Equilíbrio

Será que a culpa de seus problemas é mesmo da inveja alheia?

Lumi Mae/UOL
É preciso encarar os fatos com honestidade e perceber se o problema está mesmo na inveja dos outros imagem: Lumi Mae/UOL

Heloísa Noronha

Colaboração para o UOL, em São Paulo

Você acaba de comprar um carro zero e conta a novidade para todos os seus conhecidos. Mas, ao sair da garagem para o primeiro passeio, já dá uma ralada no portão. “Só pode ser inveja!”, você pensa. Ou está no meio do expediente e, do nada, bate um desânimo. “Alguém colocou um mau-olhado em mim”, é sua única explicação.

Responsabilizar os sentimentos alheios por seus erros ou problemas parece ser uma solução fácil e sensata, mas não é. O ideal é investigar por que cada acontecimento ruim acontece.

Para isso, o primeiro passo é entender que a inveja não age. “Muita gente se sente perseguida pela inveja. Mas o sentimento do outro não prejudica ninguém, o que prejudica é a atitude.

Quem se vê alvo desse sentimento perde o foco. A pessoa fica tão insegura que passa a olhar na direção contrária de seus objetivos e se descuida do que antes era importante”, explica a psicóloga Roseana Ribeiro, de São Paulo.

A inveja é toda sua

E o que leva alguém a tornar a inveja o vilão de seus problemas? Uma das explicações é que quem se preocupa demais com o assunto é que pode estar desejando o que é do outro – e se sentindo mal por isso. “No fundo, ninguém gosta de ter inveja, pois ela é uma espécie de prova de fracasso, falta, inferioridade”, diz Dorit Verea, psicóloga da Clínica Prisma, de São Paulo. O repúdio a este sentimento gera culpa, explica Roseana. Para se defender deste sentimento ruim, a pessoa tenta justificá-lo por meio do outro: atribui a ele a inveja e, assim, abranda suas próprias emoções.

Ou seja: será que você é mesmo invejado ou deseja estar nesta posição? Acreditar ser o alvo da cobiça alheia dá certo sentimento de superioridade. A pessoa acredita que o outro está em uma fase ruim e comemora intimamente sua “desgraça”. “O invejoso precisa se sentir invejado para suportar a frustração de não ter o que o outro tem”, explica o psicólogo e escritor Alexandre Bez, autor do livro “Inveja – O Inimigo Oculto” (Editora Juruá).

Veja a seguir o que se passa por trás do comportamento de culpar a inveja por todos os males. E veja a dica de especialistas para não cair mais nesta cilada.

A culpa é mesmo da inveja alheia?

Muitos usam o argumento de que algo não deu certo em suas vidas porque fulano ou beltrano colocou "olho gordo". "Às vezes, é difícil assumir a responsabilidade por algo que não deu certo. É muito mais confortável acusar o outro. Devemos nos focar em assumir a responsabilidade do que podemos fazer e sermos proativos. Autopiedade não ajuda a ninguém", diz Dorit Verea. Para a psicóloga Heloisa Schauff, de São Paulo, muita gente não tem atitude para ir atrás dos seus objetivos e usa a suposta inveja alheia ou mesmo as energias negativas como o motivo de sua inércia ou fracasso. "São pessoas pouco resilientes e acabam culpando os outros por sua falta de sorte", explica.

Baixa autoestima

Há quem sinta certo prazer em se considerar invejado. O motivo? Simples: quando a pessoa se vê no alvo de uma comparação, tenta se colocar em um patamar acima. "Ela quer provar que é melhor que o outro, querendo ser admirada e aceita", explica Dorit. Na opinião de Heloisa, são vários os casos em que a pessoa não acredita em seu potencial por insegurança e baixa autoestima. "Aí, ao se colocar na mira da inveja, acaba se vendo como superior", afirma.

Prazer em ostentar

Tem gente que adora ostentar suas conquistas e posses. "Infelizmente, ser alvo da inveja alheia confere, de forma ilusória, um status de poder e valor próprio", destaca Dorit. Segundo Heloisa, se a pessoa batalhou e se dedicou para conquistar um espaço, é normal vibrar e querer mostrar seu sucesso. Mas fazer isso o tempo todo pode se transformar em um problema. O exagero em expor realizações pessoais e materiais denota uma eterna insatisfação. "O invejoso nunca se dá por contente, mesmo conseguindo realizar seus desejos", conclui Alexandre.

Busca por atenção

Posts em redes sociais como "Xô, olho gordo" ou "Sai pra lá, inveja" são uma forma de chamar a atenção. "Esse mecanismo é uma manifestação de defesa do próprio ego.  A baixa autoestima é constante na realidade de vida do 'invejado' e condiz com o seu perfil psicológico. Ele projeta nas outras pessoas a sua inveja, em um ciclo de vida interminável", conta Alexandre.

Pense positivo e vire este jogo

Culpar a energia negativa por todos os seus problemas pode sair como um tiro pela culatra. Muitos se apegam tanto a ela que abrem caminho para fraqueza emocional e, assim, não conseguem prosperar. "Se a pessoa passa o tempo todo preocupada com a inveja alheia, é natural que se despreocupe com o que está realizando. Isso a enfraquece e o resultado não será tão favorável quanto poderia ser", explica Heloisa.

Para virar o jogo é preciso acreditar justamente no oposto. "Existem estudos científicos que mostram que fazer corrente positiva ajuda. É preciso perseverar e correr atrás do que a gente quer para as coisas acontecerem", comenta a psicóloga. Segundo Dorit, as crenças que temos sobre nós mesmos, o mundo e o futuro determinam o modo como nos sentimos e como nos comportamos, afetando nosso bem-estar. "Concentre-se em você mesmo e no que deseja se tornar", finaliza a especialista.

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