Comportamento

Solteiros convictos têm mais autonomia, mas podem esconder medo de sofrer

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A decisão de ser solteiro não deve ser motivada pelo medo de se relacionar imagem: Thinkstock

HELOÍSA NORONHA

Colaboração para o UOL

Será que é impossível ser feliz sozinho, como cantou Tom Jobim na clássica Wave? O aumento da expectativa de vida –para os brasileiros, de 73 anos, 2 meses e 1 dia, segundo dados divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística)–, as exigências do mercado de trabalho e a facilidade de manter relações fugazes e casuais (livres de culpa e cobranças) são alguns dos fatores que têm contribuído para que as pessoas se casem cada vez mais tarde ou, simplesmente, nunca se casem.

A evolução dos costumes, felizmente, tem colocado em desuso estereótipos pejorativos como o do “bon vivant”. “Ultimamente, muitas pessoas têm optado pela "solteirice" como um estilo de vida. Para elas, a liberdade, o trabalho, os estudos ou outros interesses são mais importantes do que um casamento”, explica a psicóloga Carmen Cerqueira César, de São Paulo (SP).

 

Hoje, é raro um homem que vive sozinho se tornar vítima de ironias. Ainda assim, há certa exigência de compromisso implícita no ar. “Para se ter uma ideia, a porcentagem de homens solteiros convictos na faixa dos 40 é menor do que em relação às mulheres. Existe uma cobrança em relação ao homem constituir família, ser provedor, mesmo com as mudanças de valores. Então, muitos procuram, sim, se casar para não se sentirem fracassados”, diz a psicoterapeuta Sandra Samaritano, de São Paulo (SP).

No mercado de trabalho, o estado civil de alguns candidatos a vagas importantes é levado em consideração. Algumas empresas mais conservadoras prestam muita atenção a esse detalhe. Mas, por sorte, nenhuma delas move o interesse do designer curitibano Rubens Siqueira, de 43 anos. “Já fui noivo, mas agora fujo de compromisso. Talvez um dia até reveja meus conceitos, mas enquanto a mulher certa não aparece, vou me divertindo com as erradas”, brinca.

Ter liberdade para fazer o que quiser sem ter de dar satisfação, a extrema segurança, maior dedicação à vida profissional, mais tempo de lazer e amplo poder de consumo são alguns pontos positivos da "solteirice". O último item é o favorito dos homens, segundo o empresário Rodrigo Talles, de 37 anos, de São Paulo (SP). “Gosto de comprar DVDs e bons vinhos e de colecionar bonequinhos de HQ. Se tivesse mulher e filhos, teria de usar o dinheiro gasto com isso com outras prioridades. Sem contar que a mulher, certamente, iria jogar os bonecos fora rapidinho”, diz.

Autodefesa

As especialistas afirmam que é comum alguns homens usarem o status de solteiro convicto como forma de autodefesa. A baixa autoestima e o medo de se machucar são os fatores principais que levam os homens a se apoiar na imagem do solteirão bem-resolvido.

“O medo de ser feliz os impede de se relacionar e viver o novo, correndo riscos que a vida normalmente oferece”, diz a psicóloga Carmen Cerqueira César. O problema é que muitos homens evitam as mulheres que querem ter um relacionamento. Dessa forma, não entram em contato com suas dificuldades afetivas e emocionais.

“A pessoa pode ficar mais egoísta, mais inflexível, mais fechada... E pode passar pela vida sem experimentar a felicidade de viver a dois, no casamento, vivendo junto, compartilhando, fazendo planos em comum, tendo e criando filhos. São experiências maravilhosas e altamente enriquecedoras quando existe amor, amizade, pontos de identificação e objetivos comuns”, afirma Carmen.

“A maioria das pessoas tem essa necessidade de compartilhar a vida, seja por uma questão cultural ou individual. O ser humano não é sozinho. É um ser de relação”, conclui.

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