Comportamento

Jovens em cargos de chefia são uma realidade; veja como evitar conflitos

Isadora Brant/UOL
Juliana Manzatto, que aos 21 anos ocupou pela primeira vez um cargo de chefia imagem: Isadora Brant/UOL

Andrezza Alves

Do UOL, em São Paulo

Aos 19 anos, a então estudante Juliana Manzatto conseguiu um trabalho temporário como agente de call center em uma compahia aérea na Espanha, onde cursava turismo. Dois anos depois, já era supervisora. Aos 21, ela foi encarregada de chefiar uma equipe com idade média de 30 anos --a subordinada mais velha, acima dos 40, estava na empresa havia dez anos, interessada no mesmo cargo. Nem é preciso dizer que a equipe não vibrou por ter uma moça tão jovem no comando. Juliana conta que as funcionárias mais velhas, até então suas amigas, decidiram não conversar mais com ela. Há tempos, encontrar chefes mais jovens do que os subordinados no mercado de trabalho é uma realidade, principalmente em empresas de vanguarda, com ambientes mais informais e baseadas em inovação e criatividade. Se você ainda não é chefe, prepare-se: a possibilidade de ter alguém mais novo lhe dizendo o que fazer é grande.

"Essa é uma realidade forte desde que as empresas começaram a investir em jovens com melhor formação em programas de trainee", diz o headhunter Marcos Prospero, 43, sócio da Robert Wong Consultoria Executiva. Com o treinamento intensivo dado aos trainees, a ideia é que eles sejam efetivados em cargos de liderança, como coordenador ou gerente --e com menos de 30. "São programas de aceleração de carreira. O trainee se torna chefe de pessoas mais velhas que não começaram como ele", afirma. Para a empresa é vantajoso promover um profissional (competente, claro) jovem. Além de ter boa parte da formação profissional seguindo os princípios da companhia e não ter vícios, basta dar um bom aumento para satisfazer o funcionário, enquanto trazer um gestor de outra empresa sairia bem mais caro.

Para Julio Bonrruquer Neto, 32, diretor em São Paulo da consultoria em recursos humanos De Bernt Entschev --no cargo desde os 30--, o momento é de igualdade. "Quando começou a primeira geração de pessoas se formando nos ambientes internacionais, houve uma supervalorização do profissional jovem, mas depois da crise note-americana houve um certo recuo", diz. "Meus clientes pedem características, independentemente da idade, que abrem portas tanto para os jovens quanto para os mais experientes".
 

  • Ter um chefe mais jovem do que você não é motivo para se sentir desvalorizado


Fórmula para conflitos
O resultado é uma mistura de gerações coexistindo no mercado de trabalho. "Pela primeira vez, temos quatro gerações trabalhando juntas e com cabeças muito diferentes", diz Prospero. É quase a fórmula perfeita para conflitos. Prospero sabe muito bem o que é isso. Aos 23, entrou em um banco como chefe de grupo e, dois anos depois, aos 25, foi promovido a gerente. Só saiu de lá diretor. E em todas as promoções teve de lidar com subordinados mais velhos resistentes. Bonrruquer Neto tinha seus conselhos e diretrizes ignorados por dois membros da equipe.

Embora seus chefes diretos tenham apostado na capacidade de Juliana, do início do texto, outros ficaram em dúvida se deveriam promover uma menina tão jovem. "Foi um ano inteiro tendo que provar que eu era boa profissional e competente para o cargo, sem jamais demonstrar qualquer tipo de insegurança", diz. "Elas tinham que me respeitar porque não havia alternativa, mas muitas vezes perguntavam para outra pessoa se era aquilo mesmo que tinham que fazer". Pouco tempo depois, Juliana virou chefe de operações, com a equipe mais amigável. Já formada, voltou para o Brasil no começo de 2011. Hoje, aos 25, é gerente de operações e de call center, onde não enfrenta resistência dos colegas.

A energia de jovens gestores atrai as atenções dos presidentes das empresas que buscam uma visão atualizada de tendências de mercados. "Os jovens gestores são pessoas de excelente formação e com enorme direcionamento em resultados", diz Prospero. Mas, é fato, o que sobra de disposição, falta em experiência, o que incomoda os subordinados mais velhos.

Seja você um jovem líder ou um funcionário mais experiente, veja dicas de boa convivência.

 

VEJA ERROS COMUNS DE CHEFES E SUBORDINADOS

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Inabilidade com a gestão de pessoas: compreenda que as pessoas são diferentes e as relações devem ser singulares. "Se você não souber isso, irá se impor das maneiras erradas, aumentando a crise", diz o headhunter Julio Bonrruquer Neto. Nunca deixe chegar ao ponto em que seja preciso provar quem é que manda e não seja um chefe que não se mistura. Vale jogar bola e participar de happy hour. Fora do trabalho é mais fácil quebrar as barreiras.Não aceitar o chefe: é natural ver uma pessoa muito mais jovem e com menos experiência do que você ser promovida e pensar: "Por que não eu?". Há empresas mais tolerantes à resistência e outras menos. É melhor não arriscar. "Entenda que esse é um fato consolidado, que, se o jovem está lá, é porque tem méritos", diz Bonrruquer Neto. Resta entender, por meio de muita conversa, como cada um pode ajudar o outro profissionalmente.
Imaturidade e ansiedade: todo jovem quer que tudo aconteça muito rápido, o que pode ser um problema. "A geração Y é ansiosa, acha que pode mudar o mundo em cinco anos e ficar milionária em três", diz o headhunter Marcos Prospero, sócio da Robert Wong Consultoria Executiva. "Essa opinião é típica da imaturidade. As pessoas não amadurecem tão rapidamente". O perigo mora em proteger-se no poder da função, sendo agressivo e arrogante com os funcionários e sem abrir espaço para a equipe.Resistir às ordens: "O maior problema que pode acontecer quando há um chefe jovem é o não reconhecimento da liderança", diz Bonrruquer Neto. Não transforme o seu ambiente de trabalho em espaço de fofocas, intrigas e insubordinação. É preciso aceitar que, ainda que seu chefe tenha menos experiência que você, é ele quem está à frente da equipe, pois os superiores acreditaram em seu potencial. Não cumprir as solicitações, não dar ouvidos a conselhos e checar com outro superior se você deve ou não acatar as tarefas podem te fazer perder o emprego.
Falta de diálogo: "Quem não ouve é chefe, quem ouve é líder", diz Prospero. É importante ouvir o que as pessoas com experiência têm a dizer. "Entenda o que cada pessoa da equipe pode dar para melhorar o grupo, além de ter muito claro o que motiva cada uma", afirma Bonrruquer Neto. A melhor maneira de lidar com membros resistentes é ter maturidade para conversar e descobrir como trabalhar junto e trocar experiências. Se nem com muito diálogo a situação se resolver, é preciso tomar uma atitude drástica, como desligar o membro que causa problemas.Não refletir sobre o fato: "É importante fazer uma autocrítica para entender por qual motivo um jovem está progredindo na carreira e você não está se desenvolvendo", afirma Prospero. Segundo ele, o principal motivo é a atitude, mas é possível que o profissional mais experiente não esteja na empresa mais adequada. É possível que, para a cultura desta empresa, você não seja o gestor mais adequado, mas para outra pode ser o ideal. "É essencial refletir sobre a atividade que a pessoa realiza. Se faz uma coisa que não gosta, nunca será bom", diz.

 

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