Comportamento

Papai Noel contra a parede: o que fazer quando as crianças questionam o presente?

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Explicar por que o Noel dá presentes caros para alguns enquanto outros ficam sem nada não é tarefa fácil imagem: Thinkstock

ANDRESSA ROVANI

Colaboração para o UOL

Mais cedo ou mais tarde, toda criança passa a desconfiar da extensa lista de habilidades do Papai Noel. Ou porque o vizinho ganhou um brinquedo muito mais caro que o dela, ou porque o velhinho não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo ou porque ela ficou a noite toda acordada e não viu ninguém entrando pela janela. Com a curiosidade à flor da pele, a criança geralmente dirige aos pais uma pergunta à queima-roupa: por que o fulano ganhou um presente melhor do que o meu?

Explicar para o filho por que o Papai Noel dá presentes caríssimos para algumas crianças enquanto outras ficam sem nada não é tarefa fácil. Mais do que isso: para especialistas em desenvolvimento infantil, o questionamento é sinal de que a figura do Papai Noel começou a desmoronar.

Papai Noel não existe?
“Quando a criança faz essa pergunta, no fundo, já desconfia de que ele não existe. É um sinal de que está na hora de começar a lidar com a realidade”, diz a psicanalista infantil Anne Lise Silveira Scapaticci. “Os pais devem encarar a pergunta do filho como uma oportunidade para lidar com a noção de frustração”, completa a Maria Thereza França, psiquiatra e psicanalista infantil da SBP-SP (Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo).

A lenda do bom velhinho

  • Quando a criança questiona a fantasia, está dando a dica de que já começa a identificar verdade e mentira


Quando a criança traz dados da realidade, questionando a fantasia, está dando a dica de que já começa a identificar verdade e mentira. “Ela percebe que o Papai Noel faz compras na mesma loja de brinquedo que seus pais ou que o papel de presente é o mesmo que tem em casa”, conta Denise Bandeira de Melo, psicóloga da divisão de creches da USP (Universidade de São Paulo). E não é preciso um grande confronto para que a verdade venha à tona. “Aos poucos, a criança vai indicando que não precisa mais da fantasia e, que, para ela, essa crença já não se sustenta.”

Por isso, a morte da fantasia do Papai Noel não deve ser vista pelos pais como um momento triste, mas sim como um sinal de maturidade infantil. O importante é que ele tenha vivido nesse mundo de imaginação. “A fantasia tem uma função psíquica muito importante no ser humano e, por isso, deve-se sustentá-la na infância”, diz Vera Zimmermann, coordenadora do Cria/Unifesp (Centro de Referência da Infância e Adolescência da Universidade Federal de São Paulo).

Como explicar a diferença entre os presentes?
Segundo Zimmermann, os pais devem esperar que a pergunta seja feita. Questionar o presente que o outro ganhou é natural. A forma como a questão é colocada –se convicta, desconfiada ou incrédula–  já indica o estágio de inserção da criança na realidade. A resposta, portanto, deve auxiliar a criança a entender o mundo em que vive, sem destruir a fantasia do Papai Noel. Se a família passa por dificuldades ou não quer dar um presente muito caro para os filhos, a criança precisa partilhar dessa realidade, mesmo que frustrante.

"Meu presente é pior"

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    Uma saída é explicar que é a família quem paga o Papai Noel, que escolhe os presentes dentro daquela faixa de preço


A psicanalista Anne Lise Scapaticci sugere que os pais não mintam e digam aos filhos que o vizinho tem mais condições de comprar o presente do que a família dele, se esse for o caso. “É preciso que a criança tolere. Os pais precisam dizer: ‘Na nossa família, é isso o que o Papai Noel pode dar’”, afirma. Se a criança insistir, aponta Scapaticci, uma saída é explicar que é a família quem paga o Papai Noel, que escolhe os presentes dentro daquela faixa de preço.

Às vezes, o questionamento não está ligado às diferenças sociais. “Houve um caso de um menino que pediu de Natal um jogo de tabuleiro e ganhou uma bicicleta. Apesar de mais caro, o presente foi frustrante para ele”, lembra Maria Thereza França, que alerta também para o cuidado em não trocar afeto por objetos materiais. “Há pais que têm dificuldade de se relacionar com a criança e tentam se aproximar por meio do presente caro ou fora de hora. Isso favorece um padrão, estimulando a voracidade do filho. No futuro, pode provocar dificuldades em lidar com a frustração ou levar ao deficit de atenção”, diz França.

O ideal é que o presente se encaixe no padrão da família e que a criança não seja instigada a recompensar de alguma forma o presente que ganhou. “Tem pais que se endividam para dar presente”, diz Anne Lise Scapaticci. “É preciso viver dentro do que se pode, e isso exige que os pais saibam negar um presente caro à criança.”

 

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