Comportamento

Como falar de violência com as crianças sem deixá-las com medo?

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Nem fugir do assunto nem dar detalhes demais: o ideal é ensinar o que é certo e o que é errado imagem: UOL

ANGELA SENRA

Colaboração para o UOL

A violência está presente nas ruas, nas escolas, nos parques, nos telejornais. Você sabe que precisa proteger seu filho, mas também se preocupa em como conversar com ele sobre o tema. O que dizer aos pequenos para explicar esta realidade sem deixá-los amedrontados? Será que é melhor não dizer nada? Calma!

O ideal é dosar – não esconda o tema nem entre em detalhes. “A criança precisa mais de conforto dentro de casa do que de explicações sobre comportamentos que ela não compreende”, garante a psicóloga Anette Lewin. A dica é não introduzir o assunto gratuitamente. “Só responda o que ela perguntar.”

Ensine-a a se proteger

Ela já atende ao telefone? Então deve ser instruída a não passar o endereço de casa ou detalhes sobre a família - como o nome da escola na qual estuda ou onde os pais trabalham.
Aos quatro anos, a criança já deve receber dos pais algumas lições de proteção. Ensine a não deixar que ninguém toque seu corpo e também para não aceitar doces, presentes, brinquedos nem outros itens de estranhos.
Com estas dicas, a criança não ficar desamparada na ausência dos pais. Mas não entre em detalhes demais. “Se ela quiser saber por que estranhos não podem tocá-la, diga claramente que eles podem machucar ou fazer dodói. Essas palavras elas entendem perfeitamente”, diz psicóloga Anette Lewin.

Até por volta dos oito anos de idade, as crianças não percebem a violência como imaginamos. A psicóloga infantil Suzy Camacho, terapeuta familiar e autora do livro “Guia Prático dos Pais” (Editora Paulinas), diz que este tema só começa a afligir o pequeno a partir dos dez anos, a menos que existam ameaças reais ou os pais se mostrem muito temerosos.

Mocinho e bandido

Muitas crianças, especialmente os meninos, de vez em quando surpreendem com uma brincadeira “malvada” – um assalto, por exemplo. A primeira reação dos pais é de susto. Mas as especialistas dizem que não há razão para se apavorar, pois toda criança, em qualquer época, já brincou de bandido e mocinho.

A maioria das histórias aborda a violência: bruxas, monstros e personagens do mal fazem parte do imaginário infantil. Por isso, a melhor maneira de introduzir o assunto é usar contos e fábulas, que deixam bem claro a posição do bem e do mal. “Até a adolescência, acredito que é fundamental dizer o que é bom é o que é ruim – e dizer que o bem sempre vence. Conforme for crescendo, a criança perceberá que as coisas não são assim tão definidas. Mas dar esta segurança ao filho está entre as funções dos pais”, explica Anette.

Não se pode fugir da conversa quando o pequeno quiser saber sobre crimes e violência, assuntos que rondam os noticiários e os papos dos adultos. Segundo Suzy, o medo de atos violentos depende muito do tipo de reação que os pais demonstram. “Os adultos devem se controlar; a criança precisa acreditar que eles podem protegê-la. Se entram em pânico, ela se sentirá desprotegida”.

E nada de deixá-la na frente da TV assistindo a programas sensacionalistas, que mostram detalhes de atos criminosos. “Explique que esse tipo de coisa acontece, infelizmente, e que os bandidos serão punidos. Mesmo que você não acredite nisso, é fundamental para o pequeno saber que o bem vence o mal. É responsabilidade dos pais tranquilizar os filhos e reforçar que o crime não compensa”, afirma Suzy.

A verdade vem à tona

Violência dentro de casa

Um dos grandes geradores de violência é o ambiente familiar. “Pais que se agridem física ou emocionalmente estimulam o mesmo comportamento no filho”, explica a psicóloga infantil Suzy Camacho.

Por isso, quando pensamos em violência, devemos nos colocar como parte do problema. “Ao conversar com seu filho sobre isso, explique que este comportamento é humano, que todo mundo fica bravo de vez em quando, mas que é possível e preciso controlar nossas emoções."

Caso ela presencie algo do tipo e souber, por exemplo, que o bandido continua solto, é possível antecipar a explicação, dizendo que nem sempre dá para prender todo mundo que é mau. “Ela ficará triste, mas vai arrumar uma maneira de solucionar o sofrimento, brincando ou buscando a companhia de quem ama”, conta Anette.

Também é importante falar sobre o desconforto e a humilhação de ser preso, ficar sem liberdade, longe da família e de perder o respeito das pessoas. “Mostre como a verdade vem à tona, lembrando, por exemplo, que a mamãe sempre acaba descobrindo as mentirinhas que ele conta”, ensina Suzy.

Outra maneira de passar segurança é falar da proteção de Deus ou das energias positivas, dependendo da filosofia ou crença religiosa da família. “Quem não crê em Deus deve dar sua tradução do bem de forma positiva. Para a criança é extremamente eficaz acreditar em algo maior do que ela ou os pais, em alguém onipresente, que tudo pode e tudo vê. Assim, mesmo quando os pais não estão por perto, ela se sente protegida”, diz a psicóloga.

Você é alarmista com seu filho?

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