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Por que as mulheres ainda procuram videntes para saber sobre o amor?

Júlia Bax/UOL
Imersão em um universo "mágico" pode ser uma tentativa de desvendar os próprios mistérios, diz psicóloga imagem: Júlia Bax/UOL

Heloísa Noronha

Do UOL, em São Paulo

Muita coisa mudou na vida das mulheres desde os anos 1960, quando as feministas queimaram sutiãs em praça pública. Hoje elas mandam e desmandam nas empresas e nos países, podem escolher se vão ou não se tornar mães, esposas, donas de casa ou amantes e têm liberdade para colocar em prática seus desejos na cama quando e com quem quiserem. Só continuam com certa dificuldade para dominar as próprias emoções. E um fato parece imutável: a ânsia de driblar o destino e saber o que futuro lhes reserva ainda leva milhões de mulheres a recorrer à ajuda de videntes, principalmente para saber previsões sobre o amor.

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Vale tudo: astrólogos, cartomantes, quiromantes e especialistas em búzios, anjos, cristais e outros tipos de oráculos. Não importa o método, o importante é tentar descobrir quando o homem certo aparecerá, se depois que apareceu há chance de o romance decolar, se o namorado deve propor logo um compromisso mais sério, se a crise no casamento vai passar, se existe outra de olho nele... Mas há algo por trás dessa busca que, inicialmente, parece apenas ser um sintoma da típica curiosidade feminina? E por que, por mais autossuficientes e poderosas que sejam as mulheres modernas, elas ainda lançam mão de recursos sem comprovação científica para lidar com a afetividade?

Para a psicóloga e sexóloga Maria Claudia Lordello, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), um dos motivos é a dificuldade em lidar com a imprevisibilidade da vida, numa tentativa de eliminar a angústia do não saber. “As pessoas são movidas pela vontade de tentar controlar aquilo que é incontrolável. Há uma necessidade de combater a ansiedade diante do desconhecido”, afirma. Para psicóloga Regiane Machado Gomes, outra possível explicação é o anseio por segurança. “Videntes, de um modo geral, trabalham com respostas prontas e oferecem um mínimo de assertividade para as dúvidas dos clientes”, diz. Dificilmente as predições vão anunciar algo trágico ou ruim demais. “É diferente, por exemplo, de abrir o coração com uma amiga, porque ela nem sempre vai falar o que você deseja ouvir”, afirma.

Regiane diz ainda que tais consultas também atraem pelo aspecto lúdico da situação, que inclui símbolos, figuras míticas e mensagens, e que investir nesse artifício só por brincadeira, sem muito envolvimento, não faz mal. No entanto, desenvolver o hábito de condicionar ações e opiniões àquilo que um vidente diz pode virar uma muleta emocional, pois a pessoa deixa de se questionar para saber o que de fato quer.  

Para a psicóloga Angélica Amigo, a imersão em um universo tido como mágico é uma tentativa de desvendar os próprios mistérios e, principalmente, esclarecer a dúvida: será que ele me ama?. "Ninguém mais quer investir em um relacionamento se não houver uma segurança mínima”, diz Angélica. Para ela, esse receio sobre o objeto de desejo é normal. “A  questão é que, em alguns casos, a mulher não precisa só de respostas, mas também de aprovação. E muitas dúvidas surgem porque a pessoa tem pouco conhecimento sobre si mesma”, afirma. Para Maria Claudia Lordello, isso pode ocorrer porque buscar as respostas da vida em algo externo é mais simples do que procurá-las internamente. "Fazer uma autoanálise poderia trazer a consciência do que se espera e deseja da vida, além de ajudar a lidar com as expectativas não realizadas", diz. "Mas acaba sendo mais simples e confortável colher essas informações fora de si”.

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