Comportamento

Escritora publica guia depois de resistir à perda do namorado, da mãe e ter a franja destruída

Bob Wolfenson/Divulgação
Gisela Rao, autora do blog Vigilantes da AutoEstima e do livro "Não Comi. Não Rezei. Mas Me Amei" imagem: Bob Wolfenson/Divulgação

VLADIMIR MALUF

Da Redação

Ao criar o blog Vigilantes da AutoEstima (VAE), a publicitária, jornalista e escritora Gisela Rao propôs um desafio: ficar atenta aos julgamentos negativos que ela fazia sobre si mesma. Dois anos depois, o blog deu origem ao livro "Não Comi. Não Rezei. Mas Me Amei" (Matrix Editora): um apanhado de 365 posts que narram a jornada da autora em busca do autoconhecimento, onde ela escancara os problemas familiares, tropeços amorosos, falhas e descobre seus atributos, sempre –ou quase sempre– com bom humor. O título, que faz óbvia menção ao best-seller "Comer, Rezar, Amar", segundo Gisela, resume o que ela fez e não fez neste primeiro período de vigilância –principalmente, aprender a gostar de quem é. Leia a entrevista que o UOL Comportamento fez com a autora do livro, lançado na quarta-feira (28), em São Paulo.

UOL Comportamento: o que te levou a vigiar a sua autoestima?
Gisela Rao: Quando me vi aos 44 anos, sem o que consideramos bases sólidas para a vida –apartamento próprio, dinheiro guardado, holerite, marido próprio etc– me deu um pânico. Aí, navegando na internet, eu li um texto que dizia que o oposto de angústia é criatividade. Então, resolvi desengavetar este projeto e colocá-lo em um blog. Este termo [Vigilantes da AutoEstima], eu criei em 2000, quando fazia parte de um grupo de amigas que se encontrava toda semana para fortalecer a autoestima. O grupo durou dois anos.

  • Bob Wolfenson/Divulgação

    "Os maiores inimigos das pessoas são elas mesmas", diz a escritora Gisela Rao

 

UOL Comportamento: deu certo?
Gisela: Sim, posso afirmar que deu certo porque comecei a aplicar as três principais regras do VAE, o famoso “Stop, Minhocation!”: parar com a autodepreciação diária; trocar lista de infelicidade por lista de felicidade; deletar a síndrome de vítima. Todo dia eu me dava uma pontuação: casinha de palha, madeira ou tijolaço. E ia observando onde poderia melhorar. Fora que comecei a ver o quanto eu ajudava as pessoas. Tenho 17 mil comentários de leitores que também aprenderam a ser uma excelente companhia para si mesmos. E, na minha opinião, não tem nada mais eficiente do que isso para se dar mais valor.

UOL Comportamento: É mais fácil acreditarmos nas críticas negativas do que nos elogios?
Gisela: Infelizmente, sim. Principalmente, se tivemos uma estrutura familiar “meia-bocation”. Porque, desde a infância, fomos vítimas de depreciação, falta de amor e atenção, rejeição, falta de valorização por parte de quem mais amávamos, no caso, nossos pais. Então, fica difícil acreditar que somos mesmo bons em algo ou bonitos ou o que seja.

UOL Comportamento: o que é pior: a depreciação alheia ou a autodepreciação?
Gisela: Pelas pesquisas que fiz, os maiores inimigos das pessoas são elas mesmas. Estamos o tempo todo nos julgando ou nos comparando com os outros, para pior, sem a menor compaixão. Por isso, no VAE, costumamos dizer que o lobo mau é interno. Quando temos uma estrutura emocional frágil, acabamos dando valor demais ao que os outros pensam da gente. Autoestima não é só se curtir. É, também, parar de dar tanta importância para a opinião destrutiva das pessoas sobre a gente. O famoso “ah, vai catar sapo na lagoa!”.

UOL Comportamento: você narra em seu blog que sua autoestima ora é elevada, ora é baixíssima. Tem exemplos de situações que mostrem como cada uma dessas condições influencia imediatamente a sua vida?
Gisela: Ao longo do ano, eu vou deixando a autoestima de “palha” para trás, depois a de “madeira”, até, praticamente, me estabilizar no “tijolaço”. A “palha” influenciava minha vida quando minha “síndrome de patinho feio” aparecia escancaradamente. Como eu fui condicionada a crer que era feia na infância, não acreditava que alguém quisesse namorar comigo, ainda mais se fosse bonito. E, acredite, muitos quiseram e eu dei um jeito de sabotar a relação. A “madeira” influenciava quando eu, por exemplo, ainda aceitava um “relacionamento tóxico”. Como com um namorado que era bipolar e que, em um dia, me tratava com amor e, no outro, com indiferença. Eu tolerei até que um bocado. O “tijolaço” ficou evidente quando perdi meu emprego, um namorado, minha mãe faleceu, a cabeleireira destruiu minha franja. Tudo isso em seis meses. E nada disso me derrubou. Nada disso tirou os valores que eu já havia consolidado em mim durante a jornada. O que não quer dizer que eu não tenha ficado triste e com ataque de asma.

  • Coletivo Carta Branca/Divulgação

    Capa do livro "Não Comi. Não Rezei. Mas Me Amei"

UOL Comportamento: autoconfiança demais não blindaria a pessoa das críticas honestas e construtivas, o que seria prejudicial para a evolução pessoal?
Gisela: Sim. Eu mesma escrevi outro dia em um post que estava sentindo que autoconfiança demais estava me deixando um pouco arrogante. Desde então, voltei a ter humildade suficiente para voltar a ouvir as críticas construtivas das pessoas. Aliás, voltei a, simplesmente, ouvir e dar atenção às pessoas. Por isso, é legal se vigiar todos os dias, para não dar esse tipo de “escorregada no quiabo”.

Serviço
“Não Comi. Não Rezei. Mas me Amei”
Editora: Matrix
Páginas: 336
Preço: R$ 39,90

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