Comportamento

"Querida, estou grávido!": futuros pais sentem enjoos e até engordam durante a gestação

Renata Angerami/Divulgação
O escritor Renato Kaufmann, que engordou uns quilinhos na gravidez da mulher, dá mamadeira para Lucia imagem: Renata Angerami/Divulgação

ANDRESSA ROVANI

Colaboração para o UOL

Sintomas como enjoo, insônia ou sono excessivo, fome e ganho de peso costumam fazer parte do universo feminino durante a gravidez. As alterações físicas e psicológicas não são, porém, exclusividade das futuras mamães. É cada vez mais frequente, segundo especialistas, que homens também se sintam “grávidos” enquanto se prepararam para a chegada do bebê.

O designer de interfaces Paulo Taneda, 29, teve de recorrer à medicação para se livrar dos enjoos enquanto esperava o nascimento de Gabriel, hoje com dois anos. “Desde que soube da gravidez, senti como se tudo em mim estivesse num processo de amadurecimento rápido e constante. Todas as minhas prioridades, objetivos, vontades, meu mundo passou a ser traduzido a partir do meu filho”, diz Taneda. Os enjoos eram parecidos com os da mulher dele, mas mais espaçados. “Ela achou bem engraçado, e pensou que eu estivesse com frescura”, lembra.

Taneda credita as alterações à forte conexão com a gravidez da mulher. “Acredito que isso aconteceu pelo meu envolvimento emocional em todos os processos da gravidez. Não sou nenhum especialista, mas entendo que isso fez com que, psicologicamente, o meu organismo acabasse projetando esses sintomas em mim”, conta.

Mas será que homens podem ser influenciados dessa forma pela gravidez da companheira? Para a psicóloga Vitória Pamplona, que há 35 anos ministra cursos para grávidas, a resposta é sim – e o quadro é recorrente. Isso acontece porque, assim como a mulher, o homem também se vê desafiado pelo novo papel: o de grávido. “A exigência de perfeição nesses papéis provoca tensões. E a medicina psicossomática há muito tempo nos diz que as emoções têm reflexos em todos os nossos sistemas vitais: cardiológico, digestivo, genito-urinário, entre outros. E isto vale tanto para mulheres quanto para homens.”

Um estudo feito por uma fabricante de fraldas divulgado este ano reitera a teoria. A pesquisa foi feita com 2.000 homens entre 16 e 65 anos na Inglaterra e mostrou que o cenário é mais frequente do que parece. Os resultados indicam que 23% dos homens relatam sintomas típicos de gravidez durante a gestação das parceiras. Desses, 26% tiveram alterações de humor, 10% sentiram desejos por comidas bizarras, 6% sofreram com enjoos e 3% chegaram a relatar dores semelhantes às do parto. Além disso, um terço deles se disse mais emotivo durante a gravidez.

  • Arquivo Pessoal

    O designer de interfaces Paulo Taneda sentiu enjoos quando sua mulher esperava Gabriel

Segundo o médico obstetra Luiz Fernando Leite, do Hospital e Maternidade Santa Joana, de São Paulo, isso é reflexo da maior participação dos homens no pré-natal. “A presença masculina nos consultórios aumentou muito nos últimos três anos. Hoje, praticamente todos os partos que faço têm o acompanhamento do pai na sala”, diz. O maior envolvimento masculino fez com que a expressão “estamos grávidos” se tornasse corriqueira, indicando que o homem também está disposto a assumir as alterações físicas e psicológicas antes restritas às mamães.

O pesquisador britânico Arthur Brennan, da Universidade de Kingston, que estuda o tema, aponta em suas pesquisas que o homem engorda, em média, seis quilos durante a gestação da companheira. O peso extra pode ser creditado à ansiedade com a chegada do bebê ou ao espírito solidário para com os desejos da esposa.  

Aumento de peso e alterações digestivas são os sinais mais frequentes de que o futuro papai também está grávido. “Em geral, muitos homens, pela ansiedade, comem demais e engordam. Eles também podem sentir náuseas, ter insônia ou muito sono. É uma forma de fugir de pensar nas emoções conflitantes da gravidez, por mais desejada que ela seja”, diz Vitória. Esses sintomas, explica, não são bons nem ruins. “Depende de como o casal vai lidar com eles, se vai reconhecê-los e procurar se conectar com as emoções e falar sobre elas. Admitir os medos e  falar sobre eles é muito libertador”, recomenda.

O escritor Renato Kaufmann, 36, só percebeu os efeitos da espera por Lucia quando a enteada, Maria, notou que algo havia mudado no físico dele. “Eu gostaria de negar, mas ela, na época com oito anos e com a sinceridade característica, perguntava se eu ainda cabia nas minhas roupas”, lembra. Os quilinhos extras vieram de uma “fome solidária”, que surgiu para acompanhar o apetite da futura mamãe. Kaufmann transformou a experiência em livro: o “Diário de um Grávido” (Mescla Editorial) conta os percalços do lado masculino da gestação.

Síndrome de grávido

Quando a maioria dos sintomas femininos encontra reflexo no parceiro, o quadro pode configurar a síndrome de couvade, um conceito ainda em discussão entre médicos. O pesquisador Arthur Brennan defende sua existência e afirma, inclusive, que o homem passa por alterações hormonais durante a gestação. A boa notícia é que, segundo ele, o quadro desaparece assim que o bebê vem ao mundo.

Para o obstetra Marco Aurélio Galletta, do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, a síndrome existe, mas é mais falada do que diagnosticada. “O que vemos com mais frequência é uma mudança no estilo de vida do futuro pai. Eles estão mais preparados”, explica. Na medida em que ele se envolve mais com a gravidez, diz Galletta, pode sentir ansiedade, dor de cabeça e até gastrite.

De acordo com Leite, a sensação de também estar “grávido” não deve tirar o sono dos futuros pais. O mais importante, recomenda, é ter paciência para compreender as alterações de humor pelas quais a gestante passa. Para Galletta, como é a mulher que sente os sintomas, o parceiro acaba querendo participar também. “O homem sente dificuldade de entrar nesse dueto”, afirma.  Mas, apesar de o foco estar todo voltado para a mãe, ele também deve receber atenção, para que não se sinta colocado de escanteio na relação com o filho. Afinal, ele também está grávido.

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