entre outros comentários, na época, encarados como imaturidade pelos parentes. O caso nos leva à pergunta: uma pessoa nasce má? Profissionais que estudam o comportamento humano não chegaram em um consenso, mas caminhos que apontam possíveis explicações.

Para a especialista em criminologia Ilana Casoy, de São Paulo, em primeiro lugar, é importante evitar falsos conceitos sobre o bullying. “O bullying não pode ser tratado como causador da criminalidade”, afirma. “Tímidos em geral seriam marcados a ferro como suspeitos?”, questiona ela.

A psiquiatra Ivete Gianfaldoni Gattás, coordenadora da Unidade de Psiquiatria da Infância e Adolescência da Universidade Federal de São Paulo (UPIA/UNIFESP) diz que a neurociência tem descoberto que muitos comportamentos estão ligados ao “design do cérebro”, associado às influências do meio ambiente. Ivete afirma que ainda é cedo para falar em algum tipo de correção (terapia gênica), mas garante que há formas de minimizar as chances de distúrbios nas crianças –como evitar álcool, fumo e outras drogas na gestação.

"Nos cérebros adultos com psicopatia, há pouca atividade nas estruturas ligadas às emoções morais e às primárias, como o medo", conta o neurologista Ricardo Oliveira-Souza, pesquisador do Centro de Neurociências da rede carioca Labs-D’Or e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), além de trabalhar em parceria com o psicólogo canadense Robert Hare (o maior estudioso de psicopatia do mundo) desde 2004. "Também há uma diferença no cérebro de crianças que apresentam algum transtorno de conduta comparado ao das emocionalmente equilibradas."

 

  • Genilson Araujo/Parceiro/Agência O Globo

    Pessoas se aglomeram na escola municipal Tasso da Silveira no dia da tragédia (7/4/2011)

Os experts são unânimes em destacar, no entanto, que não existe um gene da maldade. “Ninguém nasce essencialmente bom ou mau, nascemos com tendências, mais agressivos, mais tolerantes a frustrações etc.”, diz a psiquiatra Ivete Gattás. “A partir de características inatas que têm a ver com a nossa herança genética, seremos modelados pelo ambiente onde vivemos.”

Entretanto, a personalidade só é considerada totalmente formada aos 18 anos de idade. Antes disso, a maldade infantil é tida como um distúrbio de conduta. Nem todas as crianças com esse transtorno progridem à personalidade antissocial, a famosa psicopatia –por volta dos 18 anos, cerca de metade volta a ter conduta socialmente ajustada.

Mas é preciso estar atento. Quanto mais cedo diagnosticados transtornos, mais eficaz é o tratamento. Há recursos medicamentosos e psicoterápicos para isso, sempre apoiados no auxílio de pais, familiares e educadores. De acordo com Rafaella Oliveira de Almeida, psiquiatra infantil da Clínica Olimpo, de Brasília (DF), não existe uma faixa etária específica para o início de um comportamento agressivo ou maldoso.

“O importante é que os pais levem em consideração o nível de desenvolvimento da criança. Quando os problemas de comportamento começam a se tornar muito diferentes do que se espera para a idade, pode ser um distúrbio e precisa ser avaliado. Mas depende da intensidade e frequência”, completa a psicóloga Heloisa Schauff, de São Paulo, especialista em terapia de casal e família.

  • Reprodução

    O atirador Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, que afirmou em um vídeo ter sofrido bullying na infância, mas disse que essa não seria a maior motivação para o que fez


A psiquiatra infantil Rafaella relembra que fatores como condições familiares caóticas, lares rompidos, falta de limites e de disciplina doméstica, abuso físico para com os filhos e entre os pais estão associados a maior incidência de comportamento delinquente. “A violência parental torna-se um modelo de comportamento, que contribui para as dificuldades da criança em controlar seus impulsos em outros ambientes”, alerta.

Nem todo indivíduo portador de transtorno de conduta vai evoluir para a psicopatia –porém, a grande maioria dos psicopatas foram crianças e adolescentes com distúrbios de conduta. Há uma série de comportamentos a observar (ver box). Isso nos levar a pensar que o destino de Wellington Menezes de Oliveira e o das crianças do Realengo poderia ter sido diferente.

 

Para Miriam Silveira, presidente do Departamento de Saúde Mental da Sociedade de Pediatria de São Paulo, é necessário tomar cuidado com julgamentos precipitados quando pensamos em indícios de maldades. “Todas as crianças nascem com variados graus de agressividade e é através da educação e da cultura que cada uma vai adquirindo noções de certo e errado. As crianças pedem ajuda através destas manifestações. Precisam de atenção e monitoramento o tempo todo com as observações dos pais e educadores a respeito do que se espera delas. Elas não nascem sabendo o que deveriam fazer”, salienta.

Os pais devem procurar ajuda profissional quando perceberem que não conseguem manejar determinados comportamentos ou quando as atitudes da criança começam a gerar prejuízos. Ignorar o problema sem dialogar não leva a nada; ao contrário: só o pioram. “A psicopatia aparece quando há uma falha no desenvolvimento do afeto, faltou ali uma relação humana verdadeira”, conclui Miriam. Encarar a verdade pode ser difícil, mas é um ato de amor.

Atitudes que podem indicar transtorno de conduta em crianças

Frieza emocional. A criança não demonstra calor humano ou remorso por ações que prejudiquem ou tragam prejuízos a terceiros.
Mania de mentir. Envolve desde as mentiras menores até as mais sérias e que envolvem consequências. É importante observar a frequência e evolução dessas mentiras. Se repetidas, também devem ser alvo de preocupação.
Faltas na escola. Matar aula para bagunçar ou simplesmente pelo prazer de violar uma regra.
Más companhias. A criança começa a se associar com colegas mais velhos e de comportamento suspeito.
Furtos. A criança começa a pegar pequenos objetos dos amigos ou em lojas. Agressividade e vandalismo. Destruição de brinquedos por prazer, comportamento incendiário, tortura de animais e maus tratos a um irmão ou amiguinho menor, por exemplo, são sinais de alerta.
Tendência ao isolamento. Dificuldade de ter amizades. Desobediência. Ataques de birra e respostas raivosas frequentes precisam ser observados.
Manipulações, chantagem emocional e baixa tolerância à frustração. Contrariada, a criança esperneia, grita e até bate nos pais. Ou tenta convencê-los a fazerem o que ela deseja. Os ataques de birra são mais preocupantes quando não são mais condizentes com a idade da criança.

 

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