Casamento

Entenda por que algumas mulheres ainda sonham com o príncipe encantado

HELOÍSA NORONHA

Colaboração para o UOL

Poucos casamentos exerceram tanto fascínio na história mundial das bodas célebres (reais ou não) quanto o do príncipe William com Kate Middleton. Sob os olhares de quase duas mil pessoas na abadia de Westminster e uma estimativa de dois bilhões de pessoas via transmissão ao vivo pela internet e pela televisão, a cerimônia aconteceu no dia 29 de abril, mas todos os detalhes do evento ainda repercutem nas revistas, na internet, na TV, nas redes sociais.

As mulheres, em especial, são as autoras dos principais comentários e analisam tudo: o vestido escolhido pela princesa (duquesa, na verdade), a maquiagem da noiva, o uniforme e a elegância do noivo, a fofura das daminhas... Nada escapa à criteriosa observação feminina, mesmo em um país como o Brasil, em que tradição e realeza são incomuns.

Todo esse "frisson" em torno do casamento real nos faz pensar: será que as mulheres ainda sonham com um príncipe encantado? E por que ainda o fazem nos dias de hoje?

Segundo alguns especialistas em comportamento, a resposta é sim, pelo menos para a maioria, e de um modo inconsciente. Os motivos são vários. “É uma questão cultural”, afirma a psicoterapeuta Sandra Samaritano, de São Paulo (SP).

“Crescemos ouvindo contos de fadas sobre princesas, príncipes, carruagens. A Igreja Católica também incutiu a fantasia do sonho do casamento, mesmo em quem não segue a religião. Essa idealização do casamento dos sonhos acaba mexendo com as fantasias femininas”, explica Sandra.

“Os contos de fadas sempre estarão presentes na mente das mulheres. Eu, por exemplo, convivo com eles desde a época em que nem sabia falar ainda”, diverte-se a estudante de Direito paulistana Brunna Carolina Silva, 21 anos. A estudante de jornalismo Ana Clara Guerra, 20 anos, de São Paulo (SP), concorda: “Os casamentos reais provocam fascínio em algumas pessoas porque são um acontecimento completamente fora do comum, algo visto apenas em filmes e fábulas.”

Para a psicóloga Suzy Camacho, também de São Paulo (SP), William e Kate são jovens, lindos e poderosos, atributos valorizados pelo imaginário coletivo. “O casamento é um sonho realizado. E o fato de a Kate ser uma plebeia só reforça a fantasia de que nossos desejos podem se concretizar e de que toda mulher um dia vai encontrar a pessoa certa para ela”, explica.

Outra explicação é o fato de que muitas mulheres têm passado por cima de características e valores femininos para conquistarem tudo aquilo que, até há pouco tempo, era destinado somente aos homens: poder financeiro, sucesso profissional, carreira de prestígio, realizações de destaque. “É impressionante o número de mulheres que têm sofrido ataque cardíaco nos dias de hoje. Sabe o motivo? É que elas estão subestimando os valores femininos, engolindo o choro, abrindo mão da sensibilidade e do afeto”, dispara a psicoterapeuta Sandra Samaritano. “Vejo toda essa movimentação em torno do casamento de William e Kate como algo positivo, pois mostra que as mulheres ainda sonham, querem sonhar e podem ser delicadas e femininas sem abrir mão de suas conquistas”, diz.

“As garotas, especialmente as mais novas, querem expressar uma imagem moderna e descolada. Porém, intimamente, são românticas e sonhadoras”, acredita a psicóloga Luciana Keller, proprietária da butique erótica paulistana Constantine. “Acredite: promovo chás de lingerie para muitas noivas que ganham peças ousadíssimas e até vibradores de presente, mas, no fundo, noivas e amigas ainda têm vários tabus em relação ao sexo”, ressalta.

Com apenas 17 anos, a estudante de Economia Thaís Junqueira Trevisan, de Andradas (MG), mata a charada: “Apesar de as mulheres terem conquistado a sua independência, ainda têm o sonho de se casarem e desejam que o dia do casamento seja o mais lindo de suas vidas”, diz.

Príncipe dos novos tempos

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    Príncipe moderno é bonito, apaixonado, bem-humorado, bem-sucedido e tem "pegada"

E o príncipe moderno idealizado, como deve ser? “Bonito, apaixonado, bem-humorado, bem-sucedido e muito gostoso, com pegada”, apressa-se em responder a psicóloga Luciana Keller.

