Relacionamento

Amar alguém do mesmo sexo tem peculiaridades como um guarda-roupas dobrado e duas TPMs

Rodrigo Paiva/UOL
Guilherme (esq.) e Jorge estão juntos desde 2011 e dividem a casa com o cachorro Paco e o gato Pepe imagem: Rodrigo Paiva/UOL

Daniel Ribeiro

Do UOL, em São Paulo

 

Amar é saudável, inspirador e sexo é um ótimo exercício, mas cada casal é um caso. Uma reclamação comum de muitos namorados é um ser mais caseiro e o outro adorar festas. Há questões, porém, que afetam apenas alguns casais, como ter medo de caminhar de mãos dadas na rua. Namorar alguém do mesmo sexo é um caminho de felicidade e tropeços (assim como namorar qualquer pessoa, claro, mas com algumas particularidades).

Ter um relacionamento com um igual pode trazer benefícios que você jamais imaginou. “Uma grande vantagem é que eu ganhei um guarda-roupas inteiro” conta Juliana Ghirello, 24 anos. “Quando a Carol e eu fomos morar juntas, começamos a usar com frequência as roupas uma da outra. Hoje em dia fazemos as compras juntas e só não compartilhamos os sapatos, pois calçamos números diferentes."

Juliana trabalhava no mesmo restaurante que Carolina Aboud, 26, quando se conheceram. A empatia se tornou amizade e logo romance, que já dura um ano e meio. Antes mesmo de completar um ano, as garotas já estavam morando juntas. “É uma delícia morar com a Carol, ela é muito mais cuidadosa e carinhosa que qualquer garoto”, afirma Juliana. Embora sejam duas TPMs todos os meses, elas concordam que passar estes dias difíceis perto de outra mulher facilita as coisas. “Mesmo que uma mulher tenha um namorado sensível, ele nunca vai saber o que ela está sentindo. Em casa, eu cuido da Ju e ela cuida de mim. A gente se entende em todos os sentidos, até nisso”, diz Carolina.

Para elas, a vida a duas vai muito bem. Há problemas, mas o que mais incomoda são as situações sociais. “Não ficamos completamente à vontade para andar de mãos dadas na rua. Se namorasse um menino, nem pensaria nisso, mas o preconceito existe e precisamos de cuidados adicionais”, comenta Carolina. Para Juliana, o desrespeito dos homens é mais constrangedor. “Quando eles veem duas mulheres juntas, mexe com a imaginação deles e muitos nos abordam de uma forma muito desrespeitosa. Eles pensam que nossa relação é uma festa e que podem participar quando quiserem”, diz Juliana.

Semelhanças e diferenças

A psicóloga e terapeuta de casais Claudia Feliciano conta que a maioria dos casais homossexuais que a procura traz queixas parecidas com as dos casais heterossexuais.

“Os problemas destes casais são os mesmos de qualquer outro. Quando eles procuram uma terapia é porque acham que a família está interferindo ou um se doa mais que o outro”.

A falta de liberdade para demonstrar afeto em público é a principal queixa dos casais gays, mas para a psicóloga é um dos fatores que os une.

"Os casais homossexuais lidam com o preconceito diariamente e isso os deixa fortes. Um dá força para o outro. Se não existir amor, se não existir o prazer na relação, não vale a pena enfrentar o mundo”, completa.

Carolina e Juliana dizem que entre elas nenhum problema passa sem uma boa conversa. “Mulher adora falar. Duas juntas falam sobre tudo. Isso é muito bom porque os homens geralmente não gostam de conversar”, diz Juliana. Entre os casais gays ouvidos pela reportagem, foi unânime a opinião de que as questões se resolvem mais rapidamente entre pessoas do mesmo sexo. Entender alguém igual a você parece mais fácil.

Entre eles
O arquiteto Guilherme Magalhães, 27, namora o professor doutorando Jorge Souza Junior, 29, desde 2001. “Nos conhecemos em um chat e marcamos um passeio no shopping. Estamos juntos desde então”, conta o arquiteto. Eles encaram a fidelidade como um compromisso de sentimento, companheirismo e respeito, mas admitem experiências sexuais fora de casa. Por conta da diferença de tamanhos, eles não compartilham roupas, mas às vezes dividem um terceiro elemento na cama.

“Fidelidade não é exclusividade sexual. Um homem entende isso com mais facilidade. Temos muito mais prazer e liberdade, até mesmo para ter experiências a três”, conta Jorge. Embora a ideia pareça ousada, a psicóloga e terapeuta de casais Claudia Feliciano explica que há muitos casais heterossexuais que admitem parceiros sexuais múltiplos, mas não falam a respeito abertamente. "É mais comum ouvir um gay falando de sexo com naturalidade, mas é errado pensar que heterossexuais não possam ter um acordo como esse" --assim como seria errado imaginar que todos os gays têm um relacionamento aberto. 

Guilherme e Jorge moram juntos há pouco mais de um ano com o cachorro Paco e o gato Pepe. A casa é responsabilidade dos dois. Antigamente, poderíamos dizer que esta é uma diferença dos casais heterossexuais, mas cuidar da casa já não é mais responsabilidade das mulheres. Para eles, o preconceito também é o principal desconforto de namorar um homem. “A primeira vez que saímos, fomos a um shopping e foi uma experiência muito estranha ver todo mundo parando para ver a gente caminhando de mãos dadas”, lembra Guilherme. Para Jorge muito do preconceito vem da imagem estereotipada que as pessoas fazem dos gays. Ele acredita que quando as pessoas conhecem um homossexual de perto entendem que não é nada de outro mundo.

Conquistar o compreensão da família e o respeito em ambientes profissionais pode levar tempo, mas para Juliana, Carolina, Jorge e Guilherme valeu a pena. Os casais fazem planos e pretendem passar ainda muitos anos juntos. As meninas planejam abrir um restaurante em breve e pensam e ter um filho. Eles esperam uma definição da bolsa de estudos que poderá levar Jorge a França por um ano para fazer planos mais concretos. Mas na França, no Brasil ou a distância, eles querem ficar juntos.

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