Comportamento

Traição virtual é uma traição? Para especialista, tudo depende do sentimento envolvido

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"Atração física virtual, só pelo prazer, não tem significado algum", afirma o médico psiquiatra Flávio Gikovate imagem: Thinkstock

Eduardo Heering

Especial para o BOL

Ser infiel no mundo virtual é o mesmo que trair uma pessoa no mundo real? Para muitos, ‘traição é traição’, não importa onde ou como. “Apesar de não acontecer nada fisicamente, existe a mesma intenção de quem está traindo”, afirma a designer Lígia Aliberte. Mas há aqueles que pensam diferente:  “Se tem a intenção de se encontrar, é traição, mas às vezes no virtual é uma coisa fictícia que nunca vai acontecer”, diz Raine Kimberly, assessora de eventos.  

Traição virtual é igual a infidelidade no mundo real?

Ambas foram ouvidas pela reportagem do BOL, que foi às ruas de São Paulo saber qual a opinião das pessoas sobre a traição virtual (veja o vídeo ao lado). Para o médico psiquiatra Flávio Gikovate, o que denuncia a gravidade de um caso extraconjugal, seja real ou virtual, é o nível de intimidade que se atinge. “Atração física virtual, só pelo prazer, não tem significado algum. É como uma masturbação qualquer, assistindo a um vídeo na internet. Não existe ameaça alguma para o parceiro, pois esse tipo de intimidade sempre existiu e continuará existindo”, afirma Gikovate, que atualmente é apresentador da série “Traidores”, do canal de TV pago “Discovery Home & Health”. Para Gikovate, o contato físico não diz nada sobre a profundidade do relacionamento entre as pessoas envolvidas em um caso.

Ainda assim, o amante virtual não passa de uma figura imaginativa; muitas vezes um encontro real com a pessoa acaba com a expectativa criada no mundo virtual. “Há muita interferência subjetiva no relacionamento. Uma moça alta, quando acionava a webcam, escondia a sua estatura conversando sentada. Quando se desnudava, mostrava apenas os seios para o parceiro. Ao se encontrarem ele teve um grande susto, pois era baixo. No tempo virtual, ele a via ‘pequena’, devido à posição sentada”, relata o psicoterapeuta e sexólogo Joaquim Motta, colaborador do site Metade Ideal, parceiro do BOL Namoro.

Dr. Flavio Gikovate debate a infidelidade conjugal

Já Flávio Gikovate acredita que mesmo sem nunca haver o contato físico é possível criar uma conexão profunda e sentimental pela pessoa do outro lado da tela do computador. Gikovate explica que há pessoas com mais dificuldade de se relacionar no mundo real, mas encontram na internet uma forma “segura" de iniciar uma relação.

O psiquiatra divide, de uma forma geral, todas as pessoas em dois grupos: dos “egoístas” e dos “generosos”. Os integrantes do primeiro tipo são mais extrovertidos, conseguem lidar melhor com outras pessoas, mas têm grande dificuldade de lidar com frustrações. “Este tipo se preocupa menos com as outras pessoas e não costuma sentir remorso, com isso ele geralmente não encontra problemas para mentir e ‘aprontar’ no mundo real”, explica Gikovate.

Já o grupo dos “generosos” tem mais peso na consciência e gosta de dar amor, carinho e estar ao lado de alguém. Muitas vezes são mais tímidos e não seriam capazes de ter a “cara de pau” de contar uma mentira a fim de conquistar outra pessoa na “realidade”. “No mundo virtual, os generosos podem se sentir mais desinibidos. Realmente se escondem atrás de um personagem, e acreditam que não irão machucar nem a pessoa abordada na web, nem o parceiro do mundo real”, conta o especialista.

É justamente esse grupo mais carente emocionalmente que acaba se envolvendo mais a fundo no relacionamento virtual. “O fato de a pessoa gostar de ‘dar amor’ faz com que ela se envolva cada vez mais com os casos que começam na rede”, afirma Gikovate. Aos poucos, a ideia de saciar a necessidade afetiva de outra pessoa faz com que ela passe a ter laços sentimentais. “É nesse momento que não importa se o amante é virtual ou real. Quando se envolve o sentimento, a dor da outra pessoa sempre será muito maior”.

O sexólogo Joaquim Motta também considera que a preferência pela traição online, pode indicar uma fraqueza ou medo de procurar um envolvimento de verdade. Essa retração das pessoas as transforma em seres cada vez mais isolados.


Sexo virtual

“Na relação real, os pares vão ao encontro com todos os canais ativos, todos os órgãos dos sentidos participam. Os parceiros se ouvem, se tocam, se saboreiam, se olham, se cheiram. Na virtual, temos uma masturbação sofisticada, eles se veem e se ouvem. E quando se expõem e se exibem, podem favorecer a ilusão de tocar, beijar, penetrar”, resume o sexólogo Joaquim Motta.

O sexo virtual e sem emoção pode ser considerado uma redução de uma noite de sexo virtual. Quem antes buscava uma noite de prazer com outras pessoas, só pela atração física, está cada vez mais atraído pela relação via web. Para o psiquiatra Flávio Gikovate, no futuro, as pessoas vão trocar o sexo casual pelo virtual. “Economiza tempo, dinheiro, energia e cada um está no seu canto. Não estou defendendo esse tipo de atividade, mas é algo que podemos prever”, afirma.

A traição virtual é muito mais antiga. Quando ainda nem se pensava em navegar pela web, já existiam os serviços de sexo por telefone. Majoritariamente utilizado por homens, este foi o primeiro serviço a oferecer sexo virtual.


Na boca do povo

Existe um grande receio de que, se a pessoa se expuser no mundo virtual, há mais chances de os outros descobrirem, mas isso não é necessariamente verdade. "Existem pessoas espertas ou descuidadas nos dois mundos", relembra Flávio Gikovate. Se alguém vai descobrir o que está acontecendo de errado na vida pessoal de alguém depende apenas de quanto cuidado ela vai tomar. As pessoas também faziam “fofoca” antes da internet.

Homens x Mulheres

Os dois especialistas ouvidos pelo BOL afirmam que, quando se trata de traição somente física, o homem costumam trair mais que as mulheres. "Os homens são atraídos muito mais pela imagem e beleza. Apesar de também prestar atenção na beleza do sexo oposto, a mulher costuma ter muito mais prazer em se exibir e ser motivo da atração", afirma Gikovate.

No entanto, quando a traição inclui sentimento pelo amante, não há diferenciação. “É meio a meio. Nestes casos, elas traem tanto quanto eles”, diz o especialista. "Cerca de 80% dos casos em que existe suspeita de um dos lados, há um caso extraconjugal de fato acontecendo", afirma um detetive especializado em traições, que pediu para ser identificado apenas como Paulo. Uma pesquisa da editora Abril, publicada na revista “VIP” de junho de 2011, realizada com 1.198 mulheres de todo o Brasil entre 18 e 35 anos, aponta que 54% delas já traíram.


Como resolver?

Na opinião de Flávio Gikovate, se existe a necessidade de procurar algum tipo de amor, carinho ou prazer sexual fora do relacionamento, há algo de errado que precisa ser trabalhado. “É preciso buscar entender melhor o ser humano. Procurar entender as necessidades do casal”, afirma o psiquiatra, que ressalta: “Sempre que envolver sentimento, vai ser mais difícil de superar. Seja uma traição no mundo real ou fantasioso”.

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