Comportamento

Gravidez na adolescência: existe idade certa para ser pai?

ANDRESSA ROVANI

Colaboração para o UOL

Existe idade certa para ser pai? Se ela é difícil de definir, a errada é mais do que conhecida. Não ter filho na adolescência é quase um mantra que pais, escolas e a sociedade como um todo entoam para quem está começando a se interessar pelo sexo oposto.

Mas acontece. Com o pintor Maicon Pereira foi aos 16. Quando a namorada deu a notícia, foi um susto. “A gente nunca espera que aconteça com a gente”, diz Maicon, que não conheceu a mãe e perdeu o pai antes que ele soubesse que seria avô. “Eu era ‘descabeçado’. Precisava mais de ajuda do que de um filho. No fim, ele veio para me ajudar a mudar”, afirma Pereira, hoje com 26.

A notícia de uma gravidez precoce, quase sempre indesejada, é traduzida ao futuro pai como uma lista de deveres. E não são raros os casos nos quais a fuga é o caminho mais frequente. Para os que ficam, porém, a incorporação da culpa e da irresponsabilidade e a quebra de expectativas tomam o lugar que deveria ser da alegria em ser pai.

“A representação que a gente tem de um adolescente leva à ideia da não responsabilização sobre a paternidade”, diz Jorge Lyra, professor do Departamento de Psicologia da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e um dos fundadores do Instituto Papai, que trabalha para redefinir o papel do homem nos processos sexual e reprodutivo. Segundo ele, são duas as reações mais frequentes por parte dos pais dos adolescentes: a culpa (e a frase mais frequente é “A sua vida acabou”) ou a infantilização, quando o jovem é desautorizado a participar da gestação ou mesmo da criação do bebê.

Por isso, em geral, o adolescente carrega durante a gravidez o peso por ter errado e a responsabilidade de prover recursos, sobretudo financeiros, para que essa nova família se forme. Não há espaço, com isso, para que se aprenda a ser pai. “Conversando com adolescentes que terão filhos, o que mais escuto é: ‘Esta é a primeira vez que me perguntam como estou; até agora, só ouvi o quanto eu tinha errado’.”

O músico Rafael Pedro da Silva, de 21 anos, diz não ter sofrido com críticas, mas a questão financeira foi sua preocupação principal ao longo de nove meses. Ele conheceu sua mulher quando os dois tinham 17 anos, no Instituto Baccarelli, onde ele estuda música desde os dez anos. Com alguns meses de namoro, Anna Beatriz, hoje com 2 anos, estava a caminho.  “Quando recebi a notícia, fiquei em choque; mas, em seguida, comecei a tomar as atitudes necessárias: contei para os meus pais e saí em busca de uma casa para a gente”, lembra. A falta de dinheiro pesou. “Contamos com a ajuda da família, dos amigos e do instituto. Sem eles, não sei como teria sido.”

  • Bob Donask/UOL

    Com música: Rafael e a pequena Anna Beatriz

Agora o casal planeja um menino para depois da faculdade. Ele vai prestar vestibular para música e ela, para pedagogia. Por enquanto, a pequena Anna Beatriz trata de alegrar os pais mostrando que já sabe colocar um violino sobre o ombro e ajeitar um violoncelo. “Quando estou com ela, passeamos o tempo todo. Depois da creche, vamos ao parquinho e, em casa, enquanto ela vê os desenhos de que ela gosta, preparo a papinha. Como todo pai e mãe de primeira viagem, tivemos que fazer muita coisa na intuição”, diz Silva, que acompanhou o parto e cortou o cordão umbilical da filha. “Ela poderia ter vindo mais tarde, mas não me arrependo. Já recuperei o tempo que perdi”, afirma ele, hoje chefe de naipe da Orquestra Sinfônica do Instituto Baccarelli e professor da orquestra juvenil.

Direito de ser pai, mesmo que jovem

Tratar o futuro pai adolescente como incapaz é, para Lyra, retirar dele o direito de curtir a paternidade como qualquer outro. O psicólogo Antonio Carlos Egypto, que há duas décadas dá cursos de educação sexual em escolas, lembra que ser pai é um desafio em qualquer fase da vida. “Mas, na adolescência, ele acaba preso a uma realidade que é prematura para sua idade.”

Além disso, diz Lyra, o sistema público de saúde trabalha com a máxima de que o menino não se interessa pela paternidade – e, portanto, não há muitas vezes espaço para ele nas salas de atendimento pré-natal ou no parto. É a mãe quem deve acompanhar a grávida, excluindo o adolescente do exercício, mesmo que desajeitado, da paternidade. Na realidade, ninguém pensa que ele tem o direito de estar ali. Por isso, Lyra estuda, em parceria com o Ministério da Saúde, um programa para consolidar o direito do pai, adolescente ou não, de ser aceito em consultórios e hospitais durante a gestação.

Para o vice-presidente da Comissão Nacional da Criança e Adolescente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Ariel de Castro Alves, a rede pública de saúde ainda não tem esse olhar diferenciado sobre o pai adolescente. “Mas deveria.  Essa é uma área invisível”, diz. Ele reforça que, pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, o adolescente tem o direito ao exercício da paternidade, independentemente da idade.

Gravidez precoce cai em SP

Segundo dados da Secretaria Municipal da Saúde, o número de adolescentes até 19 anos grávidas na cidade de São Paulo caiu 17,4% entre 2003 e 2010. Ainda assim, por ano, mais de 21 mil mulheres nessa faixa etária enfrentam uma gravidez precoce. Em duas subprefeituras da capital paulista, a notícia é menos animadora: Perus registrou alta de 32% no período, e Cidade Tiradentes, de 14,2%. Não se pode afirmar que uma adolescente grávida representa também um adolescente na mesma situação. Ainda assim, os números são sintomáticos.

Para os especialistas, o caminho é mudar a forma como a educação sexual é apresentada nas escolas. Falar só de prevenção não altera muitas vezes a sensação do adolescente de ser superior ao risco. Ao mesmo tempo, a possível paternidade não pode ser vista como se a vida acabasse com o nascimento do filho. “Todo mundo fala em prevenção, mas ninguém se lembra de discutir a paternidade, ninguém fala como ser um pai”, diz Lyra.

Maicon Pereira, que foi pai aos 16, hoje se diverte soltando pipa com os filhos Lucas, de 9 anos, e Luanna, de 8. Para o Dia dos Pais, espera o presente secreto que a escola está ajudando Lucas e Luanna a preparar. Jogar bola deve ser a diversão da família neste domingo. Já para Rafael, a manhã do dia 14 será na Sala São Paulo, onde o músico se apresenta em um concerto de jovens solistas da Sinfônica Heliópolis, às 11h. A família estará na plateia, e, para quem quiser prestigiá-lo, a entrada é gratuita.

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