Comportamento

Rival em campo, feliz em casa: amor de pai supera até torcida por time inimigo

HELOÍSA NORONHA

Colaboração para o UOL


"A gente dá amor, paga os estudos, cuida com todo o carinho... Mas quando o filho não tem juízo, não tem jeito. O meu, por exemplo, virou corintiano. Quando quero irritá-lo, o chamo de maloqueiro", brinca Manuel Rodrigues Antunes Leal, 66 anos, de São Paulo, torcedor da Portuguesa. O cineasta Rodrigo José das Neves Duarte Leal, de 29 anos, justifica a paixão como sendo um caso de amor à primeira vista. Aos seis anos, ele participou de um churrasco em que todos eram corintianos e vibravam com a partida que passava na TV. Aquele fanatismo todo conquistou o menino.

O pai bem que tentou converter Rodrigo à Portuguesa, inclusive levando-o para ver jogos no Canindé, em São Paulo. "Gostava daqueles momentos, claro, mas as partidas não me entusiasmavam", conta o cineasta. Seus irmãos Roberto, 23 anos, e Rosa Maria, 31, também torcem pelo time do parque São Jorge. "Como sei que a Portuguesa dificilmente terá um desempenho exemplar, minha maior alegria hoje é ver o Corinthians perder", assume Manuel.

Pais palmeirenses,
filhos corintianos

  • Bob Donask/UOL

    José Antonio diz que a filha é "praticamente uma mana"

  • Bob Donask/UOL

    Venceslau reclama do mau humor do filho quando o Corinthians perde

Filha fanática

Mas ele não é o único pai desolado ao ver o filho se bandear para outro time. Por mais que se esforcem comprando uniformes e levando os filhos a estádios, muitos pais veem seus pequenos serem influenciados por amigos ou pelo sucesso de outros times. O administrador palmeirense José Antonio Kairalla, 60 anos, de São Paulo, diverte-se com o fanatismo quase obsessivo da filha mais nova, Priscila, de 23 anos, pelo Corinthians.

"Ela é praticamente uma ‘mana’. Não vai a estádios, com medo da violência, mas assiste aos jogos em bares, grita, xinga, discute". Mas Priscila não é a única na família a torcer por um rival. O irmão dela, André, 30 anos, também é corintiano e a irmã, Débora, 27, torce pelo São Paulo. "Imagina o quanto eu escuto?", brinca. "O André é tranquilo, até já vimos algumas partidas juntos ao vivo, mas a Priscila me provoca", conta José Antonio. Quando o Palmeiras passou, recentemente, por uma fase ruim, ele diz que preferia ficar quieto no canto dele após os jogos, porque a filha o atiçava.

Cara feia no trabalho

Dono de uma vidraçaria no bairro paulistano de Perdizes, o palmeirense José Venceslau Nogueira Naressi, de 65 anos, trabalha com o filho Júnior, 38, que é corintiano como a mãe. Ele diz não se importar tanto com as derrotas do time alviverde. "Não gosto, claro, mas isso não me afeta", diz. Com o filho, no entanto, é diferente. Segundo o pai, Júnior fica com cara feia quando o Corinthians vai mal. "O pior é que já está ensinando ao meu netinho de quatro anos a fazer o mesmo".

"Para mim, o futebol representa cumplicidade, união. As gozações e ironias nada mais são do que uma forma de interação entre pai e filho. No fundo, é divertido", diz o comerciante santista Alberto Takanori Sunahara, 59 anos, de Sorocaba (SP). Pai do palmeirense Enzo Rafael Motinaga Sunahara, 23, ele encara sem estresse as brincadeiras, mesmo porque a filha Erika, de 25 anos, é santista e ajuda o pai na torcida.

Enzo, que até 1996 nunca tinha ido a um estádio, lembra com alegria de um clássico entre os dois times naquele ano. A família estava reunida, quando Alberto e o sogro, santistas, começaram a provocar os palmeirenses. "A discussão acabou levando todos ao Palestra para ver o clássico", diz. Na entrada, o pai comprou uma camisa e avisou Enzo: "É a última camisa do Palmeiras que te dou, porque depois de hoje você vai virar santista. O Peixe vai golear". Realmente, foi uma goleada, mas para o Palmeiras: 5 a 0. "Meu pai teve de aguentar vários palmeirenses felizes comemorando", conta.

Topo