Comportamento

Influência dos pais pode estar prejudicando sua vida sexual

Júlia Bax/UOL
Certas coisas que todos escutam dos pais desde a infância podem refletir negativamente na vida sexual imagem: Júlia Bax/UOL

HELOÍSA NORONHA

Colaboração para o UOL

Se você pensa que o título deste texto tem a ver com aquela vez em que sua mãe quase lhe deu um flagrante, engana-se. Mais do que surpresinhas desagradáveis, os pais são –inconscientemente, na maior parte dos casos– coautores da nossa vida sexual, o que inclui prazeres e problemas que vão de ejaculação precoce à dificuldade de relaxar. A raiz de tudo está na infância. De acordo com o psicólogo e terapeuta sexual Oswaldo Rodrigues Martins Jr., diretor do Instituto Paulista de Sexualidade, há dois tipos de repressão. O primeiro é o de pais com padrões rígidos e controladores. O segundo caracteriza-se por pais que consideram a expressão da sexualidade negativa e errada.

"Nem todos os filhos submetidos a tais condições se sentirão reprimidos sexualmente, mas, em especial, os que desenvolverem o mecanismo de tomar o conceito dos pais como o verdadeiro, sem considerar alternativas", explica o especialista. A criança pode passar a evitar contatos sociais que conduzam a situações, comportamentos e emoções ligados ao sexo. “Na idade adulta, tais indivíduos poderão ter dificuldade para reconhecer seu desejo, inibição ao se expressar sexualmente diante do parceiro e, muito provavelmente, não conseguirão ter prazer", afirma a terapeuta sexual Cristina Romualdo, do Instituto Kaplan, de São Paulo.

Para o urologista e terapeuta sexual Celso Marzano, professor da Faculdade de Medicina do ABC, os pais deveriam se encarregar da educação sexual dos filhos –que consiste em explicações sobre anatomia e fisiologia– e da orientação sexual –que analisa o tema de modo global, incluindo as relações com as outras pessoas e suas consequências. “Isso ajudaria a enfrentar todos os problemas diários que levam o ser humano à depressão, entre outros conflitos emocionais", afirma.

Seguindo essa lógica, uma mulher que foi educada de forma repressora tem grandes chances de sentir dificuldade em obter o orgasmo. Já um rapaz pode não ter ereção por se sentir obrigado a ter um desempenho espetacular diante da parceira. E, assim como a repressora, uma educação excessivamente permissiva também pode gerar distúrbios na vida sexual adulta. A quem tudo é permitido, qualquer tipo de prazer se transforma em algo fácil e óbvio demais.

Relações desastrosas

Pais com escolhas amorosas desastrosas também podem influenciar os filhos, pois a maior parte das pessoas imita o modelo de relacionamento. Há, porém, quem faça o contrário: o modelo é seguido às avessas.

"Durante a adolescência, o jovem diz e tenta fazer o contrário do que os pais aparentam, mas, geralmente, após os 20 anos de idade, as pessoas estabilizam-se nos padrões imitados dos pais. Casais com relacionamentos conturbados, provavelmente, terão filhos que repetirão esse padrão", afirma Oswaldo Rodrigues.

Os especialistas são unânimes ao sugerir a psicoterapia como melhor método para enfrentar o passado e os padrões assimilados na infância, para ter uma vida sexual sadia. Porém, o primeiro passo pode ser dado é abrir o jogo com o parceiro ou com um amigo.

Começar a avaliar os próprios sentimentos, necessidades e desejos, esquecendo a opinião alheia também ajuda. “O passado não pode ser mudado, mas é possível mudar o futuro através de atitudes", diz Valéria Walfrido.


Frases que machucam
As pessoas reagem, mesmo sem se de dar conta, de acordo com o que acham correto, ideal, segundo Celso Marzano, referindo-se ao ensinado pelos pais. “Todos os medos, as dúvidas e as inibições interferem diretamente no desejo, na excitação e no orgasmo, já que o sexo é essencialmente uma resposta sensorial."

Uma garotinha que a vida inteira se sentiu responsável pelo fato de a mãe ter abandonado sonhos e projetos, por ter engravidado precocemente, pode sofrer na vida adulta com o medo de engravidar e colocar um filho indesejável no mundo. “Na cama, poderá ter dificuldade de sentir prazer, ao relacionar o sexo com a procriação", exemplifica a terapeuta Cristina Romualdo. "Um menino que sempre ouviu o pai dizer que as mulheres são interesseiras, dificilmente, verá futuras parceiras de maneira diferente."

As frases pejorativas ou preconceituosas que os pais costumam dizer também ficam gravadas na memória. Exemplos não faltam: “Homem tem que aguentar, no mínimo, três transas em uma noite”, “Mulher que gosta de sexo é promíscua”, “Quem usa roupa provocante está querendo sexo", “Macho não nega a fogo” etc. O mesmo acontece com reclamações ouvidas na infância, do tipo: "Você não serve para nada" ou "Você atrapalhou minha vida", que causam danos à autoestima.

Na opinião da terapeuta sexual Valéria Walfrido, de Recife, embora a sociedade atual aparente ser mais permissiva e avançada, os padrões repressores ainda se repetem. “Existe um grande percentual de mulheres que sequer tocam intimamente o próprio corpo e jamais chegaram ao orgasmo. Mentem até para a amiga mais próxima, pois se sentem envergonhadas e incapazes."

Para o sexo masculino, a ansiedade de mostrar grande performance ainda existe, tornando-os inseguros. “Muitos homens, mesmo com muito desejo, se sentem acuados diante de parceiras mais liberais, por conta daquilo que aprenderam na infância”, diz o sexólogo carioca Amaury Mendes Jr. "O medo se reflete em pouca ou nenhuma ereção."

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