“Não conheço uma única mulher que não sonhe com o príncipe encantado. Mesmo as mais duronas ou descoladas deixam escapar, vez ou outra, o que o coração deseja. Ninguém quer ficar sozinha no final das contas. O príncipe encantado, para mim, não foge do tradicional. Amo homens cavalheiros, inteligentes e cultos. Um tipão com cara e jeito de homem também é muito bem-vindo”, confessa a blogueira de moda e beleza Raphaela Maia, 21 anos, de São Paulo (SP).

“O príncipe encantado é sinônimo de perfeição. Acredito que as mulheres ainda procuram o homem perfeito, sim. Cavalheiro, bonito, inteligente. Além disso, as mulheres gostam da sensação de que o companheiro é admirado pelas outras mulheres, embora não admitam isso”, sentencia a estudante de jornalismo Maressa Fernandes, 20 anos, de São Caetano do Sul (SP).

Outro atributo valorizado e bastante procurado é o bom humor – um reflexo de que as mulheres realmente andam estressadíssimas com seu excesso de tarefas e responsabilidades e precisam de um parceiro que traga leveza às suas vidas. E embora algumas garotas como Raphaela e Maressa ainda cultivem ideais românticos, boa parte prefere ter os pés bem fincados no chão e não se ater às ilusões. É o caso da paulistana Camila Angel Silva, 20 anos, amiga de Maressa. “Todas temos um príncipe guardado para nós. Só que ele vem com defeitinhos que, muitas vezes, demoram a ser consertados”, diz.

Para a publicitária e modelo Katuxa Naconecy, 22 anos, de Santo André (SP), hoje em dia, as mulheres procuram mais o homem real do que o ideal. “A atração e o interesse podem ser construídos e dissipados em questão de segundos se a pessoa não age em relação aos nossos sentimentos mais internos e às coisas com as quais realmente nos importamos”, constata.

Já a designer paulistana Isabella Sarkis de Carvalho, 30 anos, almeja alguém que a trate de modo especial. “O príncipe encantado, na minha opinião, não tem de ser lindo, rico, famoso, nada disso. Ele tem de ser o cara que vai me olhar e me achar a mulher mais incrível que ele já conheceu. Com todos os defeitos e qualidades que tenho”, destaca.

De acordo com a psicóloga Suzy Camacho, conciliar as aspirações românticas com a realidade é o primeiro passo para conquistar a tão almejada felicidade. “É difícil encontrar alguém que preencha todos os atributos sonhados. A mulher, então, acaba se apegando a outros aspectos, como cordialidade, afinidades, experiência de vida e, principalmente, lealdade. Hoje em dia, a mulher quer alguém com quem possa contar, um parceiro mesmo”, afirma.

É a velha história: o sapo pode se transformar em príncipe. “Talvez o homem não seja perfeito para preencher suas fantasias, mas é o ideal para conviver bem com você”, aconselha Suzy.

Sonho x realidade
Até mesmo as mais maduras confessam que sonham com um parceiro especial, mas admitem que são movidas pelo senso de realidade. “As mulheres gostam de sonhar com momentos de luxo, viagens e eventos que o cotidiano de verdade não permite”, acredita a gerenciadora de arquivos Rita de Cássia Fernandes, 48 anos, de São Paulo (SP), que diz ter encontrado o seu príncipe moderno depois dos 40 anos. “Ele adora andar de jeep em dunas e sabe me encantar se antecipando às minhas necessidades”, conta.

Já a publicitária santista Margarida Willians, que diz ter perdido "45 anos esperando um príncipe para bancar uma vida fútil”, tem uma visão mais irônica do fascínio feminino pelo casamento real. “Momentos como esse nos fazem questionar onde foi que erramos quando olhamos o sapo ao lado. Hoje, na minha idade, sabendo o que eu sei, não gostaria de um príncipe encantado, mas de um príncipe abastado. Seus encantos não estariam na beleza e no porte, mas em uma conta corrente bem gorda”, justifica.

Um pouquinho mais romântica, a secretária bilíngue Vânia Del Rio, 43 anos, de São Paulo (SP), comenta: “Temos de ser realistas, sim, pois pessoas perfeitas não existem. Mas o ser humano, de modo geral, procura o amor. Para mim, o príncipe encantado atual tem de ser sensível, cooperador e parceiro da mulher em tudo. Um homem que venha para somar”, afirma.

A gemologista mineira Luciane Brando, 44 anos, concorda: “As mulheres nunca desistem de encontrar seu príncipe, mesmo sabendo que um dia ele vai virar sapo”, brinca. Ela aponta o príncipe Harry, irmão mais novo de William, o seu “eleito”. “O cabelo dele é um show! E Harry tem cara de quem gosta de uma boa festa, como eu”, conclui.

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